São Paulo Fashion Week N44 / Dia 3

Para conferir o que rolou no primeiro e segundo dia de apresentações, é só clicar nos respectivos links.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

No terceiro dia de desfiles do SPFW N44, Giuliana Romanno, estilista bastante conhecida por sua alfaiataria sempre muito bem executada, abriu as apresentações trazendo novamente esse elemento tão presente no seu DNA, mas com uma modelagem quase que desconstruída. A assimetria, por exemplo, aparece em muitas das peças, bem como a leveza dos tecidos e dos shapes, que fogem de uma silhueta totalmente definida.

A coleção, além disso, foi toda pontuada por peças brancas e de tons claros (inclusive o rosa millennial, cor considerada mais pop do momento), focando na fluidez e na sensação de suavidade. Um outro lado de Giuliana que a imprensa especializada e os convidados do desfile – que ocorreu na galeria Nara Roesler – parecem ter aprovado com felicidade.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

Parece mesmo que a cada nova temporada, o status que Vitorino Campos possui de garoto prodígio da moda parece fazer ainda mais sentido. Nessa coleção, por exemplo, – que a meu ver é uma das mais importantes desse verão 2018 – o designer abriu mão de desfilar suas peças para deixá-las expostas (e possíveis de serem compradas!) na loja Pair, localizada nos Jardins, e também para apresentá-las ao público através de um editorial. Um conceito diferente, mas bastante eficaz.

Dessa forma, público e imprensa conseguiram observar ainda com mais proximidade os detalhes da coleção, criada toda em tons de branco, com poucos detalhes em preto, e que teve como inspiração o álbum Araçá Azul, de Caetano Veloso. Em um estilo quase futurista, as peças iam de trench-coats (maravilhosos!), até calças, macacões e camisetas com a palavra Trance escrita.

Uma coleção limpa, moderna e com uma visão de mercado bastante diferenciada, já que Vitorino disponibilizou alguns dos moldes das roupas para serem baixados de graça em seu site.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

O terceiro dia de desfiles do SPFW foi mesmo intenso. Depois de Vitorino Campos foi a vez de Lenny Niemeyer fazer uma das apresentações mais inspiradores de sua carreira, não apenas pelo tema da coleção, mas especialmente pela forma como essas aspirações foram traduzidas nas peças.

Tudo começou com as pesquisas que Lenny fez acerca do trabalho de duas artistas suecas chamadas Hilma Af Klint e Emma Kunz, duas mulheres que durante o século XIX incorporavam à sua arte elementos espirituais, misturando processo artístico com rituais místicos. Admirada pelo trabalho que encontrou, Lenny transportou alguns desses conceitos (e das formas encontradas na arte das suecas) para suas peças. O resultado é um verão de formas geométricas, capas esvoaçantes, tons degradês marcantes e maiôs com recortes estratégicos (formando eles mesmo desenhos). Um mosaico de cores e formas que impressiona e impacta. Estonteante do primeiro ao último look.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

Ainda que seja grande a divisão entre quem amou e odiou a coleção apresentada por Vanessa Moe no terceiro dia de SPFW, algo que não se pode negar mesmo estando em qualquer um desses extremos, é que a estilista respeitou o tema que se propôs a falar. Diferente de marcas que vire e mexe caem na questão da apropriação cultural, Vanessa se propôs a mostrar uma coleção que de fato valoriza e exalta a cultura aborígene da Austrália, país em que a estilista mora há 15 anos. Para isso, não só os produtos utilizados em suas peças e até mesmo a maquiagem das modelos (que em sua maioria fazem parte de clãs da Oceania) vem de fato de materiais próprios dessas tribos, como ainda houve um cuidado muito grande em homenagear o poder dessas comunidades – dentro, é claro, de uma realidade tão diferente quanto a de uma semana de moda. Uma maneira bonita e respeitosa de mostrar que a moda, em essência, vai muito além da “tendência da próxima estação”.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

Esqueça os biquínis e as muitas horas debaixo de sol. O verão 2018 da PatBo fala sim sobre a praia, mas não do jeito que estamos acostumados. É como se as modelos fossem até lá apenas pra passear, pra molhar os pés na areia, mas não de fato entrar no mar. Essa mistura entre uma quase moda praia com uma moda urbana acerta em cheio, e traz uma riqueza de estampas e detalhes pra coleção que fizeram desse um dos melhores desfiles da marca.

Além disso, uma das coisas mais interessantes dessa apresentação é a evolução de looks apresentados, que começam na década de 20 e desembocam nos dias atuais. Impossível ver as primeiras peças desfiladas e não lembrar das mulheres dos livros de história passeando com suas sombrinhas em pleno Rio de Janeiro de décadas atrás. Um pouco de história, muito de moda e um sem fim de inspirações.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

Apesar de ser o segundo desfile da Two Denim no SPFW, essa é a primeira vez que a marca se apresenta sobre a direção de Karen Fuke, ex-estilista da Triton e alguém que definitivamente sabe se conectar com a moda jovem. Isso fica bem claro em toda a apresentação da Two Denim, que mistura elementos do universo da dança flamenca com o jeans, grande estrela da marca, em uma coleção descolada e moderna.

O denim, que aparece em calças, jardineiras, vestidos, jaquetas, saias, blusas e até botas, se mistura a outras peças de algodão, sempre de maneira descontruída e assimétrica. Importante destacar o trabalho com os babados, grande referência do figurino da dança flamenca, que invade as barras e mangas das camisetas (sempre em um efeito “cascata”) e aparece também de maneira sobreposta nas saias.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 3

Possivelmente um dos desfiles mais aguardados dessa semana de moda devido a boa repercussão que suas últimas apresentações tiveram, a LAB continua a fazer bonito. Em uma apresentação pra cima, com muita música e muita animação, a marca comandada pelos irmãos Emicida e Evandro Fióti fez de novo a sua mágica: eles falaram da moda das ruas, da moda acessível, da moda que pensa em todos os tipos de corpo, pra um público e um evento que quase nunca se lembram disso. Inspirados por dois grandes temas – a liberdade e o voo dos pássaros – a coleção segue o estilo despojado de suas outras apresentações, mas agora com um pouco mais de cor e estampa em suas peças. Uma marca que, além da boa roupa que faz, tem uma importância e representatividade enorme dentro do SPFW.

Fotos: Zé Takahashi da Agência FOTOSITE para o FFW

São Paulo Fashion Week N44 / Dia 2

Para conferir o primeiro dia de apresentações, é só clicar aqui.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Apresentando uma coleção onde o preto e branco são as grandes estrelas, – quase sempre em estampas lisas, que fazem as cores se tornarem ainda mais fortes e presentes no desfile – a Uma se inspirou no trabalho do artista americano CyTwombly para criar os poucos grafismos que aparecem nas peças, mas que trazem um ar ainda mais sofisticado aos looks apresentados.

Com um desfile que aconteceu na Japan House, centro cultural dedicado a cultura japônica, inaugurado esse ano em São Paulo, a marca apostou em tecidos bastante delicados e acetinados, que pareciam prestes a esvoaçar pela passarela. Com uma grande quantidade de vestidos longos, robes e macacões, as peças transpiravam conforto e tinham um quê de esportivo chic muito leve e fluido. Uma coleção bonita de se ver e que ainda pontuou alguns looks laranjas estratégicos no meio da apresentação.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Com a proposta de falar sobre o empoderamento feminino, a Paula Raia fez uma apresentação bastante diferente do usual, utilizando um espaço artístico localizado na Vila Madalena para criar uma espécie de performance da coleção. Em quatro ambientes decorados com cristais, as modelos passeavam com calma e delicadeza, de modo que o público pudesse acompanhar seu passeio – e suas roupas – de maneira muito mais detalhista.

As peças eram quase sempre vestidos esvoaçantes, cheios de camadas e em tons de rosa claro, que se repetiam também nos cristais e nos robes distribuídos para a imprensa durante a apresentação. Tudo muito místico e sensorial, mas ao mesmo tempo, bastante longe da ideia que eu acredito que seja a de empoderamento feminino. Não que o rosa ou a delicadeza das peças não possam significar isso, mas essas já são imagens tão batidas sobre as mulheres, que fiquei um pouco decepcionada com tudo o que a coleção poderia ter sido e não foi.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Desde quando comecei a acompanhar desfiles, sempre me senti impactada pelas coleções da Osklen e pela filosofia da marca em relação aos materiais de sua produção, coisa bastante rara de se ver nas grandes marcas daqui ou lá de fora. Só que nessa coleção, em especial, a grife de Oskar Mitzvah conseguiu elevar isso a uma potência ainda maior, fazendo uma apresentação extremamente viva, de bom gosto, com roupas até mais comerciais do que de costume e com uma história linda por trás de si.

Pegando como referência as obras de Tarsila do Amaral, a Osklen mostrou na passarela 42 looks que parecem eles próprios uma representação do processo artístico da modernista. Começando com roupas em preto e branco que remetiam a esboços feitos de lápis e nanquim (e que muitas vezes apareciam eles próprios estampados nas peças), e indo até suas pinturas mais famosas, como o Abaporu, a marca fez uma homenagem linda e muito bem pensada da artista.

Algumas peças como vestidos e conjuntinhos (explorando bastante o uso da seda e do linho), traziam os quadros inteiros estampados, criando um visual extremamente poderoso e que não deixava de lado o DNA da marca.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Assim como nos últimos anos as roupas da academia têm invadido as ruas, ainda que com uma nova roupagem e proposta, vem se tornado cada vez mais recorrente ver peças do beachwear sendo usadas no dia a dia. Prova disso são os maiôs que vem sendo usados cada vez mais como bodys, as saídas de praia que têm ficado cada vez mais chics e sendo estendidas para eventos sociais, e até as cangas, que tem aparecido no lugar das saias. Elementos que estavam todos no desfile da Vix, marca de moda praia que desfilou pela segunda vez no SPFW.

Só que além das mudanças pelas quais o beachwear parece passar, a coleção da Vix tem ainda seu maior espaço para a moda praia “tradicional”, ainda que o seu tradicional seja muitas vezes pontuado por partes de baixo de cintura alta e maxi chapéus que roubam a cena. Tudo com uma inspiração de “Trópicos”, tema da coleção que se faz bastante presente nas cores e estampas desfiladas.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Ainda que Fabiana Milazzo tenha estreado no SPFW na edição passada com uma coleção muito bem falada, essa segunda apresentação da estilista mostrou um trabalho ainda mais focado nos detalhes e no uso inteligente dos materiais. O caimento das peças, os volumes e os bordados parecem sair do lugar comum, fazendo com que a gente não desgrude dos olhos de cada novo look que cruza a passarela.

A coleção é toda de moda festa e teve como inspiração o mundo dos sonhos, que foi levado para as roupas através das estampas oníricas e da leveza das peças. Além do impacto que os vestidos me causarem, gostei especialmente de alguns looks que trocaram as sandálias de salto alto por mules bordados, deixando ainda mais fresca a apresentação.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

No final do ano passado, lembro de ter assistido ao desfile do João Pimenta lá na Bienal e ter dito que ele havia conseguido se superar daquela vez. O problema é que isso parece ser uma constante, já que a cada nova edição, ficamos com essa sensação de que a marca João Pimenta está ainda mais forte, ainda mais bonita, ainda mais comercial e ainda mais conceitual, tudo ao mesmo tempo.

Com foco na moda masculina e sempre trabalhando para um público fiel, que preza por sua veia artística, João Pimenta tem uma liberdade (e ousadia) para trabalhar que é bonita de se ver. Como nessa coleção, onde ele fala sobre céu, inferno e um meio-termo entre esses dois (uma espécie de purgatório, talvez?), e não tem medo de misturar referências fetichistas com peças fluidas e lisas, e um trabalho primoroso de bordado.

Destaque especial para as amarrações que aparecem de diferentes formas nas peças e para as estampas de chamas dos últimos looks, que criam efeitos incríveis.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Com uma cartela de cores bem marcante e que dita o tom da coleção, a Lilly Sarti, marca comandada pelas irmãs Lilly e Renata Sarti, fez uma apresentação que aposta em looks bastante usáveis nas ruas, e que prometem despertar o desejo das mulheres urbanas que buscam referências de moda que sejam práticas e funcionem no dia a dia.

Os conjuntos mais estruturados (com partes de baixo feitas com de couro de cabra) se contrapõem aos macacões despojados e aos vestidos esvoaçantes, que apesar da fluidez, nunca perdem de vista o formato do corpo feminino. Prático, belo e bem feito.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 2

Sem medo de fazer um caldeirão de cores, estampas, materiais, tecidos e técnicas, a Triya, famosa marca de beachwear, desfilou na segunda-feira uma coleção cheia de vida, de diferentes estilos e com grandes destaques ao longo de sua apresentação, mas que quando vista toda junta, não pareça criar uma unidade entre si.

Tendo como inspiração o poema de Oswald de Andrade, “Erro de Português”, que fala sobre a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500, a marca se propôs a desvendar a riqueza da natureza brasileira, das vestimentas dos índios e até dos bichos que por aqui habitavam, vista toda do ponto de vista dos colonizadores. Assim, além das estampas que parecem passear por rios e florestas, as peças ganham técnicas bastante artesanais, seja em maiôs, saídas de praia, biquínis hot pants e até calça. Uma mistura bonita, mas que teria ganhado um pouco mais de brilho se tivesse focado em apenas algumas das inspirações e deixado a coleção mais coesa.

 

Fotos: Zé Takahashi da Agência FOTOSITE para o FFW

Beijos e até já, já com o dia 3!

São Paulo Fashion Week N44 / Dia 1

Ontem começou mais uma edição do SPFW, dessa vez com a Iódice abrindo os trabalhos da temporada (a À La Garçonne já havia se apresentado no sábado, mas por motivos que não foram divulgados, a marca ficou de fora do line-up oficial do evento). Com uma programação muito mais corrida do que o normal, esse SPFW N44 terá apresentações só até quinta-feira (e não até sexta, como de costume), com uma média de oito desfiles acontecendo por dia! Ou seja, dá-lhe correria pra acompanhar tudo o que vai rolar essa temporada, que acontece mais uma vez na Bienal do Ibirapuera.

Infelizmente, dessa vez não vou conseguir dar um pulinho por lá pra conferir a edição, mas em compensação, decidi fazer aqui no blog algo de que gosto muito: falar um pouco sobre as inspirações de cada desfile e dar meu pitacos sobre as coleções apresentadas. Espero que vocês acompanhem os posts e tenham um tantinho de paciência, já que eles podem atrasar um pouquinho, mas aos poucos vão aparecendo por aqui :)

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 1

Mesmo fora da programação oficial do SPFW, decidi falar sobre a apresentação linda da À La Garçonne, marca comandada por Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza, que desfilou sábado no Theatro Municipal de São Paulo.

Assim como em outras coleções, a marca não se prendeu a um estilo único e colocou na passarela uma variedade de peças que tendem a agradar diversos públicos. Os looks vão do total streetwear até vestidos rodados de estampa liberty, e é bem gostoso ver uma grife que faz da sua pluralidade sua marca registrada.

Em uma entrevista que os designers deram para o site da revista Marie Claire, achei especialmente interessante quando Herchcovitch disse que a À La Garçonne era uma marca para todo mundo, com a liberdade de fazer o que quisesse, a hora que quisesse. E é esse mesmo o conceito que se vende na passarela. São quase 70 looks que vão da menina de camiseta branca com o nome da marca impresso, até as mulheres poderosas com vestidos cheios de rendas, e os garotos de parka (sempre presentes nos desfiles da marca) e peças militares. Tudo lá com o bom gosto de sempre da ALG e o styling incrível de Maurício Ianês.

São Paulo Fashion Week N44 | Dia 1

Foi em clima de aniversário, na comemoração de seus 30 anos, que a Iódice fez seu desfile no Palácio Tangará, hotel que foi inaugurado há pouco tempo em São Paulo. E como todo aniversário que se preze, especialmente naqueles em que a data comemorada é tão simbólica, há sempre um pouco de nostalgia no ar, como se olhássemos para o passado para ter forças para enfrentar o futuro.

A proposta que a Iódice colocou na passarela segue bem essa ideia e mistura tudo aquilo que já faz parte da história da marca com um pouco de frescor dos novos tempos. Na homenagem ao passado, estão lá as mulheres sensuais da grife, de vestidos longos e fendas aparentes, sempre com peças assimétricas. Do frescor dos novos tempos, vem as cores e estampas geométricas, todas inspiradas pelo trabalho da artista Sonia Delaunay, além de um pouco de brilho e franjas, que aparecem ora nos casacos, ora nas barras das saias e ora em camadas nos vestidos.

Uma festa colorida, sexy e elegante, bem como os 30 anos merecem.

Fotos: Zé Takahashi da Agência FOTOSITE para o FFW

 

Beijos e até amanhã com os desfiles do segundo dia.