É permitido sonhar!

O último desfile do primeiro dia de SPFW fez muita gente rasgar elogios a torto e a direto pra Cavalera. Vi muita gente comentando que aquele tinha sido um desfile único, que há anos não se via nada igual da marca.

Eu sou apaixonada por desfiles que se entregam, que se jogam, que correm riscos. É claro que tem muito desfile corretinho que eu também gosto, – do tipo entra modelos desfilando na passarela, sai modelo desfilando, volta na fila final e acabou – mas quando algum desfile resolve fazer alguma coisa diferente, alguma coisa que mexe com o público, eu fico muito feliz.

O foco de um desfile é sim a coleção, é sim uma exposição para a imprensa, consumidores e público em geral daquilo que a marca trará em sua próxima temporada. Só que a gente sabe também que aquilo que aparece em cima da passarela é mais um preview, uma ideia do que vai de vez para as araras da lojas depois da apresentação. Muitas das peças desfiladas são apenas norteadoras do tema da coleção, da ideia que o estilista vai passar. Daí que quando elas ganham as ruas vão com uma roupagem bem mais usável, mais adaptada a realidade. Então na hora do desfile é sim permitido sonhar e ousar, é bom até que se mostre o lado da roupa fora do dia a dia, em seu contexto de ideia, de lúdico. Pra mim dá até mais sentido aquilo que entendemos como linguagem das roupas.

Na segunda-feira, enquanto assistia o desfile da Cavalera lembrei de algumas outras coleções que foram tão ou mais vibrantes, que mostraram sim cada detalhe da peça, cada tecido, cada silhueta e modelagem, mas que não deixaram de usar o espaço da passarela – ou o espaço fora dela – como uma forma de levar tudo isso de maneira mais divertida, mais reflexiva, mais inspiradora. De levar ao extremo a ideia da coleção.

 

Ronaldo Fraga - O cronista do Brasil

Tive a oportunidade de ver esse desfile aí ao vivo e foi emocionante.

O problema de falar de Ronaldo Fraga é que a gente acaba sendo sempre piegas. Fica difícil não ter carinho e respeito por esse estilista que fala de temas brasileiros de uma maneira tão pouco estigmatizada, que sabe ser tão “regional” e tão “mundial” ao mesmo tempo. Nesse desfile de verão 2012, o último da sua edição, Ronaldo Fraga falou sobre o sambista Noel Rosa. Embalado pela bateria da Vila Isabel e pela cantoria do ator Rafael Raposo – o mesmo que interpretou Noel Rosa no cinema, no filme “Poeta da Vila” – o mineiro transformou a passarela em um salão de baile, os convidados em dançarinos, a música em marchinha de carnaval. Depois que as modelos desfilaram uma a uma na passarela e voltaram para a fila final, a bateria não parou de tocar e todo mundo da arquibancada cantou e dançou junto. E foi lindo!

Lembro que eu olhei para a sala e todo mundo tava dançando. Mesmo quem não desceu para a passarela – na foto ainda estou na arquibancada, mas segundos depois já tava sambando loucamente haha junto com as modelos – ficava ali, dançando a seu modo. Eu lembro desse desfile de uma maneira muito especial. Foi um dos momentos mais bonitos que lembro de ter visto na Bienal.

Noel Rosa, Ronaldo Fraga e a alegria

Noel Rosa, Ronaldo Fraga e a alegria

 

Cavalera - Espelhos d'água

Olha a Cavalera aí de novo! Bom, não é surpresa pra ninguém que a marca sempre faz uns desfiles diferentes, – vide o que abriu esse post – às vezes até fora da Bienal. Esse daqui, o de inverno/2011 foi outro que me deixou muito embevecida. Ele encerrou os desfiles daquela edição e, pra fechar com chave de ouro, a Cavalera decidiu fazer tudo fora da sala de desfiles. Na entrada da Bienal, onde corredores d´água já tinham deixado muita gente encantada desde que tinha chegado, eles resolveram fazer uma chuva artificial. As modelos desfilavam em cima dos espelhos (o que dava a impressão que elas andavam sobre a água) e a chuva caía por cima delas. Todo mundo ficou um pouco agoniado e com medo das modelos escorregarem – uma, na verdade, até chegou a escorregar, tadinha – mas a ideia em conjunto ficou tão bonita, mas tão bonita que lembro que logo que eu sentei a menina que tava do meu lado soltou um ‘certeza que daqui há alguns anos vão falar dessa edição lembrando desse desfile’.

Imagem de http://nonabahia.wordpress.com

 

Karlla Girotto - De Verdade

Tchau sala de desfiles, bem-vindo ar livre! E foi assim, em meio as árvores do Parque Ibirapuera, em uma das escadarias da Bienal que foi o desfile verão/2007 da Karlla Girotto. Enquanto os modelos masculinos ficaram postados na escadaria com as roupas da coleção, as modelos femininas foram substituídas por balões que carregavam as outras peças. Uma imagem poética, bonita de se ver.

E com o detalhe de que todos as peças femininas apresentadas foram feitas em números maiores do que as convencionais de passarela, em uma numeração que ia do 44 ao 50.

 

Jum Nakao - A Costura do Invisível

Agora vamos voltar um pouco mais no tempo, mais precisamente na edição de verão/2005. Esse talvez seja o desfile mais relembrado de toda a história do SPFW. Além de ter sido o último da carreira de Jum Nakao, – que foi viver a moda de uma outra maneira – ele explora uma ideia que sempre foi e sempre vai ser discutida incansavelmente na área (alô Gilles Lipovetsky!): a efemeridade.

As modelos entraram na passarela com vestidos brancos enormes, cheios de detalhes, recortes, volumes… Mas além da beleza, o que aqueles vestidos tinham ainda de mais especial era o fato de terem sido construídos com papel. Um trabalho bem meticuloso, ainda mais ao ver os detalhes, a construção de cada vestido, ficando quase impossível acreditar que aquilo tudo tenha sido feito daquele jeito. No final do desfile, as modelos rasgaram as peças, levando a ideia da coleção ao extremo e deixando todo mundo com uma sensação proposital de encanto e tristeza. Uma amiga que assistiu esse desfile me contou que muitas modelos choraram quando foram rasgar as roupas. E a plateia… Bom, nessa não sobrou ninguém que não tivesse ficado emocionado.

E ah, “A Costura do Invisível” virou livro e documentário.

Tem muitos outros desfiles que mexeram de uma forma especial com a plateia da Bienal e que acabaram entrando pra história – e pras histórias – do SPFW. Elencar aqui todos eles não é uma tarefa fácil, mas os que coloquei aí em cima são muito especiais pra mim.

Mas e pra vocês, quais outros desfiles foram tão emocionantes quanto esses daí?

Ps: é só clicar nas imagens que elas abrem em outra janelinha e mostram os créditos!

Desfiles SPFW verão/2014 – dia 1

Que fique claro que os textos abaixo não são críticas de moda. Se eu fosse fazer isso teria que reservar no mínimo um texto pra cada desfile, teria que ter uma pesquisa muito, mas muito profunda mesmo sobre a coleção apresentada e até de tudo aquilo que a marca já fez até hoje. E né, cada degrau de uma vez. Pra fazer crítica de moda, o buraco é muito mais embaixo. Pra ler grandes textos desse tipo, eu recomendo Suzy Menkes ou, em um exemplo mais próximo de nós, a Vivian Whiteman.

Mas voltando ao post: os textos abaixo são algumas pequenas observações sobre cada desfile, sobre aquilo que mais me saltou aos olhos. É legal olhar o tema da coleção e perceber como ele foi trabalhado, tentar enxergar o que deu certo, o que não deu. Perceber como foi o efeito final dos tipos de materiais usados e até o que a gente acha que vai fácil, fácil pras ruas depois. Ou, pelo menos, aquilo que eu usaria fácil, fácil haha.
Enfim, esses textos são totalmente despretensiosos, e é claro também que eu ia amar se mais gente palpitasse aqui o que achou de cada desfile.

Animale

A Animale teve como ponto de partida para a sua coleção a ilha de Bali, na Indonésia. Foi ela que serviu de inspiração para as estampas usadas ao longo de todo o desfile: folhagens e flores, principalmente, mas também xadrezes e listras, que nas muitas vezes em que apareceram em azul, me fizeram associá-los ao movimento do mar. Vi muita gente reclamando do tanto de dessimetria que a marca trouxa para a passarela. Eu, no entanto, gosto bastante dessa dessimetria da Animale, porque mesmo bem pontuada, bem forte, ela vinha acompanhada de tecidos leves, fluidos – cetim, seda e jérsei apareceram muito na coleção – e acabava que o efeito final não me soava preso, nem confuso. A modelo Karlie Kloss – nº2 do mundo no ranking da Models.com – desfilou pra marca, assim como as queridinhas Ana Beatriz Barros, Laís Ribeiro e minha musa master Carol Trentini.

Cori

Pra quem viu o desfile da Cori na sequência do da Animale deve ter sido meio que um choque porque tudo aquilo de dessimetria que a primeira marca propunha, vinha agora invertida na Cori. Eu só consegui ficar um pouco mais relaxada na metade pra frente do desfile, porque até então a exatidão das peças, aquele branco sem fim, os cortes tão retos, tudo tão certinho tava me dando uma sensação de aprisionamento. Aos poucos, veio entrando mais fluidez na passarela, mais simetria sim, mas nada que me deixasse com aquela sensação de sufoco. Eu fiquei bem impressionada, em especial, com os materiais usados pela marca. Porque poxa, é verão, você espera tudo muito leve, daí vem a Cori e trabalha só com materiais pesados, difíceis de serem adaptados para a estação. E, mais uma vez, do meio em diante do desfile, foram várias as peças que mostraram uma alfaiataria que resolveu muito bem esse problema, que era pesada sim, mas que você conseguia enxergá-la completamente no verão.

Tufi Duek

Eduardo Pombal foi buscar inspiração na obra do artista Pablo Picasso pra contar a história que mostrou na passarela da Tufi Duek. Muita alfaiataria, muito minimalismo, muita exatidão. Não, essa não me aprisiona, mas também não me faz sonhar… Eduardo Pombal, no entanto, é tão bom naquilo que faz que mesmo uma coleção tão exata vai mostrando uma evolução gostosa na passarela, tanto no uso de cores – amei a variação entre preto e branco, rosa e azul – como nos recortes das peças. E o desfile ainda ganha assimetria e volume com saias que tem apenas um lado plissado – que depois eu fui descobrir ser um kilt amarrado na cintura.

Cavalera

Ai, que difícil que é falar da Cavalera! A marca apresentou não apenas um desfile, mas uma apresentação de dançarinos – todo alunos do coreógrafo Nelson Triunfo – que ao som de clássicos do soul music dos anos 70, cantados por Toni Tornado ali, ao vivo mesmo na boca de cena, fizeram todo mundo que assistia ao desfile nem pensar na possibilidade de ficar parado. Tentando não me influenciar pela apresentação, pela dança, pelo ritmo tão gostoso que foi esse desfile, vou tentar focar só na roupa haha. A marca fez jus ao seu tema e logo na primeira peça deixou muito claro que essa coleção ia ser um mar de cores. Aliás, essa coleção é um ar de muitas coisas. Cores, estampas, grafismos, recortes… Mesmo pra quem, como eu, não tá acostumado com essa mistura tão grande de estamparia, fica difícil não olhar com muito agrado pra esse trabalho lindo do Marcelo Sommer. Comercial até o dedinho do pé e sem medo nenhum de assumir isso, a Cavalera traz vida pra suas peças sem medo de ser feliz.

Créditos: FFW | ©Ag. Fotosite