Do cinema ao tapete vermelho: um longo post sobre o Festival de Cannes

Um dos mais importantes prêmios da indústria cinematográfica, o Festival de Cannes existe oficialmente desde 1946, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, quando foi criado para prestigiar e valorizar o cinema a nível internacional, e competir com o Festival de Veneza. O evento acabou tendo tanta projeção dentro da indústria que se tornou uma referência na área, e especialmente a partir dos anos 50 passou a receber também muita atenção da mídia devido as celebridades que por lá passavam, ganhando assim um certo status de premiação glamourosa.

Pode parecer meio estranho esse tipo de definição, eu sei, mas o fato é que além da premiação de Cannes ser completamente diferente da do Oscar, por exemplo, que é muito mais comercial e atende um padrão de filmes hollywoodianos, ela também conseguiu seu próprio tipo de tapete vermelho, que tem um je ne sais quoi muito particular e elegante. Arrisco dizer que entre os muitos fatos que contribuem para isso está o próprio ritmo e foco que o evento tem, sendo uma competição com espaço para filmes conceituais e de diversas nacionalidades, além, é claro, do próprio local escolhido para o festival: a Riviera Francesa, uma das regiões mais turísticas e ricas do mundo.

Foto: http://blog.clickandboat.com/

O evento nasceu sob o nome de Festival Internacional du Film, e foi só mesmo em 2002 que passou a se chamar Festival de Cannes. Desde sua primeira edição, ele só deixou de acontecer em 1948 e 1950 por problemas financeiros, e já em 1955 institui a Palma de Ouro como prêmio máximo do evento.

Vale dizer, no entanto, que nem todos os filmes que são transmitidos na mostra concorrem à premiação. Antes do festival começar são selecionados apenas alguns poucos longas para concorrerem ao grande prêmio. Eles são transmitidos no festival junto à vários outros filmes importantes para a indústria naquele ano (e que sempre fazem seu début em Cannes), e ao final da mostra, são premiados em categorias como melhor atriz, melhor diretor, melhor ator, e, claro, melhor filme. Esse último, aliás, por uma regra instituída pelo próprio festival, não pode ser premiado em nenhuma outra categoria, levando pra casa “apenas” a tão desejada Palma de Ouro.

Ao longo desses muitos anos de premiação, alguns acontecimentos marcaram a história do festival. Em 1968, por exemplo, a mostra acabou muito antes do esperado e sem entrega de prêmios, já que o local foi tomado por protestos em apoio ao movimento “Maio de 68”.

Pra quem não sabe, maio de 68 foi um dos períodos civis mais turbulentos da recente história da França, já que começou como um protesto dos estudantes em prol de algumas reformas no sistema educacional e terminou em uma greve gigante de trabalhadores. Unidos, estudantes e operariado pararam o país e fizeram com que muitas outras áreas aderissem ao movimento em seu favor.

Profissionais do cinema, – especialmente os amantes da Nouvelle Vague – mostraram apoio ao movimento, e o Festival de Cannes daquele ano viu nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Lelouch, Roman Polanski e Alan Resnais boicotarem o evento.

Nesse ano, por motivos bastante diferentes, mas também importantes, a mostra novamente foi palco de algumas manifestações. Uma delas partiu de algumas atrizes – Julia Roberts, Kristen Stewart e Sasha Lane – que desfilaram descalças no tapete vermelho em protesto a um acontecimento do ano passado, quando algumas profissionais tiveram sua entrada proibida no festival por estarem sem salto (aproveitando o assunto “machismos no cinema”, falei sobre grandes diretoras e alguns preconceitos da profissão nesse post aqui)

Além disso, também nesse ano, uma manifestação política muito importante se deu em Cannes. A equipe do filme brasileiro Aquarius (que concorreu a Palma de Ouro) protestou contra o impeachment da presidenta Dilma, denunciando o golpe que vem sendo dado nos últimos dias no país. A notícia foi muito falada na mídia internacional, mas no Brasil acabou ganhando pouco ou quase nenhum destaque.

Uma das características mais marcantes do Festival de Cannes é o pôster que todo ano é lançado para divulgar a premiação. Desde 1946, várias ilustrações e fotos foram escolhidos para isso e aqui embaixo montei uma galeria com todas essas imagens, desde a primeira edição. Todos os pôsteres são maravilhosos, mas confesso que os de 72, 85, 2005, 2008, 2012 e 2013 são meus preferidos.

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Cannes costuma ter critérios muito específicos (e não muito comerciais) para sua premiação, o que quase sempre faz com que o filme ganhador da Palma de Ouro figure fora do circuito Hollywoodiano. Mas, vez em quando, alguns desses filmes mais conhecidos do grande público ganham destaque também na premiação. Foi o caso de Taxi Driver (1976), Apocalypse Now (1979), Pulp Fiction (1994), O Pianista (2002), A Árvore da Vida (2011) e Amour (2012).

Filmes brasileiros já tiveram também boas representações na premiação. “O Pagador de Promessas” (1962) de Anselmo Duarte é até hoje o único filme nacional a ter conquistado a Palma de Ouro, mas “Vidas Secas” (1963) de Nelson Pereira dos Santos já concorreu a premiação e “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1986) de Arnaldo Jabor deu a Fernanda Montenegro, na época uma menina de 20 anos, o prêmio de melhor atriz do festival.

Fernanda Montenegro em cena do filme "Eu sei Que Vou Te Amar", pelo qual levou o prêmio de melhor atriz em Cannes

Fernanda Montenegro em cena do filme “Eu sei Que Vou Te Amar”, pelo qual levou o prêmio de melhor atriz em Cannes

Também na lista de filmes brasileiros em Cannes estão “Linha de Passe” (2008), de Walter Salles, vencedor do prêmio de melhor atriz para Sandra Corveloni, e o mais recente da lista, “Aquarius”(2016), de Kleber Mendonça Filho, que concorreu esse ano na disputa do festival.

Ainda que o evento não tenha nascido sob tal pretexto, Cannes ganhou ao longo dos anos um dos tapetes vermelhos mais estrelados e concorridos da história do cinema. Por lá já passaram os atores, músicos e diretores das fotos daqui de baixo, mas também muitos outros profissionais das mais diferentes áreas da indústria cinematográfica. Um festival que, definitivamente, tem muita história pra contar.

Lupita Nyong’o (2015)
 Lupita Nyong’o (2015)
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Fotos das galerias: www.festival-cannes.fr

Bisous, bisous e até a próxima

And the Oscar goes to… #aquecimentoOscar

Chegou o grande dia! Vamos fazer nossas apostas e nos preparamos para a premiação – e também para o red carpet – com todas as comidas, bebidas, companhias e a torcida, claro, que a gente merece. Eu vou ver tudinho da premiação junto com os amigos e o namorado, mas ficarei dando meus pitacos lá pelo twitter (@paulinha_v). Quem quiser acompanhar, tá mais do que convidado.

Enquanto isso, pra quem perdeu a maratona #aquecimentoOscar aqui do blog ainda dá tempo de conferir o que rolou. Então, vamos lá…

Poster do 85° Oscar que relembra de uma maneira super original quais foram os vencedores (de acordo com o ano de lançamento) das edições passadas. E a última, quem será que irá ocupar? A gente fica sabendo essa noite :)

Poster do 85° Oscar que relembra de uma maneira super original quais foram os vencedores (de acordo com o ano de lançamento) das edições passadas. E a última posição quem será que irá ocupar? A gente fica sabendo essa noite!

O primeiro post falou sobre nada mais, nada menos que os melhores looks de red carpet. Na minha humilde opinião, é claro. Pra quem adora essa parte, – confesso que apesar de gostar, sou muito mais a hora da premiação – lá no instagram da Oficina de Estilo tão rolando umas postagens bem legais com os looks que mais fizeram até hoje nosso olho brilhar. Vale a pena conferir :)

Teve também um post sobre umas fotos tiradas de Audrey Hepburn e Grace Kelly nos bastidores do 28º Oscar. Deu até pra relembrar quando as duas ganharam por melhor atriz, e se emocionar um tanto sem fim com a reação que elas tiveram.

Já nos preparativos para o Oscar desse ano, teve esse texto aqui sobre os filmes que estão concorrendo na categoria de melhor figurino. Os comentários são bem pessoais, mas como esse ano consegui ver todos dessa categoria fiquei empolgada de meter meu bedelho e falar o que penso #souenxerida.

E por último, mas nem de longe menos importante, um post com as premiações que tiveram os discursos/reações mais legais. Vai de Halle Berry até Anna Paquin.

Então, é isso. Um bom Oscar pra todo mundo e que os nossas apostas vencem (to participando do bolão da editora e to empolgada hahaha).

Bisous!

A hora da premiação #aquecimentoOscar

Amanhã é o grande dia, mas antes mesmo da gente preparar o combo balde de pipoca + coca giga (ritual obrigatório!), vai aí mais um post do #aquecimentoOscar!

A deusa Meryl Streep foi indicada 17 vezes ao Oscar e ganhou como melhor atriz em "A Escolha de Sofia" e "A Dama de Ferro", e melhor atriz coadjuvante por "Kramer vs. Kramer"

A deusa Meryl Streep foi indicada 17 vezes ao Oscar e ganhou como melhor atriz por “A Escolha de Sofia” e “A Dama de Ferro”, e melhor atriz coadjuvante por “Kramer vs. Kramer”

Zapeando pelo youtube e vendo alguns discursos da premiação, achei vários que me emocionaram/surpreenderam tanto que me peguei mandando o link pro namorado e pras amigas também assistirem. E de todos eles, cinco são incríveis demais, seja pela reação da pessoa ao ser premiada ou pelo discurso já pronto na ponta da língua ou dito ali de supetão. Portanto, nada mais justo do que terminar essa série do Oscar com o melhor momento de todos: a premiação… tá dá!

Em 1973 Marlon Brando ganhou o Oscar de melhor ator por “O Poderoso Chefão”, mas nem se deu ao trabalho de comparecer na cerimônia. Na hora da entrega da estatueta, em seu lugar, uma mulher de tranças e pele bem morena subiu no palco pra fazer um dos discursos mais históricos do Oscar. Histórico mais pela polêmica que gerou na hora (reparem nas vaias que vieram antes dos aplausos polidos) e também porque depois descobriu-se que de índia, como ela se dizia, a mulher não tinha era nada.

“Meu nome é Shasheen Littlefeather, eu sou uma índia apache e estou aqui representando Marlon Brando que mandou dizer que não aceita o prêmio em sinal de protesto pela imagem falsa que o cinema e a televisão projetaram do índio norte-americano” (tradução-resumo da Folha de S. Paulo).

Em 1993 o filme “O Piano” foi saindo de mansinho da categoria de ‘filme desconhecido’ para ‘novo sucesso Hollywoodiano’ e de repente tava lá, entre os mais mais do ano. Na cerimônia de 1994 ele teve uma penca de indicações ao Oscar, incluindo melhor filme (quem levou foi a “Lista de Schindler”) e melhor atriz coadjuvante. Nessa categoria a indicada foi Anna Paquin, uma garota de apenas 11 anos de idade. E ela conseguiu! Se tornou a segunda menina mais jovem até hoje a levar uma estatueta pra casa. E essa reação espantada/fofa/tímida/nervosa dela é uma graça!

Não sou lá uma das maiores fãs de Halle Berry, mas né, é impossível não ficar emocionada com a reação e o discurso dela no Oscar de 2002. Ganhadora da estatueta de melhor atriz por “Monster’s Ball”, ela foi a primeira atriz negra a receber o prêmio. E Halle Berry agradeceu a um monte de gente pelo feito (fiquei verdadeiramente emocionada com os agradecimentos ao seu empresário, a mãe e ao marido), mas principalmente a “todas as mulheres negras, desconhecidas e anônimas que agora têm a chance, pois hoje esta porta foi aberta.”

Esse é um dos momentos mais memoráveis do Oscar porque a história que levou Ben Affleck e Matt Damon a ganhar essa estatueta, veio muito antes de tudo isso aí. Matt era um garotinho de 10 anos de idade quando conheceu Ben, um menino de oito anos de idade que se transformaria em seu melhor amigo, daqueles pra vida toda. Amigos na infância, na adolescência e na juventude, os dois compartilhavam de uma mesma paixão: o cinema. Juntos ou sozinhos começaram a fazer alguns pequenos papeis em longas americanos, até que em 1997 as coisas finalmente aconteceram. Depois de anos escrevendo “Gênio Indomável”, a Miramax Films topou transformá-lo em longa com a condição que de que Robin Williams estivesse no roteiro. Robin topou, Gus Van Sant foi o diretor e os dois amigos além de roteiristas interpretaram os dois melhores amigos da história. Já tava tudo muito lindo, mas ainda viria a cereja no topo do bolo: o filme foi um sucesso total e foi indicado a sete categorias no Oscar, conferindo uma estatueta pra Robin Williams como melhor ator coadjuvante (o único Oscar que ele já ganhou até hoje!) e a estatueta de melhor roteiro original para os melhores amigos, Mat e Ben. Daquelas histórias que não parecem verdade, mas são <3.

“Roberto!”

Roberto Benigni dirigiu e protagonizou “A Vida é Bela” (que eu não vi até hoje e me repreendo toda vez por isso), e ganhou o Oscar de melhor trilha sonora original, melhor filme estrangeiro e melhor ator, com direito à comemoração mais linda e espontânea – como ele mesmo parece ser – que alguém já viu na premiação. E diz se não é uma delícia sentir a torcida da plateia por ele, sentir que aquele prêmio era meio que compartilhado por todos, que aquela vibração e emoção eram tão importantes pra ele quanto pra quem assistia? Dá vontade de estar lá e bater palmas e gritar junto com todo mundo.

– Pra quem gostou do #aquecimentoOscar (to na torcida haha), eu já falei aqui sobre os melhores look do red carpet, aqui sobre uma foto que mostra Audrey Hepburn e Grace Kelly nos bastidores da premiação e aqui sobre os filmes que estão concorrendo a categoria de melhor figurino no Oscar desse ano.