Eu li: Precisamos falar sobre o Kevin do Lionel Shriver

Lembro quando assisti “Precisamos Falar Sobre o Kevin” pela primeira vez. O filme é do diretor Lynne Ramsay e na época do seu lançamento, além de fazer um sucesso muito grande, ele vinha sendo classificado por todo mundo como um excelente thriller psicológico. E sendo eu uma pessoa que ama bons filmes desse gênero, foi meio que inevitável que a minha curiosidade pela história triplicasse.

Confesso que foi chocante. Além das atuações excelentes do trio de personagens principais (a deusa Tilda Swinton, o ator novato em Hollywood e que viria a se tornar meu queridinho, Ezra Miller, e o maravilhoso John C. Reily), o filme fala sobre uma série de assuntos como maternidade indesejada, relações humanas de puro ódio, relacionamentos destruídos, e muitos outros temas já muito discutidos, mas quase nunca falados sob o ponto de vista mostrado na história.

Tinha muita coisa pra ser deglutida em “Precisamos Falar sobre o Kevin”, e muita coisa que incomodava, que causava desconforto, que fazia o telespectador refletir.

Mas minha história com ele não tinha acabado aí. Quatro anos depois de assistir o filme pela primeira vez, encontrei Kevin novamente. Dessa vez pelas mãos da Bruna, que me emprestou o livro que deu origem ao filme com a promessa de que eu com certeza iria achá-lo incrível. E não é que ela acertou em cheio?

Minha capa preferida do livro. Acho ela sombria e meio creep de um jeito bem fiel a história

Por mais difícil que isso possa parecer, já que o filme é mesmo excelente, o livro me envolveu mais. A escrita de Lionel Shriver parece que chega te socando na boca do estômago, em especial porque a história é contada através das cartas escritas pela mãe do garoto, Eva, para o seu marido Franklin. O que torna a realidade que ela viveu, pensou, sentiu e temeu, a nossa própria realidade.

Logo que começamos a ler as cartas, entendemos que o livro não se desenrola exatamente em ordem cronológica. Eva, em um momento futuro da história que vamos acompanhar, decide escrever para seu marido contando os fatos que a levaram até ali. Isso de uma maneira bastante crua, sem esconder nenhum sentimento ou acontecimento vividos. Tudo que desejava, tudo que sentiu, tudo que colocou em segundo lugar na sua vida, tudo que amou, tudo que odiou. Tudo que viveu e que vai sendo despejado sem cerimônia na escrita.

O encontro e casamento dos dois, a gravidez de Eva, a dificuldade do relacionamento de mãe e filho, a aversão à maternidade, os primeiros sinais de que a criança não era uma criança como as outras e muitos outros acontecimentos, sempre cheios de conflitos internos e externos, vão sendo contados para o marido e, claro, para o leitor.

Isso, aliás, é um trunfo bem grande do livro. A gente vai acompanhando a história da mãe de Kevin já sabendo que, no futuro, algo de muito ruim aconteceu. Eva está sozinha agora, destruída, em um emprego horrível, totalmente arrasada. Mas não sabemos o que de fato houve nesse meio tempo. Qual o tortuoso caminho que fez com que a inteligente e perspicaz Eva do começo da história se transformasse nessa figura amaldiçoada.

A edição que eu li, com a capa do filme

A edição que eu li, com a capa do filme

Entre os muitos assuntos que acabam surgindo ao longo da leitura, o que mais grita na nossa cara e que parece estar por trás de todos os acontecimentos que são narrados diz respeito a maldade humana. Afinal, Kevin é uma criança que nasceu má.

Mas será mesmo?

Enquanto algumas passagens do texto te levam a aceitar isso sem muitas dúvidas, outras parecem nos fazer pensar se não existe um algo mais aí. Se bem e mal são assim tão milimetricamente separados, – preto ou branco, cara ou coroa – ou se uma há uma ambivalência de sentimentos dentro de cada pessoa que pode ser despertada para um lado ou outro ao longo da vida.

E se for isso mesmo, de quem é a culpa pela escolha?

Não sinto em dizer, – já que acredito que essa é uma das coisas que tornam o livro tão excelente quanto ele é – que essas e muitas outras questões não serão respondidas ao longo da leitura. Talvez porque elas não tenham uma única resposta ou talvez porque caiba a cada um ter sua própria compreensão dos fatos narrados.

Quotes

Holocaustos não me assombram. Estupros e trabalho escravo infantil não me assombram. Franklin, sei que você pensa o contrário, mas Kevin também não me assombra. Fico assombrada quando deixo cair uma luva na rua e um adolescente corre dois quarteirões para devolvê-la. Fico assombrada quando a moça do caixa me lança um amplo sorriso, junto com o troco, quando a minha fisionomia era apenas uma máscara apressada. Carteiras perdidas enviadas aos respectivos donos pelo correio, estranhos que fornecem indicações precisas de uma rua, vizinhos que regam as plantas uns dos outros – essas coisas me assombram. Celia me assombrava.”

“Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada.”

“Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a ideia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos ver. Que, ao recebermos aquele telefonema fatal avisando que nossa mãe está morta, não sentiremos nada. Pergunto-me se esse pequeno medo calado, inexprimível, é ainda mais agudo que o medo da má notícia em si: o de que vamos nos descobrir uns monstros.
”

Para quem se interessou pelo livro, ele tá a venda no site da Saraiva. E se você já leu, conta aqui nos comentários se gostou dele tanto quanto eu.

Bisous, bisous e até amanhã :)

Os cinco de fevereiro

Todas as fotos desse post são do meu instagram @paulinhav.

Em Leme, aproveitando o feriado

Nas últimas vezes que fui pra Leme, calhou de nenhuma das minhas amigas estar na cidade, o que fez com que eu aproveitasse esses dias na companhia da minha família, meus livros & séries, e a piscina do fundo de casa.

No Carnaval não foi diferente e na parte do feriado que passei por lá, acabou que fiquei matando o tempo nadando – ainda que o tempo não tenha colaborado muito – e com o meu exemplar de “Precisamos falar sobre o Kevin”, um livraço de que ainda vou falar aqui no blog.

Metade despedida, metade comemoração de que ela tá vindo pra Bauru

Duas grandes amigas, a Bruna daqui da foto, e a Babi, a amiga-fotógrafa-gênia que vocês tão cansados de ver no blog, estão de mudança.

Em fevereiro a Bruna mudou de equipe (a foto é da “despedida” dela) e decidiu vir morar em Bauru, onde vive essa que vos fala. Enquanto eu acompanho a mudança dela pra cá, que ainda tá em processo, só consigo lembrar de minha própria vinda pra cidade lanche. Há sete anos cheguei aqui de mala, cuia e um potinho cheio de medos e expectativas. Olhar pra trás e ver tudo que aconteceu desde então é, sem falsa modéstia, de dar orgulho. E de me deixar ainda mais ansiosa pro que vem depois.

A Babi, por outro lado, tá fazendo uma mudança dentro de São Paulo mesmo, mas saindo da sua casa pra dividir um apartamento com os amigos. Tõ muito feliz por ela e por essa nova fase, que eu sei que vai ser incrível. Tanto que essa história de amigas sendo felizes com seus novos lares (e consequentemente me deixando feliz também) acabou me animando pra minha própria mudança. Não quero dar spoilers, mas aguardem as cenas dos próximos capítulos 😉

Mais coisas legais de fevereiro

A foto é meio aleatória, eu sei, mas 1) achei ela mui bonita e inspiradora; 2) amo esse vestido que comprei na viagem pra Paris (viagem essa, aliás, que hoje completa um ano!); 3) achei que ela servia como um pretexto bonito pra linkar com três textos de fevereiro que escrevi/apareci fora daqui do blog.

O primeiro foi lá para o blog do Johnny Tattoo Studio, quando escrevi sobre a história da J. Argo Clothing, marca de roupas masculinas daqui de Bauru que agora está vendendo na nova unidade deles. O segundo, também lá para o blog do Johnny, foi um aquecimento para o Oscar, com a indicação de cinco filmes que influenciaram e foram influenciados pela moda. O último, mas não menos importante, foi uma entrevista que dei lá para o Social Bauru contando quais as minhas expectativas e torcidas para o Oscar. Aliás, vocês assistiram a premiação? Gostaram dos resultados?

Minha segunda leitura da Jane Austen

Depois de “Precisamos Falar sobre o Kevin”, comecei “Razão e Sensibilidade”. Essa edição da Martin Claret é tão maravilhosa que me dá vontade de ler o livro só olhá-la, mas Jane Austen é uma autora tão poderosa que a leitura tá fazendo jus a beleza da capa. Ainda que eu tenha gostado mais de “Orgulho e Preconceito”, pelo menos até esse momento onde tô do livro, tô bastante feliz de estar lendo mais uma obra dela, riscando mais um item do meu desafio de leitura da Rory Gilmore e, de quebra, dando espaço para uma escritora mulher na minha estante.

POSTS DE FEVEREIRO

FILMES DE FEVEREIRO

  • Brooklyn | John Crowley {2015}
  • Carol | Todd Haynes {2015}
  • Amy | Asif Kapadia {2015}
  • Spotlight – Segredos Revelados | Tom McCarthy {2015}
  • Ponte dos Espiões | Steven Spielberg {2015}
  • Deadpool | Tim Miller {2016}
  • O Regresso | Alejandro G. Iñárritu {2015}
  • O Bom Dinossauro | Peter Sohn {2015}
  • A Garota Dinamarquesa | Tom Hooper {2015}

LIVROS DE FEVEREIRO

  • Precisamos Falar sobre o Kevin | Lionel Shriver

Bisous, bisous

Eu li: Toda Luz Que Não Podemos Ver do Anthony Doerr

Sempre admirei pessoas que conseguiam escrever narrativas boas, bem feitas e envolventes, com enredos completamente distantes daquilo que viveram. Já dizia alguém muito mais sábio do que eu: é muito mais fácil escrever sobre aquilo que você conhece. Não é menos respeitoso, – até porque escrever bem, eu acredito, é sempre algo a se admirar – mas talvez seja uma zona de conforto inteligente a se manter quando criamos uma história de ficção.

O que não é o caso de Antony Doerr, é claro.

Tudo bem que o cara é formado em História, e possivelmente já havia estudado sobre a Segunda Guerra Mundial muito mais do que eu ou você. No entanto, a infinidade de referências, fatos históricos e sensibilidade que eu encontrei em seu livro, eu arriscaria dizer que não foram aprendidos numa sala de aula.  Ainda que ficcional, o trabalho de pesquisa e a profundidade que o livro tem provam que Anthony Doerr mergulhou com tudo em uma época que ele não viveu (o escritor nasceu na década de 70), em uma história em que ele não era o protagonista (fosse no corpo de uma garota cega de 15 anos ou nos pensamentos de um jovem alemão de 16) e em uma situação, definitivamente, muito distante da vida que leva hoje em dia morando em Idaho nos Estados Unidos.

“Toda Luz Que Não Podemos Ver” é o segundo romance publicado pelo escritor e foi o vencedor do prêmio Pulitzer de ficção 2015. Ele foi tão incessantemente elogiado pela crítica e pelo público que virou um dos meus maiores desejos de leitura do final do ano passado.

Uma coisa que me chamou a atenção logo de cara foi o fato da narrativa do livro ter como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, um dos temas históricos pelos quais mais tenho curiosidade. Mas o que me prendeu de vez mesmo a essa vontade doida de ler o livro, foi o seu enredo, que parecia singelo e “bonitinho” (no melhor sentido da palavra) e que por isso mesmo causava muita estranheza. Afinal, como é que uma história aparentemente tão delicada e sensível podia se desenrolar em um cenário tão cáustico quanto o da guerra?

O livro conta duas histórias paralelas, mas que acontecem em situações e lugares completamente diferentes. Uma delas é a história de Marie-Laurie, uma garota que ficou cega aos seis anos de idade e que aprendeu a se locomover pelo seu bairro graças a maquete construída pelo seu pai, o chaveiro do Museu de História Natural de Paris. Aos 12 anos, depois de ver as ruas da sua cidade serem invadidas pelas tropas alemãs, ela e o pai fogem da capital em busca de um lugar para ficarem, e acabam se refugiando na cidadezinha de Saint Malo, onde mora seu tio, um sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. Junto com eles está um dos maiores tesouros do museu, que é confiado ao pai da menina para que ele não seja roubado pelos nazistas.

Do outro lado, temos a história de Werner, um garotinho órfão que mora junto com sua irmã em um abrigo para crianças em uma região de minas da Alemanha. Desde pequeno o menino se descobre apaixonado por rádios e ondas eletrônicas, e aos 14 anos de idade é selecionado para estudar em um colégio nazista, onde passa a trabalhar para o estado alemão desmantelando as transmissões de rádio inimigas.

Os capítulos ficam se alternando entre a história de um personagem e de outro, e de tempos em tempos a cena de abertura da história – que se passa no futuro, em 1944– volta a ganhar mais um pedacinho da sua continuação.

Os capítulos do livro, aliás, são supercurtinhos, quase sempre com uma página e meia, no máximo duas de duração, e tornam a leitura muito mais interessante. Ainda que ela seja detalhada e demore pra engatar, – não se engane, esse daqui não é um livro fácil de ler – o fato de haverem tantas mudanças de tempo em trechos tão curtos faz com que o livro fique muito mais dinâmico, deixando cada nova página mais envolvente do que a anterior.

E eu preciso dizer, de preferência em letras garrafais pra deixar bem registrado, que a escrita de Anthony Doerr é de um primor absoluto. Ele sabe usar muito bem as palavras e vai construindo as frases aos pouquinhos, até elas ganharem uma imensidão e significados gigantes na sua frente. É aquele tipo de pessoa que sabe juntar todos os grãozinhos de areia pra formar um castelo enorme, bonito, cheio de labirintos dentro de si.

“Werner fica impressionado ao perceber exatamente naquele momento como é extraordinariamente frívolo construir prédios esplêndidos, compor música, cantar canções, imprimir livros colossais repletos de pássaros coloridos diante da indiferença sísmica e controladora do mundo – quanta pretensão têm os seres humanos! Por que alguém vai se dar ao luxo de compor uma música se o silêncio e o vento são tão mais amplos? Por que alguém vai acender as luzes se as trevas vão inevitavelmente apagá-las? Se os prisioneiros russos são acorrentados a cercas, em grupos de três ou quatro, enquanto os soldados alemães enfiam granadas destravadas em seus bolsos e fogem?
Teatros para ópera! Cidades na lua! Ridículo! Todos eles fariam melhor se dessem o ar da graça quando chegassem os rapazes que atravessam a cidade carregando trenós com cadáveres empilhados.”

“É certo – pergunta Jutta – fazer algo apenas porque todas as outras pessoas estão fazendo?”

A quem interessar possa, tá aqui uma pesquisinha no Buscapé com lugares e preços onde o livro está sendo vendido. Leiam e depois me contem o que acharam!

Bisous, bisous

Listografia: sua vida em listas

“Este livro tem como objetivo ajudar você a criar sua autobiografia a partir de listas. Tive essa ideia porque sou nostálgica e amo os pequenos detalhes da vida – desde as experiências às coisas preferidas. Então quis criar um lugar agradável para capturar e compartilhar tais detalhes: este livro. Acredito que todos deveriam ter sua autobiografia, mesmo que seja para ser lida só pelos entes queridos e em sua forma mais simples: uma lista.”

Lisa Nolan

Ainda que o nome Lisa Nolan não te diga nada, é bem provável que mesmo sem saber você já tenho visitado o site dessa nova yorkina, ex-professora e apaixonada por gatos: o listography.com.

Desde 2006 no ar, o listography nada mais é do que um site de organização meets rede social em que você pode criar listas sobre os mais variados temas, que podem ir desde “quais são as suas metas para o próximo ano?” até “quais são seus restaurantes favoritos?” ou ainda “quais lugares você ainda sonha viajar?”. Tudo isso de forma pública ou privada, montando assim um arquivo online que mistura afazeres, desejos, metas, obrigações ou, como a própria Lisa gosta de chamar, uma espécie de autobiografia.

O site deu tão certo que em 2007 a ideia tomou proporções ainda maiores e virou livro! O primeiro, aliás, de uma série todinha lançada pela Chronicle Books e que hoje já conta com mais de dez títulos.

Apaixonada que sou pelo tema e pelo listography (fiz minha conta em 2011 e, de lá pra cá, criei 23 listas públicas, 6 especiais, 25 já arquivadas por terem sido cumpridas e 19 privadas) não foi surpresa nenhuma eu ter ficado mega feliz quando no começo desse ano, andando por uma livraria daqui de Bauru, me deparei com um dos livros da coleção. E o mais legal de tudo: na sua versão em português, coisa que eu nem sabia que existia.

O “Listografia: sua vida em listas”, como ficou o título do livro aqui no Brasil, é o livro geral (e primeiro a ser lançado) de toda a coleção, onde existem listas sobre os mais variados assuntos. Lançado pela editora Intrínseca em outubro do ano passado e com ilustrações de Nathaniel Russel, nele você consegue criar sua “autobiografia” listando o que mudou em você desde a adolescência, os melhores presentes que já ganhou, os amigos mais memoráveis do seu passado, suas paixonites, revistas preferidas, os melhores dias da sua vida, as coisas pelas quais gostaria de ser lembrado e muito, muito mais. Tem de tudo um pouco, de verdade.

O livro é uma delícia de ser preenchido e é engraçado como cada uma das páginas faz a gente pensar em tantas coisas pelas quais a gente já passou ou sonha pra nossa vida. A gente percebe como as listas – não só a desse livro, mas todas as que a gente fez ao longo da vida – são importantes pra gente se organizar, pra gente guardar memórias de maneira ainda mais palpável e pra gente lutar com ainda mais força pra realizarmos nossos sonhos.

As imagens das capas dos livros que estão nesse post são do próprio site da Chronicle Books e todas as outras, do “Listografia: sua vida em listas”, são da minha edição – que está aos poucos sendo devidamente preenchida.  Pra quem ficou interessado na edição em português, tem pra vender no site da Livraria Cultura.

Boas listas, metas e itens ricados pra todos vocês

Bisous, bisous

Resenha: Funny Girl | Nick Hornby

Funny Girl, livro lançado no finalzinho do ano passado e que chegou aqui no Brasil traduzido pela Companhia das Letras, foi meu primeiro livro do Nick Hornby. Apesar do escritor já ter vários títulos publicados – Alta Fidelidade, de 1995, é um dos maiores sucesso de sua carreira e ganhou uma versão para os cinema no começo dos anos 2000 – foi só com Funny Girl que eu tive curiosidade de ler algo do autor.

Essa fisgadinha de atenção veio da sinopse do livro, que me pegou de jeito ao anunciar uma protagonista mulher que na Londres dos anos 60 queria ser reconhecida pelo seu trabalho, espalhando seu amor pela comédia e fazendo as pessoas rirem. Uma premissa que além de ser completamente diferente de tudo que eu já li, deixava ainda em aberto alguns temas que poderiam ganhar mais aprofundamento, como mulheres no mercado de trabalho, swinging London e showbiz. Ou seja, tudo que eu precisava pra começar o livro o mais rápido possível.

Barbara Parker, a protagonista da história, é uma garota do norte da Inglaterra que sonha em virar atriz de comédia, seguindo os passos da sua grande mestra, Lucille Ball. O livro, aliás, está cheio de referências* a Lucille, das mais literais até as mais escondidas, e não deixa de ser uma grande homenagem a atriz, destacando sua importância para a comédia e, especialmente, para as mulheres na TV.

O livro começa de fato quando Barbara finalmente consegue ir para a cidade grande e, por lá, depois de adotar o nome artístico de Sophie Straws, consegue o papel de protagonista em uma nova série da BBC. A sitcom faz um estardalhaço na TV londrina e, do dia pra noite, Sophie se torna uma estrela em ascensão, conquistando a Inglaterra com sua beleza, inteligência e talento.

Outras capas que o livro ganhou pelo mundo

É nesse momento que outros personagens da história começam a ser apresentados. Entre eles estão atores, diretores e outros envolvidos na série “Barbara (e Jim)” que passam a fazer parte da vida da protagonista, dentro e fora dos palcos. Com seus destemperos, suas afetações, seus objetivos e suas histórias de vida, cada um deles se torna extremamemte importante para a história, de modo que o foco da narrativa passa a ser em torno da própria série e de como ela transforma a vida de todos ao seu redor.

Como cenário para todos esses acontecimentos está a efervescente Londres dos anos 60, o melhor lugar e época que Hornby poderia ter escolhido para escrever essa história. É divertidíssimo acompanhar todas as referências a eventos, lugares e pessoas desse período que aparecem e desaparecem pelas páginas de Funny Girl. O contexto histórico, social e político do período é todo esparramado no livro, e de um jeito leve, rápido e inteligente, a gente acompanha tudo isso de uma vez, descobrindo junto com os personagens as transformações pelas quais a cidade vai passando.

Funny Girl é, desde o começo, um livro muito inteligente. O trabalho de pesquisa que Nick Hornby fez para escrever a história dá pra ser notado em cada página, e ainda que Sophie seja a protagonista do livro, todos os personagens causam impacto na narrativa. Nós nos envolvemos com as histórias de cada um e percebmos, aos poucos, como essas diferentes personalidades ditam um pouco do clima da época.

Se eu tivesse que apontar uma única crítica ao livro, seria o capítulo final, que pra mim ficou meio à deriva na história. A impressão que dá é que o escritor se envolveu tanto com os personagens que quis dar um desfecho completo pra cada um deles, e eu sou um pouco do time que acha que algumas histórias podem acabar de uma forma menos conclusória e mais aberta a interpretações se isso fizer mais bem do que mal à narrativa.

Para quem se interessou pelo livro, Funny Girl é da Companhia das Letras, tem 424 páginas e sai por R$44,90 na Livraria Cultura.

E ah, minha pontuação final pro livro é de quatro estrelinhas!

*notona de rodapé: eu gosto muito de I Love Lucy, série que tornou Lucille Ball mundialmente famosa, e uma das coisas que mais me chamou atenção em Funny Girl foi que eu encontrei referências à série espalhadas pelo livro de maneiras incrivelmente sutis. Por exemplo, muita gente não sabe, mas Lucille Ball só topou fazer I Love Lucy com a condição de que seu marido na vida real, Desi Arnaz, interpretasse também seu marido na TV. O problema disso era que Desi era cubano e a CBS achava que um casal tão “diferente” assim poderia ser visto com maus olhos pelo público. Pra resolver o problema a contento pros dois lados, topou-se a presença de Desi na série contanto que seu nome ficasse camuflado no título: ele se tornou o “I” de “I Love Lucy”. E por que eu contei tudo isso? Porque, coincidência ou não, a série criada por Nick Hornby em Funny Girl se chama “Barbara (e Jim)” e ao longo de todo o livro esse título e a ideia de apontar a mulher como a protagonista e seu marido como o papel secundário, são discutidos várias vezes. É uma referência super escondida, mas que eu achei mega inteligente e que me deixou bastante chocada quando eu percebi.

Bisous, bisous e contem nos comentários se vocês já leram algo desse escritor!