Funny Girl, livro lançado no finalzinho do ano passado e que chegou aqui no Brasil traduzido pela Companhia das Letras, foi meu primeiro livro do Nick Hornby. Apesar do escritor já ter vários títulos publicados – Alta Fidelidade, de 1995, é um dos maiores sucesso de sua carreira e ganhou uma versão para os cinema no começo dos anos 2000 – foi só com Funny Girl que eu tive curiosidade de ler algo do autor.

Essa fisgadinha de atenção veio da sinopse do livro, que me pegou de jeito ao anunciar uma protagonista mulher que na Londres dos anos 60 queria ser reconhecida pelo seu trabalho, espalhando seu amor pela comédia e fazendo as pessoas rirem. Uma premissa que além de ser completamente diferente de tudo que eu já li, deixava ainda em aberto alguns temas que poderiam ganhar mais aprofundamento, como mulheres no mercado de trabalho, swinging London e showbiz. Ou seja, tudo que eu precisava pra começar o livro o mais rápido possível.

Barbara Parker, a protagonista da história, é uma garota do norte da Inglaterra que sonha em virar atriz de comédia, seguindo os passos da sua grande mestra, Lucille Ball. O livro, aliás, está cheio de referências* a Lucille, das mais literais até as mais escondidas, e não deixa de ser uma grande homenagem a atriz, destacando sua importância para a comédia e, especialmente, para as mulheres na TV.

O livro começa de fato quando Barbara finalmente consegue ir para a cidade grande e, por lá, depois de adotar o nome artístico de Sophie Straws, consegue o papel de protagonista em uma nova série da BBC. A sitcom faz um estardalhaço na TV londrina e, do dia pra noite, Sophie se torna uma estrela em ascensão, conquistando a Inglaterra com sua beleza, inteligência e talento.

Outras capas que o livro ganhou pelo mundo

É nesse momento que outros personagens da história começam a ser apresentados. Entre eles estão atores, diretores e outros envolvidos na série “Barbara (e Jim)” que passam a fazer parte da vida da protagonista, dentro e fora dos palcos. Com seus destemperos, suas afetações, seus objetivos e suas histórias de vida, cada um deles se torna extremamemte importante para a história, de modo que o foco da narrativa passa a ser em torno da própria série e de como ela transforma a vida de todos ao seu redor.

Como cenário para todos esses acontecimentos está a efervescente Londres dos anos 60, o melhor lugar e época que Hornby poderia ter escolhido para escrever essa história. É divertidíssimo acompanhar todas as referências a eventos, lugares e pessoas desse período que aparecem e desaparecem pelas páginas de Funny Girl. O contexto histórico, social e político do período é todo esparramado no livro, e de um jeito leve, rápido e inteligente, a gente acompanha tudo isso de uma vez, descobrindo junto com os personagens as transformações pelas quais a cidade vai passando.

Funny Girl é, desde o começo, um livro muito inteligente. O trabalho de pesquisa que Nick Hornby fez para escrever a história dá pra ser notado em cada página, e ainda que Sophie seja a protagonista do livro, todos os personagens causam impacto na narrativa. Nós nos envolvemos com as histórias de cada um e percebmos, aos poucos, como essas diferentes personalidades ditam um pouco do clima da época.

Se eu tivesse que apontar uma única crítica ao livro, seria o capítulo final, que pra mim ficou meio à deriva na história. A impressão que dá é que o escritor se envolveu tanto com os personagens que quis dar um desfecho completo pra cada um deles, e eu sou um pouco do time que acha que algumas histórias podem acabar de uma forma menos conclusória e mais aberta a interpretações se isso fizer mais bem do que mal à narrativa.

Para quem se interessou pelo livro, Funny Girl é da Companhia das Letras, tem 424 páginas e sai por R$44,90 na Livraria Cultura.

E ah, minha pontuação final pro livro é de quatro estrelinhas!

*notona de rodapé: eu gosto muito de I Love Lucy, série que tornou Lucille Ball mundialmente famosa, e uma das coisas que mais me chamou atenção em Funny Girl foi que eu encontrei referências à série espalhadas pelo livro de maneiras incrivelmente sutis. Por exemplo, muita gente não sabe, mas Lucille Ball só topou fazer I Love Lucy com a condição de que seu marido na vida real, Desi Arnaz, interpretasse também seu marido na TV. O problema disso era que Desi era cubano e a CBS achava que um casal tão “diferente” assim poderia ser visto com maus olhos pelo público. Pra resolver o problema a contento pros dois lados, topou-se a presença de Desi na série contanto que seu nome ficasse camuflado no título: ele se tornou o “I” de “I Love Lucy”. E por que eu contei tudo isso? Porque, coincidência ou não, a série criada por Nick Hornby em Funny Girl se chama “Barbara (e Jim)” e ao longo de todo o livro esse título e a ideia de apontar a mulher como a protagonista e seu marido como o papel secundário, são discutidos várias vezes. É uma referência super escondida, mas que eu achei mega inteligente e que me deixou bastante chocada quando eu percebi.

Bisous, bisous e contem nos comentários se vocês já leram algo desse escritor!