A hora de mudar

No início da minha adolescência eu descobri que meu nível de ansiedade era muito acima do que poderia ser considerado normal. Por menor que fosse o problema eu me afligia demais e sofria com uma preocupação e um nervoso fora do comum.

Foi nessa época também que eu descobri que toda essa ansiedade que eu sentia (e que infelizmente até hoje me acompanha, ainda que agora de forma muito mais controlada), sempre dava um jeito de “ganhar um corpo” e se refletir em algum problema mais palpável na minha vida. Se hoje, por exemplo, ela aparece em forma de enxaqueca, um problema bem presente e sério que eu enfrento, na época todo o meu stress acabava se refletindo numa queda de cabelo descontrolada.

Parecia que tudo que eu sentia no meu lado emocional se canalizava nos meus fios: era frizz, era perda de cabelo, era opacidade, era falta de vitaminas… Era um problema que puxava outro.

Levou muito tempo e muitas horas de atenção e cuidado da minha tia, que é cabeleireira e sempre cuidou dos meus cabelos, pra que eu conseguisse controlar a situação e voltasse a ter um cabelo saudável e que dispensava um cuidado “normal”.

Portanto, foi só quando eu já tava terminando o ensino médio e cheguei ao fim do meu tratamento capilar, depois de muito tempo e muita dedicação investidos, que eu descobri que eu não só tava contente com o resultado, mas que eu tava verdadeiramente apaixonada pelos meus fios.

Eu amava que eles fossem longos, enormes, nada certinhos. Amava que o loiro dele era uma das características mais marcantes da minha família e que a cor não era chapada e criava várias nuances divertidas, que se iluminavam de jeitos diferentes dependendo de como o sol batia. Amava o meu cabelo porque ele era meu, com uma personalidade e jeitão rebelde que eram só dele.

Em 2011, numa época capilar já saudável, mas bastante rebelde. A foto é da Babi Carneiro, no meio da Avenida Paulista.

Em 2011, no meio da Avenida Paulista, numa época capilar já saudável, mas bastante rebelde. A foto é da Babi Carneiro (www.thecactustree.blogspot.com).

Foram ao menos oito anos dele enorme assim. Por mais que eu cortasse os fios, repicasse as pontas, cortasse franja, fizesse uma mudancinha aqui ou outra ali, o comprimento nunca se alterou consideravelmente. A verdade é que no fundo eu gostava dele assim. Achava divertido poder fazer mil penteados diferentes ou simplesmente deixar o cabelo soltão sem nada, fazendo com que ele tivesse vida própria.

Mas é engraçado como depois de um tempo, e depois das pessoas te verem com o mesmo cabelo repetidas vezes, começa a rolar um sentimento geral de que tem algo de errado com você por não querer mudar. E não que elas fizessem por mal. Eu sei que eram conselhos queridos, vindos de gente querida de verdade. Mas parece que rola uma cultura na nossa sociedade de que o normal é sempre estar insatisfeito com alguma coisa da nossa aparência. Tem alguma coisa errada aí se você não reclama pelo menos um pouquinho do seu corpo.

Outro clique da Babi, agora na Pinacoteca de São Paulo, mostrando uma das coisas que eu mais gosto do meu cabelo: o reflexo que o sol faz nele.

Outro clique da Babi, agora em 2012, na Pinacoteca de São Paulo, mostrando uma das coisas que eu mais gosto do meu cabelo: o reflexo que o sol faz nele.

Mas ué, a ideia não é a gente aprender a se amar?!

Era impressionante como todo mundo falava que achava meu cabelo lindo, mas ao mesmo tempo botava uma pressãozinha sobre o fato de eu não querer cortá-lo, como se fosse ruim não estar disposta a mudar. E é engraçado como, de certa forma, eu me sentia culpada por isso. Eu dizia pras pessoas que só não fazia porque não tinha coragem, como se aquilo fosse um pedido de desculpas, como se eu precisasse realmente achar uma justificativa para o fato de não querer ter um novo visual.

Em 2015, de frente pra London Bridge, com um cabelão sendo sacudido pelo vento. A foto é do Di.

Em 2015, de frente pra London Bridge, com um cabelão sendo sacudido pelo vento. A foto é do Di.

No final do ano passado, depois de oito anos, pela primeira vez eu comecei a achar que meu cabelo não tava mais me fazendo feliz. E por vontade própria, decidi que em breve seria a hora de mudar.

Agora em março, quando cortei e vi o resultado, acabei lembrando de todo esse histórico capilar que começou lááá no início da adolescência. E percebi, contente, que o que eu sentia antes não era falta de coragem de mudar, como eu costumava dizer para os outros. Era falta de vontade mesmo.

Eu não tinha motivo pra querer mudar algo na minha vida que me fazia feliz, que me deixava confortável. A partir do momento que aquilo começou a me incomodar, eu fui lá e fiz. Apenas por mim e não por mais ninguém.

Um novo cabelo pra me fazer feliz.

Em 2016, com um novo cabelo pra me fazer feliz.

Fico aqui pensando: se eu tivesse feito esse corte antes, apenas pra agradar os outros, será que eu teria gostado tanto dele quanto gostei? Muito provavelmente não, né. Por menor que seja uma determinada mudança na nossa vida, a gente tem que mudar pela gente, por aquilo que a gente quer e nos faz bem. Se não é pela gente, não funciona do mesmo jeito. É aquela peça do quebra-cabeça que de longe até parece encaixar, mas que quando a gente olha bem de perto, fica sobrando um pouquinho nas bordas.

O resultado desse novo cabelo, por ter sido feito agora e porque eu realmente queria, tá sendo incrível. Tá me fazendo feliz e me deixando com uma sensação de liberdade. E melhor ainda, vai poder ajudar alguém também, já que espero ainda essa semana mandar o rabinho de cabelo que cortei para a Rapunzel Solidária, uma ONG que realiza um trabalho super maneiro confeccionando perucas para pessoas necessitadas.

Mais um pouquinho de felicidade em uma história que por ter sido do jeitinho que foi, sem tirar nem por, me fez ver algo muito maior e muito além do que um simples corte de cabelo.

Bisous, bisous e até amanha!

365 Days of Drag

Vocês estão acompanhando a oitava temporada de RuPaul’s Drag Race? Essa temporada tá apenas espetacular e eu tô verdadeiramente impressionada em como a produção e Mama Ru conseguiram chegar a uma equipe final tão sólida e diferente. Acho que é superimportante, especialmente em um reality show como esse, que se abra espaço para mostrar diferentes tipos de trabalhos e personas.

Jaremi Carey é o homem por trás da drag queen Phi Phi O’Hara

Mas drags incríveis e muito talentosas não são exclusividade da oitava temporada, a gente sabe. Tanto é que Phi Phi O’Hara, uma das participantes mais controversas e polêmicas da quarta season, sempre teve um trabalho muito incrível dentro e fora do programa.

Independente de uma torcida favorável ou não a ela durante o reallity, – até porque todo mundo sabe que assim como em qualquer outro programa de televisão, tudo ali dentro é editado e contado como uma historinha para o público, criando “personagens” pra cada competidor – não tem como negar que Phi Phi é um arraso. Como ótima maquiadora e artista drag que é, ela consegue transformar seu visual em tudo que desejar. E eu juro que não tô exagerando.

A prova disso é o seu mais novo projeto, o 365 days of drag, onde Phi Phi lança mão de muita maquiagem e figurinos deslumbrantes pra se transformar em um personagem diferente a cada dia,  durante 365 dias corridos.

Pela sua conta no instagram (@phiphiohara) a gente vai acompanhando todas essas transformações, e se encantando e se chocando ao mesmo tempo com cada uma das figuras que ela cria. Fica nítido como há muito trabalho, muito tempo gasto, muitas dedicação e muito amor pela arte drag envolvidos. Além disso, há uma variedade enorme de materiais usados, tanto na maquiagem quanto nas roupas, e tem uma atenção tão grande depositada nos detalhes que dá pra ver que todas as produções foram feitas com muito profissionalismo e perfeccionismo.

Algumas imagens são criações da cabeça da Phi Phi, mas outras são interpretações de personagens de desenhos super queridos. Já teve, por exemplo, uma série só com as personagens de My Little Pony (já contei que acho Twilight Sparkle uma graça?) e uma com personagens de desenhos animados dos anos 90 como Lil DeVille e Didi Pickles dos Rugrats, Jubille dos X-Men e Dot do Animaniacs.

Hoje, 1º de abril, o projeto já tá na sua 90ª transformação, mas tendo em vista que serão 365 dias, dá pra esperar portanto ainda muitas e muitas criações. E aaah, Phi Phi já declarou que vai rolar uma semana especial só com as evoluções do Eevee do Pokémon! Eu não consigo nem imaginar quão incrível vai ser isso!

Pra quem quiser saber mais do trabalho da Phi Phi e acompanhar seu projeto, tem aqui o instagram, facebook e twitter dela. O trabalho tá bárbaro, vale mesmo a pena prestigiar.

Bisous, bisous e até amanhã!

As maquiagens surreais de Mathu Andersen

Depois de assistir sete temporadas de RuPaul’s Drag Race (algumas até mais de uma vez), foi obviamente impossível eu não ter ficado interessada em saber mais sobre a história do Mathu Andersen. Além de produtor criativo do programa desde a primeira temporada, Mathu dirige pessoalmente algumas provas da disputa (como sessões de fotos e testes de câmera) orientando as drags em suas apresentações. E, claro, é uma das pessoas mais artísticas e inspiradoras que eu já vi na TV, não apenas porque é amigo e maquiador oficial de Mama Ru há muitos anos, mas também porque Mathu trata da beleza e da maquiagem como arte em seu mais bruto estado.

Diante de um currículo como esse, não dá pra negar a importância do trabalho de Mathu em parceria com outras pessoas e veículos, mas, – e aqui chegamos ao motivo que me levou a escrever esse post – o que mais me chama a atenção de fato nesse maquiador é o trabalho que ele realiza sozinho, usando de seu corpo como uma espécie de tela em branco para suas criações.

As suas famosas selfies artísticas – como ficaram conhecidas na internet – são retratos em que Mathu brinca com seu próprio corpo usando maquiagens, perucas, cílios, tintas, figurinos e tudo que estiver ao seu alcance para se transformar. A ideia de gênero se perde nas suas fotos e existe espaço apenas para o surreal, em um processo artístico maravilhoso e inspirador.

Mathu pode ter cabelos e barba rosa, pode ter olhos profundos e enigmáticos, pode ter metade da cabeça se desfazendo de tinta em uma ilusão de ótica, pode usar terno e salto alto, pode “ganhar chifres e ossos aparentes”; todas as transformações que ele quiser fazer em seu corpo ganham vida e o resultado pode ser belo, dramático, aterrorizante ou chocante (mas sempre inspirador).

Toda a beleza do trabalho de Mathu pode ser conferida em seu Instagram, onde o artista posta suas criações mirabolantes. Apesar de sua conta ser privada, o maquiador tem milhares de seguidores e por conta de tanto frisson virou até tema de exposição! Em novembro do ano passado, a mostra “The Instagram Art of Mathu Andersen” aconteceu na World of Wonder Storefront Gallery e foi um sucesso.

Eu fico completamente admirada com as transformações que o Mathu consegue fazer porque parece que ele suga todas as possibilidades que a moda e a beleza oferecem e brinca de viver cada dia como um personagem diferente. É tudo tão bem executado e pensado nos mínimos detalhes, que a imagem final carrega atrás de si muito mais do que “apenas uma maquiagem” ou “apenas uma roupa”. Ela conta uma história que faz a gente acreditar num ser fantástico cheio de cores e roupas absurdas, e que vive em um mundo surreal e maravilhoso.

Aqui em cima tem uma entrevista maravilhosa que o RuPaul fez com o Mathu em que ele conta como funciona seu processo criativo, o porquê da mudança para Los Angeles e o que ele acha de seu sucesso na internet. Uma inspiração sem fim pra todo nós.

E ah, Mathu Andersen foi recentemente indicado ao Emmy Awards 2015 pela maquiagem que fez em RuPaul no terceiro episódio da sétima temporada de RuPaul’s Drag Race. Tô torcendo demais pra que ele ganhe!

Bisous, bisous

Eu quero mudar o mundo hoje

Desde quando eu era pequena, eu sempre tive essa vontade de mudar o mundo. Essa ideia de que um dia, quando eu fosse mais velha e tivesse realizado coisas muito incríveis, eu poderia olhar pra trás e veria que sim, eu tinha feito algo grandioso o suficiente pra dizer que pelo menos uma parte do mundo eu havia mudado. Que eu havia conseguido criar ou transformar algo muito importante, algo que havia melhorado a vida de outras pessoas, algo que havia feito a diferença na vida de alguém.

{Revolution – The Beatles}

Essa ideia de que “um dia” eu precisava chegar lá sempre me acompanhou. Eu via essas pessoas que haviam construído coisas revolucionárias, que haviam descoberto curas, que haviam impactado positivamente outras pessoas e pensava que eu queria ser como elas. Que se eu batalhasse muito, estudasse muito, me dedicasse muito e me jogasse em um objetivo, um dia eu chegaria lá.

Um dia…

É engraçado que olhando agora pra trás e lembrando de todas as vezes que eu repeti isso – de certa forma tentando provar pra mim mesma que um sonho assim não era utópico –  eu sempre usava a palavra “um dia” relacionada a essa vontade. Era como se o fato de fazer algo muito grandioso estivesse intrinsicamente ligado ao amanhã. Porque, poxa, leva tempo algo assim, né? Como é que você muda a vida de alguém, cria algo incrível, transforma histórias que não são apenas a sua, do dia pra noite? Eu sempre coloquei na minha cabeça que esse tipo de coisa levava tempo.

Mas a verdade é: será que leva mesmo?

Na semana passada meu mundo teve um grande chacoalhão. Daqueles poderosos mesmo que fazem passar um filme na nossa cabeça e nos levam a repensar várias coisas tidas como certas na nossa vida. Isso porque alguém próximo a mim, alguém que eu convivo todo dia, alguém que eu não tinha escutado falar nos livros, nas entrevistas, nas minhas aulas de História, enfim, alguém não-longe do meu universo, fez a diferença na vida de alguém. Aquela diferença louca e gigante que eu sonho um dia realizar. Aquela diferença que transforma a vida e a história de muitas pessoas.

O mais incrível de tudo isso é que essa pessoa não apenas tá aqui, do meu lado, como também fez algo que estava ao meu alcance. Na verdade não só do meu, mas também no de você que tá sentado aí lendo esse texto, no do meu vizinho, no da minha família, no de quase todo mundo que eu conheço. A única diferença é que essa pessoa que queria muito mudar o mundo, que queria ser A transformação, achou uma maneira de fazer isso. Não “um dia”, mas hoje.

E de repente me deu esse choque de realidade de que ainda que algumas mudanças possam levar anos – afinal, descobrir a cura pra uma doença é de fato um processo longo – existem maneiras de impactar a vida das pessoas que só estão aí, a nossa espera. Ainda que eu sempre tivesse a consciência de que pequenas ações do dia a dia também são maneiras de fazer do mundo um lugar melhor, nesses últimos dias me caiu essa ficha de que existem formas de realizar grandes transformações hoje mesmo. Não amanhã, nem depois. E que se a gente de fato quiser, a gente até pode dentro de alguns anos escrever um romance que vai influenciar gerações ou criar um programa que ajude crianças carentes, mas que hoje, hoje mesmo, a gente poe sair à caça de transformações grandes pro mundo. Porque existem transformações ao nosso alcance. Porque a chance de fazermos uma revolução pode estar ali na esquina  agora mesmo.

E eu quero ser a pessoa que vai fazer isso. Você não?

Bisous, bisous