A segunda paixão de Amelia Earhart

Todo mundo já escutou falar sobre Amelia Earhart e sobre como ela foi uma figura importantíssima dentro da história da aviação. Mais do que uma grande pilota, ela detém alguns dos recordes mais importantes na área, o que se torna ainda mais incrível quando lembramos que ela fez tudo isso sendo uma mulher durante os anos 20 e 30.

No entanto, esse post não é para falar sobre essa Amelia Earhart dos livros. Ou, pelo menos, não para falar sobre esse lado dela.

Esse post é para falar sobre como descobri, enquanto lia algumas páginas do livro “100 anos de moda”, que Amelia tinha uma segunda paixão. E não estou me referindo ao feminismo – que também era um tópico muito importante em sua vida e que a fez até criar um clube para mulheres pilotas. Estou me referindo a paixão que essa mulher tinha pela moda e que a fez, inclusive, lançar sua própria marca de roupas.

A passagem que fala sobre Amelia nesse livro lindo, com Audrey estampada na capa, é bem pequena, mas foi o suficiente para me deixar com uma pulga atrás da orelha e com vontade de pesquisar mais sobre o assunto. Foi assim que descobri que Amelia Earhart já gostava de moda desde pequena.

Essa paixão foi levada também para a sua vida adulta e acabou sendo muito útil durante os trabalhos que fez antes de se tornar aviadora. Na época, o salário que ganhava era pouco para as suas despesas, o que fez com que Amelia decidisse ela mesma fazer suas próprias roupas. Isso a ajudou por um bom tempo e muito provavelmente foi a primeira faísca – ainda que nem ela soubesse disso – da sua capacidade de levar a moda como profissão e não apenas como hobbie.

Mas costurar suas próprias roupas se mostrou algo apenas temporário. Depois que entrou para o mundo da aviação, as roupas que Amelia passou a usar, – e pelas quais ficaria para sempre lembrada – são as roupas que usava em seus voos, e que normalmente eram trajes extremamente confortáveis e práticos, duas características essenciais para sua profissão.

Ainda que a maioria dos trajes fosse bastante masculino, com uma gama de cores quase reduzida ao preto, marrom e cinza, Amelia sempre fez questão de dar um toque mais leve e colorido à sua roupa com lenços – acessório que se tornaria uma de suas marcas registradas.


amelia

Com as mudanças na vida profissional e sua nova carreira como pilota, o prestígio e a popularidade da americana também começaram a crescer. Ela era muito admirada por todos os recordes que quebrava, se tornando uma inspiração para diversas mulheres que começaram a vê-la não apenas pelo lado profissional, mas também pelo lado pessoal. Nesse processo, suas roupas também acabaram ganhando bastante atenção, tornando alguns de seus itens (alô, jaqueta aviador!) até hoje muito populares na indústria da moda.

Foi então que em 1934, Amelia decidiu que era hora de provar mais uma vez o quanto mulheres podiam ir à luta e, de quebra, realizar um sonho. Ela criou a “Amelia Earhart Fashion Designs”, marca de roupas que teve a sua primeira coleção, a Active Living, lançada naquele mesmo ano.

Vendida em 50 lojas, incluindo a famosa loja de departamento Macy’s de New York, a coleção tinha uma proposta completamente diferente das roupas que Amelia usava como aviadora. Tecidos leves, vestidos, chapéus e suéteres estavam lá, assim como o maravilhoso slogan “para a mulher que vive ativamente”.

A aviadora mergulhou tão fundo nesse projeto, que ela mesma criou as peças protótipos da coleção em sua máquina de costura, fazendo questão de acompanhar todos as outras etapas de produção até as roupas chegarem às lojas. No entanto, ainda que os preços das peças fossem razoavelmente acessíveis, o terrível período econômico que os EUA atravessava acabou falando mais alto e a marca de Amelia Earhart não prosperou.

Em 1937, quatro anos depois dessa empreitada no mundo da moda, Amelia Earhart resolveu dar a volta ao mundo em seu avião e desapareceu no Oceano Pacífico já no trajeto final do percurso. Até hoje não se sabe ao certo o que realmente aconteceu, mas ela foi dada como morta em 1939, se transformando em uma lenda da aviação mundial.

Sei que existe um filme sobre a sua vida (que eu quero muito assistir) estrelado pela Hilary Swank e enquanto pesquisava para escrever esse post aqui, descobri que a aviadora também foi uma das inspirações para uma coleção da Hermés em 2009 (para quem quiser saber mais, tem as fotos do desfile nesse link aqui da Harper’s Bazaar).

Ainda assim, parece que faltam informações mais profundas sobre a sua vida, especialmente sobre suas outras empreitadas comerciais (que foram além das roupas) e sua veia feminista, que parecia ser muito forte e depositada em tudo que fazia. Uma pena, já que antes mesmo de ser a profissional brilhante que era, Amelia parecia ser uma mulher incrível.

Bisous, bisous

(A falta de) mulheres diretoras no Oscar

Vocês devem se lembrar que no Oscar do ano passado, Patricia Arquette, ao ganhar o prêmio de melhor atriz coadjuvante por Boyhood, fez um dos discursos mais inspiradores e empoderadores da noite, pedindo igualdade salarial para homens e mulheres. O discurso ganhou uma projeção gigante na mídia, e a falta de espaço e reconhecimento dado ao universo feminino – especialmente dentro da indústria cinematográfica – recebeu, felizmente, muito mais atenção.

Só que vale lembrar que além da questão salarial, outras desigualdades de gênero parecem dominar o cinema, especialmente quando olhamos para Hollywood. E pra constatar isso, não é preciso ir muito longe não.

Quer coisa mais intrigante (pra não dizer absurda) do que perceber que em 86 anos de Oscar, apenas quatro mulheres foram indicados à melhor direção?! A disparidade é tão grande que custa a acreditar que isso é mera coincidência.

A atriz Ingrid Bergman em 1953 no set de filmagens de "Nós, as Mulheres"

A atriz Ingrid Bergman em 1953, no set do filme “Nós, as Mulheres”

No ano passado, a ACLU (American Civil Liberties Union), uma ONG norte-americana de defesa dos direitos do cidadão, enviou uma carta às autoridades da Califórnia pedindo uma fiscalização da indústria cinematográfica de Hollywood devido a uma exclusão generalizada de mulheres diretoras, tanto no cinema quanto na TV.

Os dados que a ACLU mostram são interessantes porque já fazem cair por terra aquela que seria a resposta mais óbvia para a falta de mulheres nessas grandes produções:  a de que há poucas diretoras no mercado. Na verdade, o número de homens e mulheres se formando em escolas de cinema tem sido bastante equiparável nos últimos anos, destruindo a ideia de que não existe uma mão de obra qualificada feminina para o serviço.

Mas se existem então homens e mulheres cineastas quase que na mesma medida, porque apenas homens dominam o mercado?

Eu encontrei a resposta pra essa pergunta na fala de alguém que vê, todos os dias, o preconceito de perto, a diretora Jane Campion, uma das quatro mulheres indicadas à melhor direção no Oscar. Em entrevista ao The Guardian, ela disse “At film schools, the gender balance is about 50/50. Women do really well in short-film competitions. It’s when business and commerce and art come together; somehow men trust men more.” Algo como “Nas escolas de cinema, o equilíbrio entre os sexos é de 50/50. Mulheres se saem muito bem em competições de curta-metragens. É quando o business, o comércio e a arte se juntam, que de alguma maneira homens confiam mais em homens.”

Ou seja, ainda que haja uma mão de obra numerosa e qualificada de mulheres no mercado cinematográfico, quando estamos falando de grandes produções, é ainda uma maioria esmagadora de homens que financiam e dirigem filmes e, consequentemente, ganham mais destaque dentro da indústria e de premiações como o Oscar.

Além de torcer para que se dê cada vez mais espaço e reconhecimento às diretoras de cinema, – assunto que felizmente parece vir ganhando cada vez mais discussão – achei mais do que válido falar aqui nesse post um pouquinho sobre as quatro ganhadoras do Oscar, já que esse prêmio além de ser delas, representa muitas outras das suas colegas profissionais.

E fica aqui a pergunta: quais diretoras de cinema vocês recomendam? Vamos espalhar esses nomes por aí e mostrar o devido reconhecimento que elas merecem!

Bisous, bisous