Coleção Audrey Hepburn: Um Clarão nas Trevas

Um Clarão nas Trevas, filme de suspense (sim, de suspense!) estrelado pela Audrey em 1967, infelizmente ainda não está na minha coleção de DVD’s. No entanto, como eu tenho amigos muito fantásticos que gostam de cinema tanto quanto eu, consegui assistir ao filme na casa de um deles no último final de semana. E acreditem quando eu digo que a Audrey ser a protagonista de um filme do gênero tão pesado – tão diferente de Charada, que ainda que tenha suspense, é bastante levinho e divertido – é a menor das surpresas que ele nos reserva.

Wait Until Dark, nome original da história, foi dirigido por Terence Young (diretor de O Satânico Dr. No) e produzido por Mel Ferrer, marido da atriz na época e pai do seu primeiro filho, Sean. Audrey e Mel se separaram um ano após o filme ser lançado, e é curioso como existem alguns elementos do longa que parecem fazer jus a (suposta) vida real dos dois e aos motivos que levaram ao fim do casamento.

Mas calma, daqui a pouco eu explico melhor essa história. Primeiro as primeiras coisas.

Baseado em uma peça de teatro da Broadway, o filme conta a história de Susy e Sam (interpretados por Audrey Hepburn e Efrem Zimbalist Jr.), casal que se conheceu e casou há pouco tempo, logo após o acidente que deixou Susy cega.

No momento em que começamos a acompanhar a história, os dois já estão morando juntos e aprendendo a lidar com a nova condição da protagonista. E é aí que um terceiro elemento nada esperado entra em cena: uma boneca recheada de heroína que vai parar acidentalmente nas mãos de Sam. Atrás dessa boneca está um trio de criminosos (Alan Arkin, Richard Crenna e Jack Weston) responsáveis por criar uma emboscada para invadir o apartamento do casal em um momento em que apenas Susy está em casa.

O filme é um suspense de primeira, super bem construído, e o fato de Susy precisar se valer dos seus outros sentidos pra sobreviver aos criminosos o torna ainda mais interessante, cheio de pequenos desvios que não deixam a narrativa óbvia.

Além disso, depois de assistir a esse longa, é um tanto quanto chocante notar como aconteceu algo aí no meio do caminho do cinema que fez com que hoje em dia a gente necessite que os filmes tenham mil cenários, mil personagens, mil cenas assustadoras ou cheias de adrenalina pra tornar a história boa. Porque vejam bem, esse filme aqui se passa todo dentro de um apartamento, conta com apenas seis personagens e é muito bom. Verdadeiramente bom. Do tipo que se apoia única e exclusivamente no roteiro e na atuação dos seus atores para construir uma história de qualidade.

Outro ponto interessante do filme que me chamou muita atenção, foi a personalidade criada para o casal de atores principais. Logo de cara já fica evidente como Sam tenta ignorar o fato de que Susy é cega. Ele deseja tanto que ela leve uma vida totalmente independente, que passa a adotar medidas extremamente cruéis, negando qualquer tipo de ajuda e obrigando-a a fazer tudo sozinha.

É claro que o “tratamento de choque” faz sentido no filme, afinal o que fica subentendido é que é exatamente por causa dele que a protagonista aprendeu a desenvolver seus outros sentidos e agir contra os bandidos. Mas essa relação do casal é extremamente esquisita. É uma relação que incomoda, que machuca, especialmente porque deixa evidente que Suzy passa a fazer certas coisas não porque quer ou porque acha que isso fará bem a si mesma, mas para agradar ao marido, para mostrar que ela consegue levar a vida que ele quer pra ela.

Enquanto isso, na vida real de Audrey, as coisas também pareciam um pouco fora do lugar.

Até hoje muito se especula sobre a vida que ela e Mel levavam longe dos holofotes de Holywood, mas o que muitos amigos e profissionais que trabalharam com o casal comentavam é que Mel – que também foi ator e diretor – tinha uma paixão obsessiva pela imagem de Audrey no cinema. Ele enxergava no sucesso de sua mulher a realização dos próprios sonhos e constantemente a fazia colocar sua carreira à frente de tudo. À frente, inclusive, daquilo que sempre esteve em primeiro lugar para ela e que a atriz nunca fez questão de esconder que era sua grande paixão: a maternidade.

Audrey perseguiu durante muitos anos esse desejo, sofrendo cinco abortos espontâneos até conseguir dar à luz a Sean, seu primeiro filho. E mesmo depois de tê-lo, com os compromissos profissionais e a vida de estrela de Hollywood que levava, faltava tempo para a vida em família.

Assim, da mesma forma como Sam pressionava Susy sob um suposto motivo de que aquilo era o melhor para ela, na vida real, Mel fazia com que Audrey se dedicasse de corpo e alma ao cinema, tornando-a a grande estrela que ele queria que ela fosse. E assim como Susy se esforçava ao máximo para ser independente e agradar o marido, Audrey se tornava cada dia mais a estrela que Mel desejava.

Mas, ainda bem – pelo menos nesse caso – o cinema não é igual a vida real, e pouco depois de Um Clarão nas Trevas, Audrey decidiu que era hora de viver seu sonho.

Ela e Mel Ferrer se separaram em 1968 e a atriz resolveu dar um hiato na carreira para se dedicar exclusivamente a Sean. O casamento com o psiquiatra Andrea Dotti aconteceu pouco tempo depois e em 1970 os dois tiveram Luca, primeiro e único filho do casal.

Audrey no set de filmagens de Um Clarão nas Trevas

Audrey nos bastidores de Um Clarão nas Trevas

Vida pessoal à parte, Wai Until Dark foi muito importante para a carreira de Hepburn e para os filmes do gênero em Hollywood. Ela recebeu a sua quinta indicação ao Oscar por essa atuação e o filme teve um enorme sucesso de público, especialmente por um anúncio impresso feito pelos produtores que causou alvoroço antes mesmo da sua estreia.

“During the last eight minutes of this picture the theatre will be darkened to the legal limit, to heighten the terror of the breathtaking climax which takes place in nearly total darkness on the screen. If there are sections where smoking is permitted, those patrons are respectfully requested not to jar the effect by lighting up during this sequence. And of course, no one will be seated at this time”.

Eu disse que esse era um bom filme, não disse?

Bisous, bisous

Links para toda hora #4 | Especial Harry Potter

Impressionante como no último mês, um monte links, fotos e vídeos relacionados a Harry Potter pularam na minha timeline. Minha sincronia com a série tava mais forte do que o normal, e entre um tour pelo museu da Warner Bros aqui, uma receita de suco de abóbora acolá e um novo conto da J. K. Rowling por ali, eu senti de novo aquela sensação maravilhosa de voltar ao universo de Hogwarts.

Eu tenho muita saudade dos livros e filmes, é claro, mas fico super emocionada quando descubro alguma novidade da série que mostra que a magia não acabou (pieguice dando um oizinho). Por isso, resolvi trazer aqui pro blog alguns desses links maravilhosos que têm me feito relembrar e reviver tão intensamente a série, e espero mesmo que vocês fiquem tão eufóricos quanto eu fiquei com cada um deles :}

A Bruna Vieira do Depois dos Quinze voltou recentemente da Europa e resolveu gravar toda a viagem e colocar lá no canal do blog pra quem quiser acompanhar. Todo dia ela sobe algum vídeo mostrando alguma parte do passeio, e eis que entre as paradas na Euro Disney, Torre Eiffell e Palácio de Versalhes, ela fez também um tour pelo Warner Bros. Studio Tour London – The Making of Harry Potter (aka museu do Harry Potter em Londres).  É isso mesmo, vocês não entenderam errado. Pode chorar de emoção que eu compartilho do sentimento.

A Bruna gravou tudo (tudo mesmo, são 45 minutos de vídeo! haha) e é tanta coisa, tanta locação, figurino, curiosidade, que eu fico na dúvida do que gostei mais. De brinde ela ainda gravou um vídeo mostrando as coisas que comprou lá, já que na entrada/saída do museu tem uma loja gigantesca de produtos da franquia.

Aqui tem o post com os dois vídeos e eu garanto que não há fã que assista isso e não se emocione!

O Olhos de Ressaca, um dos meus canais literários preferidos ever, tá fazendo um mês especial de Harry Potter! Entre os posts que eles já subiram tem o filme “Magia Além das Palavras”, – produção independente e não oficial sobre a trajetória da J. K. Rowling – uma receita de suco de abóbora (bebida tão amada na série) e um vídeo com a tag “Minha vida em Hogwarts”.

Pra acompanhar o blog e o canal deles então, é só clicar nos links aqui e ficar de olho em tudo que tá sendo preparado de especial pra esse mês. Vindo desse trio, já sei que vai ser só coisa incrível!

No último dia 08 foi aberto ao público o Beco Diagonal do The Wizarding World of Harry Potter, em Orlando. O parque existe desde 2010, mas o Beco Diagonal é a sua mais nova expansão, e assim como no livro, tem tudinho nele, do banco Gringotes ao Caldeirão Furado e até a loja das Gemialidades Weasley. E ah, como essa nova área do parque fica afastada do restante, se você quiser chegar até lá precisa primeiro se dirigir ao Expresso Hogwarts que te levará confortavelmente ao seu destino. Dá pra acreditar? <3

No canal da Universal Orlando Resort dá pra ver em detalhes todo esse lugar mágico, impossível de não deixar a gente embasbacados.

Foi nessa semana também que J. K. Rowling quase matou os fãs de HP do coração ao publicar um novo conto sobre a série (!) no site pottermore.com. A história se passa 17 anos depois e mostra Harry, Rony e Hermione se encontrando na final da Copa Mundial de Quadribol. Vários outros personagens também aparecem no texto, que foi todo escrito como se fosse uma reportagem da Rita Skeeter para o Profeta Diário (cheio de especulações, ironias e tiradas, bem ao estilo da jornalista).

Aqui tem o conto em inglês e traduzido pra quem quiser ler, e só posso dizer que fiquei morrendo de vontade de abraçar a J. K. por ter feito isso. Alguns detalhes especiais do texto me fizeram mesmo imaginar os personagens tanto tempo depois ;’)

E vocês, tem algum link de Harry Potter que também querem compartilhar? Se tiverem, mandem aí, gente, que a pessoa aqui agradece imensamente haha.

Bisous, bisous

Quase famosos

“One day you’ll be cool.” 
Frase de despedida de Anita (Zooey Deschanel) para seu irmão caçula William (Patrick Fugit) quando sai de casa para encarar uma nova vida.

Você tem 15 anos, mas não é como os rapazes de 15 anos da sua escola. Você tem uma mãe controladora, é introvertido, zoado por meio mundo e tem a certeza de que seu maior sonho na vida, – o de se tonar um crítico musical – está há milhas de distância de se realizar. Só que aí um belo dia você acorda e parece que o destino acordou de bom humor e, magicamente, resolveu mudar a sua história. Você consegue um freela pra Rolling Stones (!) e, pra poder cumprir a pauta solicitada, precisa acompanhar a turnê da sua banda preferida.

Parece mentira, eu sei, mas a verdade é que a história aqui de cima aconteceu de verdade e foi protagonizada por Cameron Crowe. Cameron era um jovem aspirante a crítico musical quando no começo da década de 70 conseguiu seu primeiro trabalho na área. O trabalho dos sonhos, diga-se de passagem: acompanhar o Led Zeppelin em uma turnê e conviver com os integrantes da banda 24 horas por dia, registrando tudo o que era possível para poder escrever uma matéria para a Rolling Stone. Muita coisa aconteceu naquela turnê e, anos depois, já adulto e trabalhando como diretor de cinema, Cameron achou que aquilo daria um bom filme. Fez alguns ajustes ali, outros aqui, mas manteve a essência da história fiel.

E estava pronto então o roteiro de “Quase Famosos”, filme que em 2001 foi indicado ao Oscar de melhor edição, melhor atriz coadjuvante (com dupla participação de Frances Mcdormand e Kate Hudson) e ainda levou pra casa a estatueta de melhor roteiro original.

Em “Quase Famosos”, William é o garoto que representa Cameron e que vai realizar o sonho de conhecer sua banda – no filme chamada de “Stillwater” – e acompanhá-los em uma turnê. No filme ele tem 15 anos; na história real o diretor era um pouco mais velho que isso, mas nem de longe isso apaga a magia do que aconteceu.

O que talvez mais impressione em Quase Famosos é que quando William finalmente vive seu sonho, ele se descobre muito mais pessoalmente do que profissionalmente. Os seus grandes ídolos, astros da música, são caras problemáticos, cheios de inseguranças, que ganham a vida fazendo aquilo que amam, mas que também se sentem pressionados por uma indústria que é ilusória: em um dia rei, no outro um mero desconhecido. A graça que a gente vê em cada personagem desse filme é linda porque é real: das fãs que acompanham os shows e que tentam provar para os outros (ou será que é pra elas mesmas?) que elas não são apenas groupies, até o agente da banda que nem de longe é um cara experiente no assunto, mas que em compensação é o cara que sempre esteve ali por eles.

Todo esse cenário de loucura, paixão, músicas, mas, principalmente, de muita humanidade, é tudo que o garoto precisava para uma boa pauta. Mas, – que se faça uso de um bom clichê aqui – quem aprendeu muito mais foi ele. As histórias que ficaram guardadas (Penny Lane existiu de verdade, assim como Lester Bangs), a vida na estrada, o sofrimento mascarado pelo sucesso, o medo de ser “só mais um”… Tudo é jogado no colo de William.

Quase Famosos é, acima de tudo, um filme sobre o poder da música. O poder revolucionário que o rock inflamou na década de 70 e que se estendeu para a moda, para o comportamento, para o cinema e até para a forma de pensar dos jovens daquela década. O poder que uma canção tem de resumir o que a gente sente ali, em uns poucos minutos de harmonia e voz, como quando William explica pra sua mãe em forma de música porque o rock abre horizontes (essa cena foi deletada do longa por problemas com os direitos autorais e é uma perda e tanto pra história). Há ainda o poder que a música tem de curar uma dor, um momento ruim, um dia cinzento. O sentimento pode não ser permanente, mas por alguns minutos ela faz a gente sorrir, faz a gente se sentir meio idiota de estar reclamando de algo, faz até a gente adotar uma postura diferente diante de uma situação.

Em Quase Famosos tudo gira em torno da música. Os motivos, as vontades, as lições, as perdas, as vitórias, até a felicidade.

Pode até ser um filme semibiográfico da vida do diretor, mas pra mim ele é um filme completamente biográfico da vida de todos nós, de quando quebramos um casulo e descobrimos todo um outro mundo que existe lá fora, que tava só esperando pela gente. Há quem chame isso de amadurecimento e a quem prefira expressar esse aprendizado diário em forma de música…

“Yes, there are two paths you can go by, but in the long run
There’s still time to change the road you’re on” – Stairway to Heaven, Led Zeppelin

{Sim, há dois caminhos que você pode seguir, mas na longa caminhada
Ainda há tempo de mudar o caminho que você segue}