As semanas de moda internacionais acabaram e o São Paulo Fashion Week também. Amém. Dá-lhe ver desfile, se apaixonar por tema de coleção, pirar na exposição “The Little Black Jacket” que agora tá no Brasil, acompanhar dança de cadeira de estilista e ainda dar uma zapeada pelas notícias únicas que sempre têm em cada edição. E claro, junto com tudo isso, ainda ter fôlego pra acompanhar Fashion Rio que tá só começando.

Uma imagem linda das semanas de moda internacionais, direto do backstage da Givenchy | ©Reprodução

Uma imagem linda das semanas de moda internacionais, direto do backstage da Givenchy | ©Reprodução

E outra imagem bem representativa, só que dessa vez do SPFW, com os jornalistas assistindo a transmissão ao vivo de um dos desfiles da temporada. | via FFW ©Raisa Carlos de Andrade

E outra imagem bem representativa, só que dessa vez do SPFW, com os jornalistas assistindo a transmissão ao vivo de um dos desfiles da temporada. | via FFW ©Raisa Carlos de Andrade

Eu sei que alguns acontecimentos dessas semanas de moda já foram incansavelmente falados, – e em tempos de internet o conceito de notícia velha tá mais pra dias do que meses ou anos – mas ainda assim eu me pergunto qual o propósito de ter um blog, portal, revista ou qualquer outro meio que gere debate e informação se a gente se priva de falar de tudo aquilo que já foi noticiado ou que teoricamente já esfriou. Não existe cartilha pra opinião e, penso eu, algumas coisas precisam mesmo serem vistas e revistas pra gente poder enxergar outros dos seus ângulos e influências a curto e longo prazo.

Então, eu quero sim falar sobre o desfile do Rick Owens.

Pra quem não viu o desfile ou não leu nenhuma das notícias que pipocaram sobre o assunto, no seu desfile de verão 2014 Rick Owens fez uma performance onde as modelos deram lugar a 40 mulheres de quatro grupos de danças dos EUA, o The Zetas, o Washington Divas, o Soul Steppers e o Momentums. Todos grupos de step, que pelo que eu pesquisei é um estilo de dança onde as pessoas utilizam o corpo todo como uma forma de expressão, usando passos de dança, palavras e gritos de força e palmas pra criar a coreografia. Ou seja, substitui-se o carão de modelo pelo carão de força das dançarinas, que gritaram, dançaram, pularam, bateram palmas e passaram um energia meio alucinante até pra quem assistia pela internet, como eu.

Negras, brancas, magras, gordas, whatever, a passarela se transformou no palco delas e em uma mensagem muito clara de respeito à individualidade e respeito às diferenças. Vale ler esse texto aqui do FFW pra entender com mais detalhes o que rolou no desfile.

“Nós rejeitamos a beleza convencional e criamos nossa própria beleza”
Rick Owens, após sua apresentação.

O Trend Coffee, que eu tenho lido cada vez com mais brilho no olho pelos textos bem embasados e incri que vem publicando, já disse algo muito importante sobre o assunto: “Rick Owens não inventou a roda”. E é verdade. Tanto não inventou que o conceito de desfile espetáculo é mais do que normal na moda e em toda temporada a gente vê não só um, mas vários desfiles que usam da ideia de criar um “show” para ajudar a contar a história daquela coleção.

Acontece, no entanto, que a grande maioria desses desfiles trabalha com apresentações que servem apenas de suporte pra mostrar aquilo que em teoria é o cerne da questão, ou seja, a própria coleção. A apresentação serve pra dar aquele gostinho a mais de inspiração, pra criar uma atmosfera que mostre ao público o que aquelas peças querem dizer e no que aquela coleção foi inspirada. Ela é suporte e não motivo.

Por isso que muito me espantou e deixou feliz ver esse desfile do Rick Owens. Que ele sabe ser criativo nas suas apresentações eu já tava sabendo, mas o que eu não sabia – e que me faz entender esse desfile como algo muito maior do que um cenário, uma atmosfera ou um suporte para uma coleção – é que ele sabe enxergar o espaço que ele tem dentro da moda muito além do que um espaço de autopromoção. Citando a Babi Carneiro que soltou essa frase foda enquanto conversávamos sobre o assunto “(…) Se você não subverte o modelo num momento em que todos os holofotes estão contigo, não subverte nunca ”

E é bem isso.

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É difícil falar de beleza, de aceitação, seja do corpo, do biótipo, do estilo, do tipo de cabelo, whatever, quando a gente vive não só em uma época cheia de imperativos no assunto, mas principalmente em uma área onde ao longo dos anos criou-se uma ideia de beleza ideal. E se você quer ser diferente daquele tipo de beleza, tudo bem, ‘eles entendem’, mas tu precisa vir com uma etiquetinha que expresse bem isso: se é modelo pluz-size precisa estar em um editorial ou em um desfile disso; se é tida como andrógina, maravilha, o mundo da moda te acolhe, mas essa sua característica é aquilo que te define e que te coloca em determinados tipos de casting. Ou você realmente espera pegar todo tipo de desfile que uma modelo “comum” pegaria?

Há uma falsa ideia que ronda nosso mundo e nossas ações de que a despeito de tanto ideal de beleza aí impingido pelo mundo, nós pensamos diferente. Acreditamos que a beleza de cada um é a beleza de cada um, e que essa história de beleza ideal é pura besteira. Veja bem, nós acreditamos nisso, e eu não duvido mesmo disso em momento algum, mas apesar de defendermos essa ideia, a gente só aceita a modelo plus-size quando ela tá inserida em um contexto específico pra isso. E se alguém resolver colocar uma mulher normal em meio a um desfile de modelos magérrimas, a certeza de que a mídia vai falar sobre isso é 99 em 100. Por que? Porque a gente ainda acha isso diferente, porque apesar de acreditarmos que beleza ideal não existe, a gente aceita a diversidade em contextos específicos.

Em resumo, aquilo que a gente acredita e aquilo que a gente faz ainda são coisas muito distintas.

©The Sartorialist

©The Sartorialist

©The Sartorialist

Por isso que pra mim falar sobre beleza da maneira como o Rick Owens falou é tão importante. Ele não criou a roda, eu sei, mas ao meu ver, diferente do que a maioria faz, o que ele usou como suporte do desfile foi a roupa e não a apresentação. Aqui a apresentação foi fim e não meio. E mais importante de tudo: ele encontrou um jeito forte, poderoso e baita reflexivo de fazer a gente pensar sobre a beleza que domina a passarela, sobre a beleza que a gente acredita, e sobre a ideia de beleza que a gente de fato pratica.

E, veja bem, isso é um bocado para se pensar.