Um bate-papo com Kathia Castilho

Na penúltima quinta-feira, 05 de junho, aconteceu na UNESP aqui de Bauru a palestra “Corpo, Moda e Consumo” ministrada pela editora e pesquisadora Kathia Castilho – uma autoridade no assunto e alguém de quem sou fã de carteirinha. Eu fiquei imensamente honrada de assistir a palestra e de conhecer e entrevistar a Kathia porque acho o trabalho dessa mulher sensacional! Aliás, pra quem tem vontade de seguir na área de moda, seja como estilista, jornalista, designer ou o campo que for, vale muito a pena conhecer mais sobre a carreira da Kathia e tentar pescar um pouquinho dos ensinamento dela.

Com medo de esquecer o tanto de publicações, pesquisas e empreendimentos da moda brasileira dos quais essa mulher está por trás, empresto aqui então das palavras da Estação Letras e Cores, onde a Kathia é editora, pra explicar um pouco mais sobre o seu trabalho.

Kathia Castilho é doutora e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Dirige o Ateliê Moda e Cidade no Centro de Pesquisa Sociosemióticas – CPS. É Pesquisadora convidada do Grupo ETHOS: Comunicação, Comportamento e Estratégias Corporais da ECO-UFRJ. É coordenadora da coleção de livros Moda e Comunicação da Editora Anhembi Morumbi na qual é autora do livro Moda e Linguagem (São Paulo; Anhembi Morumbi, 2004) e Discursos da Moda: semiótica, design e corpo. (São Paulo Anhembi Morumbi, 2005). É presidente da Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda e dirige a Estação das Letras e Cores, editora que publica livros na área de Moda e Design e a revista dObra[s].” – Estação Letras e Cores

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Aqui uma fotinho da Kathia com a Mônica Moura, uma grande pesquisadora de design que organizou a palestra e que é minha amiga, anjo da guarda e ídola; tudo ao mesmo tempo

O nome da palestra da Kathia já adiantava um pouquinho do que estava por vir:  mostrar as relações entre a moda, o corpo e o consumo através da linha do tempo de cada uma, fazendo com que a gente entendesse como elas evoluíram e se conectaram desde sempre. Pra exemplificar tudo isso, além das próprias explicações dadas pela Kathia, ela levou uma série de imagens que mostravam toda essa caminhada da moda ao longo da História: desde o seu comecinho, quando ainda na pré-história serviu pela primeira vez como adorno e não só como item de proteção, até os tempos atuais, quando a moda passou a ser uma forma de expressão.

Outra coisa muito legal mostrada na palestra é a ideia de que mais do que o corpo servir como um “cabide” pra roupa, de forma a criar diferentes sentidos de acordo com aquilo que queremos representar, é que ele, assim como  as roupas, o consumo, a sociedade, etc, evoluiu. Se a roupa mudou ao longo do tempo, se as relações sociais mudaram ao longo do tempo, o corpo não poderia ficar de lado. Por isso que as mudanças corporais, como as tatuagens, os piercings e as plásticas, por exemplo, ganharam proporções gigantescas dentro da nossa sociedade. O corpo virou também uma forma de expressão e é interessante quando olhamos pra ele com esse viés mais distante, como algo mutável.

Depois da palestra, foi a vez da Kathia falar de consumo e contar sobre a última pesquisa que ela fez relacionada ao tema e a cidade de São Paulo. Tendo como base grandes ruas da capital paulista que vivem do comércio com vestuário, como a  Oscar Freire e a José Paulino, foram analisadas alguns aspectos de cada uma a partir de um mesmo período de amostragem. Ou seja, durante um determinado número de dias, no mesmo horário, foram avaliadas quais as diferenças e semelhanças entre essas ruas.

É muito legal esse tipo de comparação, porque é um balde de água fria que cai na cabeça da gente: apesar de na teoria essas ruas representarem e viverem de um mesmo tipo de comércio, na prática ha um abismo de diferenças entre elas.

Enquanto na Oscar Freire, rua famosa pelas suas lojas bapho de grandes nomes da moda nacional e internacional, as pessoas vão pra passear e “passar o tempo vendo vitrine ou fazendo compras”, na José Paulino o fluxo é tão intenso que se você ficar parado é levado pela multidão. Enquanto na Oscar Freire as pessoas se vestem com peças mais coloridas, de grandes grifes, na José Paulino as pessoas se vestem pra desaparecer. Muita gente não quer ser vista lá, até porque o que é comprado na José Paulino muitas vezes acaba depois sendo vendido na própria Oscar Freire…

A relação das pessoas com a rua, os tipos de lojas (a Oscar Freire é cheia de lojas-conceito, que na real nem estão ali com o intuito de venderem), as sacolas (as enormes da OF em contrapartida as embalagens com sacos de lixo da JP), o tempo gasto em cada uma dessas ruas, o conceito de ser visto x desaparecer em meio a multidão e até os tipos de cachorro (segundo a Kathia, a Oscar Freire tem cinco raças de cães predominantes!) são pontos a serem levados em consideração nessa análise. É muito, muito interessante mesmo parar pra pesquisar esse tipo de comportamento. Acho que diz muito não só sobre a moda, mas também sobre nós, consumidores, e sobre o tipo de relação que nós mantemos com ela (e que há muito tempo deixou ser o de “apenas uma peça do armário”).

Por fim, mas nem de longe menos importante, no final de toda essa conversa eu consegui conhecer a Kathia mais de pertinho e fazer a entrevista que comentei ali em cima. Fiz em vídeo pra ficar mais legal e espero mesmo que vocês gostem do resultado. O áudio não tá lá aquelas coisas, mas na primeira pergunta, a mais prejudicada pelo barulho, eu coloquei uma legendinha pra facilitar a compreensão.

Então, é isso. Contem aí nos comentários o que vocês acharam do bate-papo e se tiverem outras perguntas pra fazer pra Kathia digam também. Tô doida de vontade de tentar entrevistá-la de novo, dessa vez em um lugar mais calmo e com mais tempo pra gente conversar.

E ah, pra quem não conhece a Dobras, revista fundada pela Kathia e que eu falo no vídeo, quero ver se trago pra cá em breve um texto antiguinho que tenho e que fala um pouco da história dessa revista. É o tipo de publicação que todo mundo que se interessa pela área precisa conhecer.

Bisous, bisous

Andei lendo: “História da Moda no Brasil”

Uma das coisas que eu mais amo nessa vida é ler. E não é uma coisa da boca pra fora ou uma coisa que faço ‘quando sobra um tempinho’. Não, eu amo mesmo poder passar horas e mais horas lendo, aumentando minha biblioteca (da caixola e da vida real) com livros e mais livros. E entre as minhas últimas aquisições e leituras tá o livro “História da Moda no Brasil – das influências às autorreferências” de Luís André do Prado e João Braga.

Como eu precisava pesquisar mais sobre moda nacional para algo que estava escrevendo – e percebi como livros de moda nacional eram a) ou muito raros ou b) ou muito rasos – perguntei no twitter/facebook alguma indicação. A Márcia Mesquita do queridíssimo Bainha de Fita Crepe me indicou então essa leitura. E lá fui eu atrás do meu exemplar.

Não foi um livro lá muito fácil de ler, mas não porque tenha uma linguagem muito rebuscada ou algo assim, ao contrário, ele é bem fluido, com uma linguagem fácil e gostosa de acompanhar. O problema maior é que são 640 páginas em um tamanho não muito convencional de livro, aqueles de centro de mesa, sabe? Então a primeira dificuldade e acho que a mais perceptível é em como segurá-lo. Depois de um tempinho fica difícil achar uma posição confortável suficiente pra você não precisar levantar, dar uma espreguiçada e voltar só depois que os músculos relaxarem. Pra mim então que adora levar livro na bolsa em todo lugar que vai, foi bem triste, porque eu só conseguia ler em casa em algum lugar bem confortável – nem pensar ficar deitada na cama lendo, por exemplo. O tamanho dele (em quantidade de páginas, eu digo) nem chega a ser um empecilho, mas como é um livro essencialmente de pesquisa acaba ficando um pouco cansativo o tanto de nomes e datas que vão aparecendo.

Imagem: http://www.fontedesign.com.br/para-ler/historia-da-moda-brasil/

Imagem: http://www.fontedesign.com.br/para-ler/historia-da-moda-brasil/

Desse jeito que eu to falando até parece que não gostei do livro, mas gente, juro que não é nada disso! haha O livro é ótimo, o trabalho de pesquisa empreendido é incrível, mas acho que foi um erro meu mesmo de querer lê-lo como um livro convencional, tipo abrir na primeira página e seguir daí em diante. Então todas essas coisas aí de cima são, na verdade, ‘dicas’ de como lê-lo de maneira mais proveitosa do que propriamente uma crítica. Nada impede que você queira ler um capítulo todo só de uma vez, mas acho que é um livro pra ser descoberto aos poucos, com cuidado.

Ele foi feito pensando nisso, inclusive, tanto que cada capítulo corresponde a uma época específica, tipo dos anos 1961 aos anos 1975 (capítulo cinco), e isso permite com que você possa fazer uma busca mais selecionada de acordo com aquilo que você estiver procurando. Além disso, não precisa ficar com medo de ‘perder o fio da meada’ porque – exatamente por ser um livro de pesquisa – todos os nomes, datas, enfim, tudo é resgatado o tempo inteiro pelos autores, fazendo com que você não se sinta perdida por não saber quem é pessoa x ou y.

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Eu fiquei muito surpresa do quanto os autores foram precisos na sua pesquisa histórica. A história da moda brasileira é mesmo resgatada desde lá do seu comecinho, com a chegada dos portugueses no Brasil e o encontro com nossos indígenas, até meados de 2010, ano em que o livro foi lançado. Todos os momentos importantes da moda brasileira são lembrados, passando primeiro pela nossa moda copiada da França, depois por nomes da moda brasileira no famoso ‘Agulha de Ouro’ – onde a imagem profissional ficava de lado muitas vezes em prol da imagem pessoal, do ‘vamos causar’ – e chegando até as semanas de moda que realmente deram uma guinada sem precedentes na indústria brasileira de moda.

Pra mim, em especial, foi uma delícia entender um pouco mais sobre a importância do jeans no nosso país. Eu, que não sou muito fã de jeans e o evito sempre o máximo possível – um dia talvez eu fale disso aqui – achei interessante entender o porquê, e sim existe um porquê, o brasileiro é tão ligado ao jeans, tendo ele como nossa roupa básica pra qualquer ocasião. Nada me marcou tanto como o slogan usado pela US Top: ‘A liberdade é uma calça velha, azul e desbotada.” Essa frase é o resumo de tudo aquilo que as marcas de jeans representaram em seus primeiros tempos: a libertação daquela moda certinha que vinha de pai pra filho. Mais do que uma calça jeans, aquela ‘calça velha e desbotada’ era um símbolo de juventude, de contestação.

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“Histórias da moda no Brasil” pode ser encontrado na Saraiva por R$148,00 e é um livro importante pra se ter em uma biblioteca – não só daqueles que se interessam por moda, mas pra qualquer um que se interesse pela história de nosso país. Além de trazer as mudanças do setor têxtil e de vestuário brasileiro ao longo dos anos, o livro faz um paralelo com as transformações do próprios país – social, política e econômica – contextualizando com cada momento de nossa moda.

E como cereja no topo do bolo tem imagens lindíssimas, como as desse post que estão nas páginas do livro.

Pra informar e inspirar.