São Paulo Fashion Week N45: o que rolou no quarto dia de evento

Para ver o que rolou no primeirosegundo  e terceiro dia é só clicar nos links.

A. Niemeyer

A. Niemeyer

Em sua segunda apresentação na SPFW, a marca A. Niemeyer, comandada pelas amigas Renata Alhadeff e Fernanda Niemeyer, resolveu trazer elementos do surf de uma maneira diferente ao que estamos acostumados a ver em desfiles. Primeiro porque esse surf aqui se passa em uma praia invernal, mais especificamente a praia Montauk, dos EUA, que é famosa pelas suas ondas congeladas. E segundo porque o foco de sua apresentação reside depois da atividade esportiva, quando os surfistas chegam em casa após um dia agitado e só querem encontrar conforto e tranquilidade.

Para criar esse clima de paz de espírito, as amigas trouxeram uma paleta de cores que vai do branco, passa pelo cinza, pelo azul e chega ao marrom, em looks que apostam no oversized e em peças bastante aconchegantes de tricô. Além disso, o jeans também aparece na coleção, em diferentes lavagens e propostas (destaque para as calças pantalonas) e as estampas maxi xadrezes, que parecem reinar absolutas nessa temporada.

Vale um destaque ainda para a parceria inédita realizada entre a marca e a joalheria Tiffany & Co., que ficou responsável pelos acessórios do desfile, e também pelos sapatos Converse, da All Star, que estavam nos pés de algumas das modelos e tiveram padronagens desenvolvidas exclusivamente para a ocasião.

Lenny Niemeyer

Lenny Niemeyer

Para sua nova coleção, Lenny Niemeyer decidiu celebrar sua própria carreira e, de maneira repaginada, trouxe de volta algumas peças e tecidos que foram hits ao longo da história da sua marca. As adições vieram todas inspiradas na mulher brasileira e nas belezas naturais de nosso país, algo, aliás, já visto no próprio casting de modelos, extremamente variado em suas etnias.

Na passarela, a mistura entre o tropical, com diversas estampas de flores e folhagens; o artesanal, com um trabalho notável de macramê de franjas e a palha aparecendo em alguns looks; e o tecnológico, com alguns elementos como pedras, couro e madeira impressos em 3D, ditaram a coleção. Com uma cartela de cores supervibrante, especialmente nas peças finais que eram uma mistura de vestidos com saídas de praia, a apresentação contou ainda com diversos elementos de alfaiataria, maiôs bastante estruturados e bolsos utilitários.

Salinas

Salinas

Apresentando uma das coleções mais encantadoras dessa temporada, a Salinas decidiu fazer seu novo desfile através de uma história de verão. Para isso, a marca criou na passarela a ideia do Salinas Club Hotel, um resort que além de possuir uma deliciosa piscina de frente para o mar, ainda oferecia diversas atividades esportivas, como o vôlei, o tênis, o frescobol… Assim, suas hóspedes – no caso, as modelos da apresentação – vieram vestidas à caráter, com looks beachwear vintage que podiam ser usados para qualquer um desses momentos.

Entre os grandes highlights da coleção estão as estampas geométricas, que permearam quase todo o desfile, mas não ficaram de fora também os desenhos de onda, de redes de vôlei e de bolas. Além disso, ganharam destaque ainda alguns maiôs com golinha polo, um conjuntinho que lembrava os ladrilhos do fundo da piscina e até um maiô super fun, com o próprio nome do clube estampado.

Para arrematar tudo isso e dar ainda mais veracidade a história contada, o styling da apresentação veio preciso, com toalhas na cabeça e nos ombros das modelos, roupões e bolsas gigas à tiracolo, e óculos retrô mui belos desenvolvidos em parceria com a marca Zerezes.

Beira

Beira

Em sua primeira apresentação oficial no SPFW (a marca já havia participado do projeto Estufa), a Beira preferiu, ao invés de apresentar uma coleção do zero, misturar coisas novas com um apanhado das melhores peças dos seus últimos lançamentos. A grife, aliás, defende a ideia de que suas coleções são todas uma extensão uma da outra, de forma que não haja uma quebra de linearidade nas ideias da marca e que as peças possam ser lançadas no seu devido tempo. Escolhas, aliás, que vêm de encontro ao seu DNA, já que a Beira preza pelos mínimos detalhes, desde a escolha dos tecidos até o acabamento perfeito das roupas.

Responsável por fazer looks sem gênero definido, a grife trouxe para a passarela peças que variam muito pouco na sua cartela de cores, e que preferem focar praticamente apenas no design. Nos materiais utilizados, há uma presença bem forte de elementos naturais, que vão desde casulos de bicho da seda descartados até tramas feitas com garrafa PET. Tudo isso em um intenso trabalho de pesquisa, que foca principalmente na construção da peça, pensando em cada bolso, em cada costura, em cada volume apresentado. Uma marca para se ficar de olho, com toda certeza.

Cotton Project

Cotton Project

“Se você pudesse se livrar de suas obrigações e começar uma vida nova, como ela seria?” Essa foi a pergunta que abriu o desfile da Cotton Project e que a marca, diante daquilo que acredita, foi respondendo ao longo de sua apresentação. Partindo da premissa de que vivemos em tempos caóticos e que é preciso desacelerar um pouco, a grife propôs uma fuga da cidade para o campo, focando em elementos da roça com uma pegada western para construir suas peças.

Diversos tons de marrom dominaram a coleção, que contou com uma profusão de chapéus, tecidos de camurça, camisas xadrezes e conjuntinhos com um quê de alfaiataria. Além disso, os casacos de pelúcia e o conjunto de pijama ganharam destaque na apresentação, trazendo um ar mais descolado ao desfile.

Rafael Varandas e Acácio Mendes, os nomes por trás da Cotton Project, dividiram ainda com o público do evento uma espécie de guia existencial, com 10 frases para ajudar cada um de nós a encontrar o seu próprio caminho, a sua própria vida nova. Seguem aqui embaixo as frases para quem ficou curioso.

  1. O que acreditamos ser libertador pode acabar se tornando fundamentalmente restritivo;
  2. É impossível se livrar da ansiedade, mas você pode mudar a formal na qual se relaciona com ela;
  3. A demanda por variedade é mais opressiva que a continuidade;
  4. As pessoas são mais felizes quando estão em busca de algo que ainda não alcançaram;
  5. A natureza não dá saltos;
  6. A ilusão do individualismo pode mitigar o poder do coletivo;
  7. Seja positivo, seu estado emocional da forma as suas percepções, pensamentos e memórias;
  8. A insegurança é um sistema de controle social usado pelo capitalismo;
  9. O futuro é vegetariano;
  10. A tecnologia, quando usada em equilíbrio, pode ser incrível.

Lino Villaventura

Lino Villaventura

Em um desfile muito belo que celebrou seus 40 anos de trabalho, Lino Villaventura resolveu revirar seu baú de memórias e trazer para a passarela uma mistura de novas ideias com detalhes e preciosismos que fizeram de sua marca a estrela que é atualmente. Para isso, o estilista trouxe desde hits da sua carreira, como os tecidos texturizados e cheios de nervuras, até inspirações frescas e surpreendentes, como os pontilhismos que dominaram a maior parte da coleção e que deram um efeito extremamente dramático ao desfile.

Esses pontilhismos, aliás, que apareceram tanto nos looks quanto nas maquiagens das modelos (assinada por Marcos Costa), lembram muito os alinhavos que são feitos no avesso das peças durante o processo de costura, causando assim um efeito curioso na passarela como se algo estivesse fora de lugar. Em seguida deles, uma série de padrões geométricos apareceram em shapes nada comuns, que já são característicos das apresentações de Lino e sempre agradam ao seu público.

Um daqueles típicos desfiles em que é impossível não sair impactada.

Apartamento 03

Apartamento 03

Foi inspirado por algumas memórias da sua infância, quando começou a se encantar pelo universo da costura, influenciado especialmente por sua mãe, que o designer Luiz Claudio resolveu construir sua coleção mostrada no penúltimo dia de SPFW N45. Em looks bastante delicados e que emocionaram a imprensa especializada, o designer fez dessa coleção uma homenagem as mulheres que passaram pela sua vida e que trabalham ao seu lado no ateliê da Apartamento 03.

Assim como na coleção de Lino Villaventura, o próprio processo de costura parece ter se transformando em metalinguagem para o que foi mostrado na apresentação. Como exemplo, temos os bordados de rosas que se desfiavam e criavam detalhes muito bonitos nos conjuntos, e dando sequência a eles, as plumas e os fios desmanchados que chegaram a dominar looks inteiros no final da apresentação. Tudo muito singelo, em um trabalho que valoriza o processo de construção da roupa tanto quanto seu aspecto final.

Beijos e até mais!

Fotos: Zé Takahashi/Ag. FOTOSITE para o FFW

São Paulo Fashion Week N45: o que rolou no terceiro dia do evento

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Reinaldo Lourenço

Reinaldo Lourenço

Sempre fazendo escolhas certeiras nas locações dos seus desfiles, a apresentação de Reinaldo Lourenço que abriu o terceiro dia de SPFW não fugiu à regra. Para ambientar ainda mais o tema da coleção inspirada no cinema e que marcou o retorno do estilista ao evento (fazia duas temporadas que Reinaldo não se apresentava), o designer apostou em um prédio bastante cinematográfico na região da Paulista.

Ali, uma série de looks foram desfilados pegando onda nos filmes “De olhos bem fechados”, de Stanley Kubrick e “Morte em Veneza” de Luchino Visconti, além de um toque de inspiração vindo da estética do cantor Sid Vicious, baixista do Sex Pistols.

Toda essa mistura resultou em uma coleção bastante elogiada pela crítica, que foi de conjuntinhos ora xadrezes ora com babados descontruídos, até vestidos com transparências estratégicas. Esses últimos, aliás, eram extremamente fluidos, e pareciam saídos de um sonho que, ainda que fosse sensual, eram sofisticado na medida para agradar em cheio ao público do designer.

Modem

Modem

Estreante no SPFW N45, a Modem, marca comanda pela dupla André Boffano e Sam Mendes, nasceu há cerca de três anos no mercado fashion, e mesmo com tão pouco tempo de estrada, conseguiu conquistar um público fiel e chamar atenção da crítica especializada. Feito esse bastante admirável, vale dizer, tendo em vista tantas grifes incríveis que levam anos para consolidar seu nome na cena nacional.

Em seu primeiro desfile na semana de moda de São Paulo, a marca manteve as características de alfaiataria e arquitetura que apresenta desde sua primeira apresentação, mantendo como objetivo fazer roupas que não sigam tendências e passem a fazer parte da vida de suas clientes de modo atemporal. Com uma cartela de cores mais ampla do que o normal, a Modem trouxe inspirações (e não um tema, como eles mesmo gostam de frisar) no Memphis Group e no artista austríaco Ettore Sottssas, apostando bastante no couro, cortes retos, terninhos e camisas de seda.

As fendas e franjas das saias de couro, os babados assimétricos dos vestidos e as peças de tricô com bordados manuais deram um toque original a apresentação da marca que, assim esperamos, promete ter uma vida longa e belíssima no SPFW.

Fernanda Yamamoto

Fernanda Yamamoto

Inspirada por um tema extremamente interessante e humano, a designer Fernanda Yamamoto foi buscar referências para sua coleção na comunidade japonesa agrícola Yuba, que fica no interior de São Paulo, nos arredores da cidade de Mirandópolis. Lá, centenas de imigrantes vivem em um sistema extremamente sustentável, que não utiliza moeda e que se baseia na cultura agrícola e no universo artístico. Na prática, isso quer dizer que além de plantarem seus próprios alimentos e construírem suas próprias casas, a comunidade se dedica na mesma medida às artes, seja através da música, do teatro ou da dança.

Esse universo de harmonia entre o manual e o artístico foi levada para as peças da estilista através da escolha dos tecidos (extremamente leves), dos tingimentos (feitos todos manualmente utilizando cúrcuma, semente de avocado, feijão preto e outras matérias-primas), dos plissados e amarrações (que remetiam a cultura japonesa) e da própria escolha do casting, que contou com sete mulheres vindas diretamente da comunidade para desfilarem.

Uma apresentação conceitual sem dúvida alguma leve, inspiradora e na mais perfeita harmonia.

TOP 5

Borana

Borana

Kalline

Kalline

Karine Fouvry

Karine Fouvry

LED

LED

Vankoke

Vankoke

Dando sequência ao line-up do terceiro dia de apresentações, foi a vez do projeto TOP5 mostrar um pouco do seu trabalho para o público do Ibirapuera. Parceria entre o Instituto Nacional de Moda e Design (IN-MOD) e do SEBRAE Nacional, o TOP5 é uma plataforma que visa orientar e dar visibilidade a pequenos negócios da indústria de moda durante um período de 12 meses. Nesse tempo, as marcas escolhidas para compor o projeto são ajudadas por especialistas da área fashion, com conselhos sobre gestão empresarial e consultoria em desenvolvimento de produto. E, no final do período, fazem uma apresentação no SPFW mostrando tudo que aprenderam e levaram para sua nova coleção.

Nessa edição, a plataforma contou com as marcas Borana, do Espírito Santo, Kalline, de Santa Catarina, Karine Fouvry, do Rio de Janeiro, LED, de Minas Gerais e Vankoke, do Rio Grande do Norte. Elas já haviam se apresentado na edição passada do evento, – antes de passarem pela ajuda da plataforma – e agora voltaram para a semana de moda para mostrarem os resultados dessa iniciativa.

A grife Borana, focada em moda praia, veio bastante leve e colorida, com estampas tropicas feitas todas em aquarela e usando materiais bastante brasileiros, como o macramê e a palha. Já a Kalline, que existe há mais de 25 anos no mercado e é expert em peças de couro, abraçou a ideia de se reinventar, aperfeiçoando algumas técnicas no uso desse tecido e apostando em um design diferenciado do que estava habituada. A LED, por sua vez, marca no gender com uma pegada extremamente cool e moderna, focou bastante no conceito, e trouxe para a passarela uma discussão sobre a perseguição contra as minorias tão presente ainda em nossa sociedade.

Para fechar o TOP5 com chave de ouro, a Karine Fouvry reforçou ainda mais sua assinatura de fazer roupas para mulheres fortes e poderosas, apostando em peças fluidas e longilíneas (e se abrindo para parcerias com novos artistas), e a Vankoke fez um trabalho extremamente delicado e manual de pinturas, inspirado na arte da botânica inglesa Margaret Mee.

Fabiana Milazzo

Fabiana Milazzo

A valorização do trabalho handmade, a preocupação ambiental e a tomada de consciência do que estamos comprando foram temas que, ainda que em segundo plano, pautaram a última apresentação da designer Fabiana Milazzo.

Com uma coleção que teve sua principal fonte de inspiração em uma viagem que a estilista fez ao Peru, os looks mostrados na passarela apostaram em tecidos sustentáveis (inclusive em alguns extremamente brilhantes, que lembravam uma textura líquida), nas lantejoulas reversíveis (tão em voga nos últimos tempos) e em um trabalho primoroso de bordado, feito tanto em vestidos longilíneos, quanto em camisas e saias.

Parte desse trabalho lindíssimo foi feito pela “Mulheres de Renda”, ONG fundada pela própria Fabiana em Minas Gerais que visa ensinar a técnica do bordado a mulheres desempregadas da região. Além de disponibilizarem alimentos e atividades para seus filhos, de forma que elas possam se dedicar inteiramente às aulas, o projeto tem como objetivo capacitar as alunas a viverem do bordado, transformando-o de fato em uma profissão para cada uma.

Aquele tipo de iniciativa bonita e rara de se ver no mundo da moda, onde a consciência e responsabilidade social nem sempre são levadas a sério.

Memo

Memo

Além de partir de uma premissa bem pé no chão de que uma coleção de activewear deve mostrar ao público como essas roupas irão se comportar no dia a dia, quando delas se é exigido conforto e flexibilidade, a Memo ainda deu um toque de alegria ao seu desfile, mostrando que sabe bem como se conectar com seus consumidores.

Isso tudo porque a marca decidiu mostrar seu verão 2019, feito em colaboração com a grife Isolda, através de uma batalha de dança, onde bailarinas dançando voguing (estilo bem famoso nos anos 80) mostravam a beleza das peças e da sua diversidade de biotipos. Com corpos, estilos e gingados completamente diferentes, a escolha das dançarinas mostrou a preocupação da marca de se conectar com um público muito diverso e, tão importante quanto, fazer uma coleção real, onde as peças desfiladas realmente fossem vendidas nas lojas depois.

Nas peças os tons neons e as estampas florais prevaleceram, assim como os jaquetões que lembravam quase capas devido ao seu comprimento e davam ainda mais bossa aos conjuntinhos esportivos.

Amir Slama

Amir Slama

Fechando os trabalhos do terceiro dia de desfiles, Almir Slama levou sua moda praia chique mais uma vez para as passarelas do SPFW. Provando que mesmo tendo alguns elementos esportivos incorporados à sua marca (Amir chegou, inclusive, a apresentar uma minicoleção fitness antes da sua apresentação oficial), o estilista mantém seu DNA ao fazer peças que vão da praia até a cidade com a mesma elegância.

Inspirado pelo Palácio Imperial de Petrópolis, o designer levou as cores, estampas e as formas da arquitetura dessa construção para as peças da coleção, que incorporaram ainda muito dos babados transversais que vimos em roupas dessa temporada, e os vestidos fluidos com partes de cima estilo body e partes debaixo esvoaçantes. Vale um destaque ainda para o conjunto de top e calça de tecido envernizado, e as peças bordadas com um quê de lingerie, muito belas e bem impactantes na passarela.

Beijos e até mais

Fotos: Zé Takahashi/Ag. FOTOSITE para o FFW

Fotos TOP5: Marcelo Soubhia/Ag. Fotosite para o FFW

São Paulo Fashion Week N45: o que rolou no segundo dia de evento

Para ver as inspirações dessa edição e o que rolou no primeiro dia de evento, é só clicar aqui.

UMA | Raquel Davidowicz

Uma Raquel Davidowic

A escolha do Museu da Imigração como cenário para o desfile da Uma, primeira marca a se apresentar no segundo dia de SPFW, não poderia ter sido melhor. A coleção criada por Raquel Davidowicz foi inspirada exatamente na miscigenação e na presença cada vez mais constante de imigrantes em nosso país, colocando assim looks na passarela que além de fazerem referência ao nomadismo, pareciam ter a capacidade de se transformar naquilo que fosse necessário para a sobrevivência de seu portador.

Com uma cartela de cores que variava entre o preto, pérola, cinza e azul-marinho, o que não faltaram foram amarrações, sobreposições, bolsos e diversas camadas de tecido na apresentação. Tudo ajudando a criar looks que além de confortáveis, eram práticos, quase utilitários, ideais para proteger as modelos.

Na primeira fila do desfile, à convite de Raquel Davidowicz, estava a suíça Emma Ferrer, embaixadora da ONU que possui um papel social muito forte no auxílio a refugiados e que é neta da musa Audrey Hepburn. Uma presença bastante simbólica, eu diria.

Osklen

Osklen

Não é segredo para ninguém o quanto a sustentabilidade sempre foi uma palavra de peso dentro da Osklen. Com o DNA da marca praticamente construído sobre ela, as apresentações de Oskar Metsavaht sempre foram muito aguardadas pela imprensa e pelo público, que queriam ver de perto quais novidades tecnológicas e sustentáveis o designer iria apresentar dessa vez. E na coleção desfilada pela marca na segunda-feira, as expectativas quanto a isso se mostraram mais uma vez bastante satisfatórias.

Com um desfile que privilegiava matérias-primas sustentáveis (desde algodão reciclado até solados feitos com casca de arroz e resíduos de borracha), a Osklen mostrou a importância de se consumir uma moda confortável, funcional, precisa e que agrida o menos possível o ambiente. Intitulada sob o nome de ASAP (As Sustentable As Possible), palavra inclusive que apareceu impressa nas roupas várias vezes durante o desfile, eles apostaram em peças largas, cheias de franjas e, assim como a UMA, com amarrações e camadas de tecidos.

Uma coleção que sacramenta um trabalho criativo e consciente de mais de 20 anos da grife.

Samuel Cirnansck

Samuel Cirnansck

As roupas de festa de Samuel Cirsnanck sempre encantam, mas nesse desfile em especial elas foram acrescidas de duas coisas que tornaram a coleção ainda mais desejável: brilhos e a gatinha Hello Kitty, musa inspiradora da apresentação.

Além de ter aberto o desfile e assistido a todo o show da fila A, a gatinha mais famosa do mundo teve seu rosto bordado em diversas peças da coleção, inclusive em alguns sapatos e bolsas. Ela mesma estava vestida com um glamouroso vestido brilhante e serviu como um start muito gracioso pra as outras modeles invadirem a passarela.

Durante a apresentação, vestidos longos, bordados, cintura marcada e partes debaixo super fluidas apareceram aos montes, mas sem dúvida foram os brilhos e pedrarias que dominaram de cabo a roupa a coleção, inclusive em alguns looks de silhuetas mais usáveis durante o dia. Segundo a Vogue, alguns vestidos chegaram a levar 6 mil cristais e 30 dias para serem bordados. Um primor que, definitivamente, poucos designers possuem.

João Pimenta (masculino)

João Pimenta (masculino)

Acostumados que estamos com a alfaiataria sempre tão primorosa de João Pimenta, faz sentido se espantar um pouco com esse último desfile do estilista. Mas se espantar de uma maneira bem boa, é importante dizer, já que agora sua alfaiataria continua presente, mas de uma maneira muito mais descontraída.

A silhueta das peças dá espaço para formas mais amplas, enquanto a cartela de cores se abre para opções muito mais variadas de tons. Uma pitada urbana que surgiu graças a parceria com o stylist Thiago Ferraz, que conseguiu manter o shape reto, conciso e extremamente elegante das roupas de João, com seu estilo mais relax. Os xadrezes e maxi zíperes foram muito explorados, assim como as jaquetas e coletes, sempre cheias de bolsos (roupa urbana é roupa utilitária!) e as calças curtas com a barra virada para cima. Destaque ainda para as referências ao mundo do surf na coleção, que marcaram essa primeira apresentação de João Pimenta na sua divisão entre desfiles masculinos e femininos.

Patbo

PatBo

A coleção desfilada por PatBo na segunda-feira na Bienal do Ibirapuera fala sobretudo sobre uma mulher errante, uma “mulher cigana”, como a estilista mesma diz, que ama conhecer e explorar o mundo. Só que essa mulher vai além, e não apenas se encanta por todo lugar que passa, mas também pega um pouquinho de todos eles para si.

É com base nessa premissa que as peças mostradas por PatBo na sua apresentação vão trazendo influências dos mais diversos cantos do mundo, sem perder, no entanto, duas características essenciais: o xadrez (aparecendo aqui em diversas peças e em diversas padronagens) e os bordados de flores, particularidade tão inconfundível da marca. É bonito, aliás, ver essa mulher independente na passarela que vai do urbano ao festivo num piscar de olhos, e que continua sendo cool usando jacquard ou calça sleepwear.

Vale ainda um olhar mais apurado para os acessórios da coleção que fazem parte de uma parceria com a designer Claudia Arbex, e para os sapatos desfilados que são uma colaboração com a marca Manolita.

Lilly Sarti

Lilly Sarti

Sempre uma delícia de assistir, o desfile da Lily Sarti veio com os elementos que são marca registrada da grife, como os babados, que permearam toda a apresentação e apareceram muitas vezes em vestidos inteiros, e também a delicadeza das peças, dessa vez muito pautada pela cartela de cores bastante suave.

Com uma bossa que remontava aos anos 70, fosse no shape das peças, ou mesmo nos conjuntinhos com calça pantalona tão característicos da década, as irmã Sarti fizeram uma coleção extremamente fluida (assim como muitas das suas roupas), que pareceu agradar em cheio o público da Bienal. Somado a tudo isso, vinha ainda um leve toque latino, com blusas ciganas, algumas transparências e tops com parte da barriga de fora. Tudo muito belo.

Beijos e até mais!

Fotos: Zé Takahashi/Ag. FOTOSITE para o FFW

Fotos Patbo: Marcelo Soubhia/Ag. FOTOSITE para o FFW 

São Paulo Fashion Week N45: o que rolou no primeiro dia do evento

No último sábado teve início mais uma edição do SPFW. A de número 45, para ser mais exata.  E, assim como em todas as outras edições em que é escolhido um tema como norte do evento, dessa vez a liberdade criativa foi a grande homenageada da vez, dando especial ênfase ao trabalho visceral e muito inspirador do estilista Conrado Segreto.

Para quem não conhece a história de Conrado, vale abrir uns parênteses aqui nesse texto e explicar um pouquinho do trabalho desse designer. Conrado Segreto foi um importantíssimo nome da moda nacional durante os anos 80, década em que seu trabalho ficou conhecido e se tornou um verdadeiro alvoroço no cenário fashion brasileiro. Famoso por criações extremamente elegantes, mas que sempre tinham algo de diferente e inovadoras em relação a outros estilistas da época, Segreto teve uma carreira curta, mas extremamente intensa. Ele fez história em poucos anos, e teria feito muito mais pela moda brasileira, se em 1992, ainda com 32 anos de idade, não tivesse falecido em decorrência da AIDS.

Em vista de tudo isso, nada mais justo do que homenagear alguém tão importante e – talvez pelo pouco tempo de reconhecimento – tão esquecido quando falamos de designers nacionais. Para isso, nessa edição, uma série de fotógrafos e stylists foram chamados para através de um acervo de arte plumária, roupas, textos e ilustrações de Conrado (que era um exímio desenhista!), traçar paralelos com o trabalho do estilista em fotografias muito impactantes.

Esse trabalho foi todo exposto na mostra “POW! Explosão Criativa”, que para minha surpresa e felicidade, no domingo ficou aberta para o público em geral. Coisa rara de se ver no SPFW, que vire e mexe tem mostras muito interessantes, mas que ficam restritas apenas ao público do evento.

Para quem, assim como eu, não pode ir à exposição, mas ficou curioso, aqui nessa galeria do FFW tem algumas fotos dessa apresentação. Vale a pena o clique.

Croqui de Conrado Segreto

Ilustração de Conrado Segreto | FFW

O SPFW, no entanto, além de seus temas, mostras, homenagens e lojinha, tem ainda um grande acontecimento nas suas edições, responsável pelo surgimento do evento e pelo que ele se tornou hoje em dia: seus desfiles, é claro. E foram eles que deram start nessa temporada, ainda no sábado, com a apresentação de uma marca e um projeto muito inspirador.

Água de Coco por Liana Thomaz

SPFW N45: o que rolou no primeiro dia

Abrindo os trabalhos dessa edição, a Água de Coco veio mais brasileiríssima do que nunca. Com uma coleção que homenageava o nosso país e apostava em estampas de clima tropical (como folhagens e o personagem Zé Carioca), a marca trouxe para a passarela um casting variado de modelos, com idades, shapes e etnias diferentes. A cartela de cores transitou entre o verde-musgo, o amarelo-ouro, o preto e o grafite, e tanto os homens quanto as mulheres apareceram com looks que usavam e abusavam dos poás, babados e peças esvoaçantes.

Além disso, nos biquínis que apareceram em grande parte da apresentação, as partes debaixo em asa delta predominaram, bem como a presença de peças facilmente usadas “na cidade” que já nas últimas coleções vinha tirando o selo 100% beachwear da Água de Coco.

O desfile foi aberto e encerrado pela participação da cantora Anitta, que ao vivo arrasou ao som de Ary Barroso, e serviu pra coroar de vez a apresentação.

Projeto Ponto Firme

Projeto Ponto Firme

A presença do Projeto Ponto Firme no line-up oficial do SPFW é, de longe, uma das coisas mais legais que eu já vi na semana de moda de São Paulo. Pensar que um projeto que nasceu dentro de uma penitenciária de Guarulhos hoje ganha as passarelas da maior semana de moda do Brasil é, pra mim, a essência e importância da moda como agente transformadora da nossa sociedade.

A história desse projeto (que é sem fins lucrativos e registrado na Secretaria da Educação do Estado), começou quando o designer Gustavo Silvestre passou a dar aulas de crochê para alguns detentos de Guarulhos (isso mesmo, no masculino!) visando a ressocialização e remissão de pena desses presidiários. Só que o interesse deles pelas aulas foi tão grande que o projeto cresceu, transbordou e virou uma ferramenta de expressão e trabalho muito forte dentro da cadeia.

Nessa edição do SPFW, o resultado de todas essa empreitada foi mostrado, apresentando roupas que mais do que extremamente criativas, são o reflexo de seus desejos, desabafos e histórias. Um ofício que, torço muito, seja levado para além da penitenciária, e que seja uma forma de reintroduzir essas pessoas na sociedade mudando drasticamente suas histórias.

Beijos e até amanhã

Fotos: Zé Takahashi/Ag. FOTOSITE para o FFW