Eu sei que o Oscar já passou, mas, mesmo tendo feito dois posts de aquecimento aqui no blog, ainda assim quis voltar e escrever sobre os filmes que concorreram na categoria de melhor figurino. Isso porque, como vocês sabem, eu sempre faço uma maratona com todos os indicados, e ainda que esse ano eu tenha ficado um pouco decepcionadas com a lista no geral, achei que especialmente nessa categoria os concorrentes estavam muito fortes.

Os cinco filmes desse ano além de serem muito originais em seus figurinos (mesmo quando a história já era uma velha conhecida nossa), utilizaram-se de tecidos, técnicas, recursos, histórias e contextos muito diversos para criarem suas roupas. Ainda que Mad Max tenha sido o grande vencedor da categoria, em aspectos diferentes, todos foram muito geniais. Portanto, aqui embaixo falei sobre os cinco incríveis longas que concorreram a melhor figurino do Oscar, contando um pouquinho sobre sua história e todo o processo de criação de suas roupas e acessórios.

Adaptado pelo direto Todd Haynes do livro de mesmo nome da autora Patricia Highsmith, Carol se passa na Nova York dos anos 50, quando duas mulheres muito fortes e independentes, mas que possuem estilos de vida e idades completamente diferentes, se conhecem e se apaixonam.

Além de duas protagonistas maravilhosas, – Cate Blanchett (Carol) e Rooney Mara (Therese) – o filme tem ainda por trás de si a mão de Sandy Powell, uma das maiores figurinistas de Hollywood. Profissional tarimbada no Oscar, ela já teve 14 filmes indicados à estatueta de melhor figurino, tendo sido três vencedores: Shakespeare Apaixonado de 1998, O Aviador de 2004 e a Jovem Rainha Vitória de 2009.

Logo que a gente vê os primeiros looks de Carol e Therese, já conseguimos perceber que o guarda-roupa das duas é muito diferente, ainda que ambos representem estilos que se sobressaíram na década de 50. Em uma entrevista para a Variety, Sandy contou, por exemplo, que ainda que ela seja uma grande fã de cores chamativas, os figurinos das duas são no geral de tons sóbrios e frios, sendo assim mais fiéis à época e lugar onde a história se passa.

Enquanto Carol, uma mulher experiente e rica, veste roupas e acessórios mais glamourosos, como casacões, conjuntinhos, jaquetas trapézio, lenços e óculos estilo gatinho, Therese tem um estilo mais simples, com pouca mistura de tecidos ou volumes. Ainda que eu tenha ficado apaixonada pelo figurino de Carol, que tem uma vibe bem lady like, achei superinteressante o fato de que as roupas de Therese foram todas garimpadas em brechós. Pouco se ligou para etiquetas ou nomes de marcas famosas no figurino do filme, porque o intuito foi mesmo o de resgatar a moda da época da forma mais literal possível.

Concorreu também nas categorias de: melhor atriz (Cate Blanchett), melhor trilha sonora, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor atriz coadjuvante (Rooney Mara)

Um dos filmes mais badalados da noite, especialmente por ter sido o responsável por Leonardo DiCaprio finalmente levar uma estatueta para casa, O Regresso (The Revenant, em inglês) é do diretor Alejandro González Iñárritu. Baseado em eventos reais, ele conta a história de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um caçador que parte numa expedição pelo deserto dos EUA, acaba sendo atacado por um urso, traído por um de seus companheiros e vendo seu filho ser assassinado.

Depois de quase morrer por ter sido largado para trás, Hugh parte atrás de John Fitzgerald (Tom Hardy) em busca de vingança, numa jornada épica, cheia de cenas sobre o poder da natureza e da força espiritual.

Com quase três horas de duração, o filme que foi gravado ao longo de nove meses na Argentina e no Canadá, em ambientes externos e apenas com luz natural, teve também seu figurino como um dos maiores trunfos para torná-lo o mais verídico possível. A grande responsável por tudo isso foi Jacqueline West, designer de moda e figurinista que já teve outras duas indicações ao Oscar pelos filmes Contos Proibidos do Marquês de Sade de 2000 e O Curioso Caso de Benajmin Button de 2008.

Apesar de ter me decepcionado um pouco com O Regresso, achei bastante curioso e incrível como Jacqueline conseguiu fazer de um filme que é completamente o oposto das grandes produções
luxuosas que muitas vezes concorrem nessa categoria, um longa que tem um figurino extremamente complexo, bem pensado e que retrata de maneira bastante fiel o ambiente e ritmo da história.

Li uma matéria no UOL que contava que para costurar as roupas, a figurinista se aprofundou em técnicas muito próximas as usadas pelos caçadores da época (1820), criando réplicas de processos feitos com intestinos secos de pequenos animais. Já para impermeabilizar os casacos, foi usado gordura animal misturada com terra, criando uma cor e brilho especiais às peças.

Um dos maiores destaques desse figurino foi com certeza a pele de urso usada por Leonardo DiCaprio em grande pate do filme. A pele era de verdade e quando molhada chegava a pesar mais de 45kg! Como ao longo do filme ela e todos os outros figurinos vão sendo envelhecidos, surrados e sujos, foram feitas várias réplicas do casaco, de forma a se obter uma para cada desventura passada pelo ator em cena.

Concorreu também nas categorias de: melhor filme, melhor design de produção, melhores efeitos viuais,melhor montagem, melhor ator codjuvante (Tom Hardy), melhor edição de som, melhor mixagem de som e melhor cabelo e maquiagem.

Vencedor nas categorias de: melhor diretor, melhor ator (Leonardo DiCaprio) e melhor fotografia.

Adaptado do livro homônimo escrito por David Ebershoff (que foi baseado nos diários da protagonista), A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, em inglês) conta a história do casal de artistas Einar Weegener (Eddie Redmayne) e Gerda Weneger (Alicia Vikander). A história se passa na Copenhagem dos anos 20 e ainda que romanceada, conta o momento em que durante o casamento dos dois, Einar toma consciência de viver em um corpo em que não se reconhece. É nesse contexto que surge então uma das primeiras transexuais da história a passarem por uma cirurgia de mudança de sexo.

Einar se transforma em Lili Elbe e, junto a isso, muda-se também seu comportamento, jeito de falar, traquejos, desejos e, claro, suas roupas. Com inspirações vindas de grandes nomes da moda na época, como Coco Chanel, Jeanne Lanvin e Paul Poiret, o figurinista Paco Delgado fez com que a transição de guarda-roupa de Einar para Lili fosse linda de se ver na medida em que refletia as próprias descobertas que a protagonista enfrentava.

Saem as roupas super ajustadas e austeras de Einar e entram em cenas as peças e tecidos fluidos de Lili. Ainda que aos poucos, o guarda-roupa da protagonista vai ganhando cores, volumes e formas diferentes, especialmente quando o casal se muda para Paris, um dos ambientes culturais e intelectuais mais efervescentes da época.

As pesquisas de Paco, – que também já foi indicado para a categoria de melhor figurino por Os Miseráveis, de 2012 – acabaram fazendo com que Edddie Redmayne não precisasse de enchimentos quando no corpo de Lili. Isso porque, seguindo a moda da época e os padrões de beleza impostos, os corpos das mulheres tendiam a ser mais retos, sem peças que marcassem seus quadris ou seios. Assim, Eddie usou apenas um espartilho para deixá-lo mais esguio e lânguido, dando ao ator mais movimento em cena.

Concorreu também nas categorias de: melhor ator (Eddie Redmayne) e melhor design de produção.

Vencedor nas categorias de: melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander).

Ainda que eu tenha ressalvas sobre essa adaptação que Cinderela ganhou no ano passado, a história da garota explorada pela madrasta que ganha uma noite de “princesa” graças a sua fada madrinha (Helena Bonham Carter), continua a conquistar diferentes gerações e é sempre muito bonitinha de se ver. O figurino, é claro, é uma paixão à parte, e pelas mãos de Sandy Powell (olha ela aí de novo!) fica ainda mais rico de referências e belezas.

As inspirações pra madrastá má (Cate Blanchett) e suas filhas (Holliday Grainger e Sophie McShera) tem claras influências dos anos 50, década de estilo bastante clássico e glamouroso, que deixava em bastante evidência a feminilidade da mulher. Os acessórios de cabeça, os vestidos armados, os tecidos leves e fluidos, e o corpo bastante marcado são características-mor da época e podem ser muito bem observadas nas três atrizes e em outras mulheres da alta sociedade (sic) da história.

Mas é claro que no conto de fadas de Cinderela, é seu sapatinho de cristal e sua roupa para o baile, – que em todas as suas versões sempre chamou muita atenção – as grandes estrelas do figurino. Para confecicionar o maravilhoso vestido azul que a menina vai à festa, Sandy criou uma das peças mais lindas e trabalhosas que lembro de ter visto no cinema até hoje.

A atriz Lily James, além de usar um espartilho para deixar seu corpo mais modelado, também usou uma estrutura de aço enorme para dar sustentação a sua roupa. E que roupa! Para confecicionar o vestido, foram usados centenas de metros de seda, dispostos em diversas camadas, com aplicações de cerca de 10 mil cristais Swarovski! E se não bastasse tanto luxo para uma só peça, ainda foram feitas 8 réplicas da roupa, com pequenas alterações em cada uma, para que o vestido se “adaptasse” a diferentes tipos de cena.

A cor da roupa, aliás, foi um dos detalhes mais pensados e discutidos ao longa da produção, já que o azul final do vestido deveria ser de um tom que reluzisse e se sobressaíse de uma maneira única no baile. Depois de muitas pesquisas, chegou-se finalmente a esse tom da imagem, que pra mim é um azul super onírico, bem cor de conto de fadas mesmo.

Salvo todas essas belezes da produção, apenas um detalhe parece ter “manchado” um pouco o tão maravilhoso figurino da história: a cintura finíssima com que a a atriz Lily James apareceu na cena do baile. Essa questão foi duramente criticada pelo público, que acusou o longa de celebrar um padrão irreal e preocupante de corpo para milhares de crianças e jovens. Mesmo com a fugirinista Sandy Powell e a própria Lily dizendo que a cintura da cena foi apenas um efeito de ilusão de ótica do vestido e não o resultado de uma intervenção de photoshop, a polêmica demorou muito tempo para acabar.

O filme não concorreu em outras categorias.

O grande vencedor de melhor figurino da noite (e que ganhou mais cinco estatuetas) foi um dos meus filmes preferidos do ano passado. E confesso que por mais que eu achasse que Spotlight levaria a estatueta de melhor filme pra casa (acho que ele tem a “cara” típica dos filmes que o Oscar premia), lá no fundinho eu desejava muito que Mad Max ganhasse essa também.

Gravado todo no deserto da Namíbia e com direção de George Miller, o filme se passa em um futuro pós-apocalíptico em que além de haver muitas guerras, intempéries e pobreza, a água se tornou um bem bastante escasso. Para fazer jus aos personagens bastante únicos, cada figurino foi pensado de maneira diferente, nos mais ínfimos detalhes, e produzido com materiais nada convencionais.

Couro, plástico, pedaços de bonecos e celulares, medalhas e partes de carros e talheres (!) são alguns dos elementos que compõem as roupas do elenco. A figurinista Jenny Beavan, que já foi indicado outras nove vezes ao Oscar e foi vencedora em 1985 pelo filme “Uma Janela para o Amor”, foi a responsável por montar roupas que além de mostrarem todas as agruras sofridas, como sujeira, desgaste e doenças, ainda fez com que elas conversassem com a história de cada personagem.

Furiosa (Charlize Theron), por exemplo, é uma das personagens mulheres mais fortes que já vi no cinema (alguém me explica por que ela não foi indicada a melhor atriz?!) e suas roupas e acessórios foram todos pensados para tornar sua imagem ainda mais forte e destemida, deixando de lado toda e qualquer feminilidade. O próprio Mad Max (Tom Hardy) é bastante inspirado no primeiro herói da franquia, só que aqui em uma versão ainda mais desgastada; e o vilão-mor da história, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), carrega uma das peças mais chocantes e imponentes do filme: uma máscara que o permite respirar e que imita a arcada dentária de um cavalo.

Existem ainda os The War Boys, quem tem na sua maquiagem um dos elementos mais marcantes do longa (outra categoria, aliás, na qual o filme foi vencedor), e claro, as esposas de Immortan Joe, que são um choque de beleza e frescor e que usam tecidos leves, claros e fluidos.

Ou seja, um filme que definitivamente levou a excelência de seu roteiro para cada um dos trajes que fez.

Também concorreu nas categorias de: melhor filme, melhor diretor (George Miller), melhor fotografia e melhores efeitos especiais.

Também ganhou nas categorias de: melhor design de produção, melhor montagem, melhor cabelo e maquiagem, melhor mixagem de som e melhor edição de som.

BIsous, bisous