Os filmes que concorreram na categoria de melhor figurino do Oscar

Eu sei que o Oscar já passou, mas, mesmo tendo feito dois posts de aquecimento aqui no blog, ainda assim quis voltar e escrever sobre os filmes que concorreram na categoria de melhor figurino. Isso porque, como vocês sabem, eu sempre faço uma maratona com todos os indicados, e ainda que esse ano eu tenha ficado um pouco decepcionadas com a lista no geral, achei que especialmente nessa categoria os concorrentes estavam muito fortes.

Os cinco filmes desse ano além de serem muito originais em seus figurinos (mesmo quando a história já era uma velha conhecida nossa), utilizaram-se de tecidos, técnicas, recursos, histórias e contextos muito diversos para criarem suas roupas. Ainda que Mad Max tenha sido o grande vencedor da categoria, em aspectos diferentes, todos foram muito geniais. Portanto, aqui embaixo falei sobre os cinco incríveis longas que concorreram a melhor figurino do Oscar, contando um pouquinho sobre sua história e todo o processo de criação de suas roupas e acessórios.

Adaptado pelo direto Todd Haynes do livro de mesmo nome da autora Patricia Highsmith, Carol se passa na Nova York dos anos 50, quando duas mulheres muito fortes e independentes, mas que possuem estilos de vida e idades completamente diferentes, se conhecem e se apaixonam.

Além de duas protagonistas maravilhosas, – Cate Blanchett (Carol) e Rooney Mara (Therese) – o filme tem ainda por trás de si a mão de Sandy Powell, uma das maiores figurinistas de Hollywood. Profissional tarimbada no Oscar, ela já teve 14 filmes indicados à estatueta de melhor figurino, tendo sido três vencedores: Shakespeare Apaixonado de 1998, O Aviador de 2004 e a Jovem Rainha Vitória de 2009.

Logo que a gente vê os primeiros looks de Carol e Therese, já conseguimos perceber que o guarda-roupa das duas é muito diferente, ainda que ambos representem estilos que se sobressaíram na década de 50. Em uma entrevista para a Variety, Sandy contou, por exemplo, que ainda que ela seja uma grande fã de cores chamativas, os figurinos das duas são no geral de tons sóbrios e frios, sendo assim mais fiéis à época e lugar onde a história se passa.

Enquanto Carol, uma mulher experiente e rica, veste roupas e acessórios mais glamourosos, como casacões, conjuntinhos, jaquetas trapézio, lenços e óculos estilo gatinho, Therese tem um estilo mais simples, com pouca mistura de tecidos ou volumes. Ainda que eu tenha ficado apaixonada pelo figurino de Carol, que tem uma vibe bem lady like, achei superinteressante o fato de que as roupas de Therese foram todas garimpadas em brechós. Pouco se ligou para etiquetas ou nomes de marcas famosas no figurino do filme, porque o intuito foi mesmo o de resgatar a moda da época da forma mais literal possível.

Concorreu também nas categorias de: melhor atriz (Cate Blanchett), melhor trilha sonora, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor atriz coadjuvante (Rooney Mara)

Um dos filmes mais badalados da noite, especialmente por ter sido o responsável por Leonardo DiCaprio finalmente levar uma estatueta para casa, O Regresso (The Revenant, em inglês) é do diretor Alejandro González Iñárritu. Baseado em eventos reais, ele conta a história de Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), um caçador que parte numa expedição pelo deserto dos EUA, acaba sendo atacado por um urso, traído por um de seus companheiros e vendo seu filho ser assassinado.

Depois de quase morrer por ter sido largado para trás, Hugh parte atrás de John Fitzgerald (Tom Hardy) em busca de vingança, numa jornada épica, cheia de cenas sobre o poder da natureza e da força espiritual.

Com quase três horas de duração, o filme que foi gravado ao longo de nove meses na Argentina e no Canadá, em ambientes externos e apenas com luz natural, teve também seu figurino como um dos maiores trunfos para torná-lo o mais verídico possível. A grande responsável por tudo isso foi Jacqueline West, designer de moda e figurinista que já teve outras duas indicações ao Oscar pelos filmes Contos Proibidos do Marquês de Sade de 2000 e O Curioso Caso de Benajmin Button de 2008.

Apesar de ter me decepcionado um pouco com O Regresso, achei bastante curioso e incrível como Jacqueline conseguiu fazer de um filme que é completamente o oposto das grandes produções
luxuosas que muitas vezes concorrem nessa categoria, um longa que tem um figurino extremamente complexo, bem pensado e que retrata de maneira bastante fiel o ambiente e ritmo da história.

Li uma matéria no UOL que contava que para costurar as roupas, a figurinista se aprofundou em técnicas muito próximas as usadas pelos caçadores da época (1820), criando réplicas de processos feitos com intestinos secos de pequenos animais. Já para impermeabilizar os casacos, foi usado gordura animal misturada com terra, criando uma cor e brilho especiais às peças.

Um dos maiores destaques desse figurino foi com certeza a pele de urso usada por Leonardo DiCaprio em grande pate do filme. A pele era de verdade e quando molhada chegava a pesar mais de 45kg! Como ao longo do filme ela e todos os outros figurinos vão sendo envelhecidos, surrados e sujos, foram feitas várias réplicas do casaco, de forma a se obter uma para cada desventura passada pelo ator em cena.

Concorreu também nas categorias de: melhor filme, melhor design de produção, melhores efeitos viuais,melhor montagem, melhor ator codjuvante (Tom Hardy), melhor edição de som, melhor mixagem de som e melhor cabelo e maquiagem.

Vencedor nas categorias de: melhor diretor, melhor ator (Leonardo DiCaprio) e melhor fotografia.

Adaptado do livro homônimo escrito por David Ebershoff (que foi baseado nos diários da protagonista), A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, em inglês) conta a história do casal de artistas Einar Weegener (Eddie Redmayne) e Gerda Weneger (Alicia Vikander). A história se passa na Copenhagem dos anos 20 e ainda que romanceada, conta o momento em que durante o casamento dos dois, Einar toma consciência de viver em um corpo em que não se reconhece. É nesse contexto que surge então uma das primeiras transexuais da história a passarem por uma cirurgia de mudança de sexo.

Einar se transforma em Lili Elbe e, junto a isso, muda-se também seu comportamento, jeito de falar, traquejos, desejos e, claro, suas roupas. Com inspirações vindas de grandes nomes da moda na época, como Coco Chanel, Jeanne Lanvin e Paul Poiret, o figurinista Paco Delgado fez com que a transição de guarda-roupa de Einar para Lili fosse linda de se ver na medida em que refletia as próprias descobertas que a protagonista enfrentava.

Saem as roupas super ajustadas e austeras de Einar e entram em cenas as peças e tecidos fluidos de Lili. Ainda que aos poucos, o guarda-roupa da protagonista vai ganhando cores, volumes e formas diferentes, especialmente quando o casal se muda para Paris, um dos ambientes culturais e intelectuais mais efervescentes da época.

As pesquisas de Paco, – que também já foi indicado para a categoria de melhor figurino por Os Miseráveis, de 2012 – acabaram fazendo com que Edddie Redmayne não precisasse de enchimentos quando no corpo de Lili. Isso porque, seguindo a moda da época e os padrões de beleza impostos, os corpos das mulheres tendiam a ser mais retos, sem peças que marcassem seus quadris ou seios. Assim, Eddie usou apenas um espartilho para deixá-lo mais esguio e lânguido, dando ao ator mais movimento em cena.

Concorreu também nas categorias de: melhor ator (Eddie Redmayne) e melhor design de produção.

Vencedor nas categorias de: melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander).

Ainda que eu tenha ressalvas sobre essa adaptação que Cinderela ganhou no ano passado, a história da garota explorada pela madrasta que ganha uma noite de “princesa” graças a sua fada madrinha (Helena Bonham Carter), continua a conquistar diferentes gerações e é sempre muito bonitinha de se ver. O figurino, é claro, é uma paixão à parte, e pelas mãos de Sandy Powell (olha ela aí de novo!) fica ainda mais rico de referências e belezas.

As inspirações pra madrastá má (Cate Blanchett) e suas filhas (Holliday Grainger e Sophie McShera) tem claras influências dos anos 50, década de estilo bastante clássico e glamouroso, que deixava em bastante evidência a feminilidade da mulher. Os acessórios de cabeça, os vestidos armados, os tecidos leves e fluidos, e o corpo bastante marcado são características-mor da época e podem ser muito bem observadas nas três atrizes e em outras mulheres da alta sociedade (sic) da história.

Mas é claro que no conto de fadas de Cinderela, é seu sapatinho de cristal e sua roupa para o baile, – que em todas as suas versões sempre chamou muita atenção – as grandes estrelas do figurino. Para confecicionar o maravilhoso vestido azul que a menina vai à festa, Sandy criou uma das peças mais lindas e trabalhosas que lembro de ter visto no cinema até hoje.

A atriz Lily James, além de usar um espartilho para deixar seu corpo mais modelado, também usou uma estrutura de aço enorme para dar sustentação a sua roupa. E que roupa! Para confecicionar o vestido, foram usados centenas de metros de seda, dispostos em diversas camadas, com aplicações de cerca de 10 mil cristais Swarovski! E se não bastasse tanto luxo para uma só peça, ainda foram feitas 8 réplicas da roupa, com pequenas alterações em cada uma, para que o vestido se “adaptasse” a diferentes tipos de cena.

A cor da roupa, aliás, foi um dos detalhes mais pensados e discutidos ao longa da produção, já que o azul final do vestido deveria ser de um tom que reluzisse e se sobressaíse de uma maneira única no baile. Depois de muitas pesquisas, chegou-se finalmente a esse tom da imagem, que pra mim é um azul super onírico, bem cor de conto de fadas mesmo.

Salvo todas essas belezes da produção, apenas um detalhe parece ter “manchado” um pouco o tão maravilhoso figurino da história: a cintura finíssima com que a a atriz Lily James apareceu na cena do baile. Essa questão foi duramente criticada pelo público, que acusou o longa de celebrar um padrão irreal e preocupante de corpo para milhares de crianças e jovens. Mesmo com a fugirinista Sandy Powell e a própria Lily dizendo que a cintura da cena foi apenas um efeito de ilusão de ótica do vestido e não o resultado de uma intervenção de photoshop, a polêmica demorou muito tempo para acabar.

O filme não concorreu em outras categorias.

O grande vencedor de melhor figurino da noite (e que ganhou mais cinco estatuetas) foi um dos meus filmes preferidos do ano passado. E confesso que por mais que eu achasse que Spotlight levaria a estatueta de melhor filme pra casa (acho que ele tem a “cara” típica dos filmes que o Oscar premia), lá no fundinho eu desejava muito que Mad Max ganhasse essa também.

Gravado todo no deserto da Namíbia e com direção de George Miller, o filme se passa em um futuro pós-apocalíptico em que além de haver muitas guerras, intempéries e pobreza, a água se tornou um bem bastante escasso. Para fazer jus aos personagens bastante únicos, cada figurino foi pensado de maneira diferente, nos mais ínfimos detalhes, e produzido com materiais nada convencionais.

Couro, plástico, pedaços de bonecos e celulares, medalhas e partes de carros e talheres (!) são alguns dos elementos que compõem as roupas do elenco. A figurinista Jenny Beavan, que já foi indicado outras nove vezes ao Oscar e foi vencedora em 1985 pelo filme “Uma Janela para o Amor”, foi a responsável por montar roupas que além de mostrarem todas as agruras sofridas, como sujeira, desgaste e doenças, ainda fez com que elas conversassem com a história de cada personagem.

Furiosa (Charlize Theron), por exemplo, é uma das personagens mulheres mais fortes que já vi no cinema (alguém me explica por que ela não foi indicada a melhor atriz?!) e suas roupas e acessórios foram todos pensados para tornar sua imagem ainda mais forte e destemida, deixando de lado toda e qualquer feminilidade. O próprio Mad Max (Tom Hardy) é bastante inspirado no primeiro herói da franquia, só que aqui em uma versão ainda mais desgastada; e o vilão-mor da história, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), carrega uma das peças mais chocantes e imponentes do filme: uma máscara que o permite respirar e que imita a arcada dentária de um cavalo.

Existem ainda os The War Boys, quem tem na sua maquiagem um dos elementos mais marcantes do longa (outra categoria, aliás, na qual o filme foi vencedor), e claro, as esposas de Immortan Joe, que são um choque de beleza e frescor e que usam tecidos leves, claros e fluidos.

Ou seja, um filme que definitivamente levou a excelência de seu roteiro para cada um dos trajes que fez.

Também concorreu nas categorias de: melhor filme, melhor diretor (George Miller), melhor fotografia e melhores efeitos especiais.

Também ganhou nas categorias de: melhor design de produção, melhor montagem, melhor cabelo e maquiagem, melhor mixagem de som e melhor edição de som.

BIsous, bisous

As estatuetas de Edith Head #aquecimentoOscar

Uma das maiores lendas do cinema e de toda a história de Hollywood, Edith Head não atou em frente às câmeras e nem mesmo coordenando o set. Com seus óculos de aro grosso, baixa estatura e franja simétrica, Edith trabalhou foi mesmo por trás dos cenários e produções, como a figurinista responsável por filmes produzidos na Paramount, onde ficou 29 anos, e na Universal, onde trabalhou os últimos 11 anos de sua vida. Ao todo ela teve 35 indicações ao Oscar e dessas, levou oito vezes a estatueta pra casa.

>> Para ver os croquis de Edith com mais detalhes, é só clicar na imagem que ela abre grandona! 😉

O primeiro Oscar de Edith veio com Tarde Demais, romance de 1949 que já estreou com gostinho de sucesso, afinal o casal principal era interpretado por Olivia de Havilland e Montgomery Clift, atores que já haviam sido indicados ao Oscar outras vezes (Olivia já tinha até levado uma estatueta pra casa) e que mais tarde se tornariam lendas do cinema por suas interpretações em “E o Vento Levou…” e “Um Lugar ao Sol”.

Até 1966 a academia premiava figurinos em duas categorias, os em preto e branco e os coloridos, e Tarde Demais concorreu entre os p&b. Os figurinos usados por Olivia, que no filme fazia o papel da pobre garota rica, solitária e tímida que descobria o primeiro amor, eram produções extremamente volumosas e cheias de babados. Roupas bastante austeras, que ainda seguiam a moda e os padrões da época de ouro de Hollywood. Para entender um pouco mais do espírito do filme, é interessante dar uma olhadinha no trailer criado para o longa, que é no mínimo bem bizarro.

Fiquei com essa sensação incômoda de que a prioridade foi mais de montar um “hall de estrelas de Hollywood” e uma história de amor quadradinha, do que a de realmente apresentar uma sinopse interessante para o público. E vale dizer: além do figurino em preto e branco, Tarde Demais ganhou o Oscar de melhor atriz, melhor direção de arte em preto e branco e melhor trilha sonora de comédia ou drama, e foi ainda indicado a melhor filme daquele ano.

A Malvada é até hoje um dos filmes mais importantes da história do Oscar. Ele teve 14 indicações à estatueta, um recorde que só foi igualado em 1997 por Titanic. O filme conta a história de uma aspirante à atriz de Hollywood que se torna auxiliar de uma estrela do cinema (a incrível Bette Davis) e passa a usar desse posto e da confiança das pessoas do ramo para alcançar a fama.

Eu nunca assisti esse filme, mas fico muito curiosa em fazê-lo porque ele se tornou um marco para o cinema, com uma história focada em poucos personagens e que se baseia principalmente em diálogos maravilhosos. Seu figurino empresta todo o charme e glamour de Hollywod e trabalha com terninhos e vestidos bem charmosos e exuberantes, principalmente os usados por Bette Davis. E, além de tudo isso, há ainda um detalhe muito especial nessa história: a atuação da linda Marilyn Monroe em um dos seus primeiros papeis importantes no cinema.

Além do Oscar de melhor figurino em preto e branco, a Malvada levou pra casa também as estatuetas de melhor filme, melhor direção, melhor ator coadjuvante (George Sanders), melhor som e melhor roteiro. Aqui tem o trailer pra quem quiser assistir.

Porque não basta ganhar o Oscar de melhor figurino em preto e branco por A Malvada. Edith Head é mesmo destruidora e vai lá e ganha também, no mesmo ano, a estatueta de melhor figurino colorido.

O responsável pela premiação foi o longa “Sansão e Dalila”, um filme bíblico e épico da história do cinema que também ganhou o Oscar nas categorias de melhor efeitos visuais e melhor direção de arte. É por aí que a gente vai vendo a importância dada a construção visual dessa história, que, afinal, tem mesmo uma imagem muito forte por trás de si devido ao período temeroso e conflitante em que se passa: o do Velho Testamento.

As roupas usadas no filme são de cair o queixo. Extremamente sensuais e suntuosas, tudo parece respirar riqueza, com joias em todos os detalhes.  Por essa imagem aqui, dá pra gente ter uma ideia…

Não é qualquer filme que recebe nove indicação ao Oscar e acaba levando seis estatuetas pra casa. Assim como também não é qualquer filme que consegue unir Montgomery Clift e Elizabeth Taylor como um casal-sensação parte de um triângulo amoroso. E olha que esses são só alguns dos motivos que fizeram de “Um Lugar ao Sol” um filme tão inesquecível, que vive servindo de referência e inspiração para outros longas.

Uma das coisas mais legais de behind the scenes de “A Place in The Sun (amo o som da pronúncia desse título em inglês!) é que foi nele que Edith e Elizabeth passaram a travar uma parceria que duraria para o resto de suas vidas.  Edith Head finalmente encontrou alguém que vestia suas criações como ninguém e Elizabeth Taylor achou uma profissional que entendia suas vontades como nenhuma outra pessoa antes fizera. A amizade entre as duas era tão grande que essa sintonia transpareceu também na tela: o vestido tomara que caia de tule branco desenhado pela figurinista e usado pela atriz se tornou uma das peças mais aclamadas da história do cinema.

Um Lugar ao Sol levou o Oscar de melhor figurino em preto e branco, melhor direção, melhor montagem, melhor fotografia em preto e branco, melhor trilha sonora de comédia ou drama e melhor roteiro. Aqui tem o trailer pra quem quiser dar uma olhadinha.

Já teve post aqui no blog sobre A Princesa e o Plebeu, esse filme gracinha que apresentou Audrey Hepburn ao mundo. O filme por si só tem uma história extremamente bonita e delicada, mas que se tornou ainda mais interessante com a presença da atriz novata que conquistou Hollywood num piscar de olhos.

No começo das gravações, Edith Head encontrou dificuldades nas roupas de Audrey: segundo a figurinista, a menina era muito peculiar e cheia de defeitos (!), possuindo seios muito pequenos, quadris estreitos, pés enormes e um pescoço muito longo, o que foi contornado com o uso de muitos lenços e golas altas nas gravações. Mesmo com esses “obstáculos”, a figurinista conseguiu deixar a atriz (ainda mais) deslumbrante, fazendo com que as roupas do filme não apenas acompanhassem a transição da princesa em plebeia, mas que se tornassem quase que um outro personagem da história.

A Princesa e o Plebeu tem um trailer tão bonitinho quanto o filme e ganhou o Oscar de melhor figurino em preto e branco, melhor atriz e melhor roteiro de história para cinema.

Se vestir Audrey Hepburn era realmente difícil para Edith Head, não foi isso que a impediu de fazer seu trabalho bem feito. Tanto que no ano seguinte a Roman Holiday, lá estava a figurinista ganhando mais uma estatueta por Sabrina, filme também estrelado pela atriz.

Vale lembrar, no entanto, que esse filme teve um toque de midas em seu figurino que foi além do talento de Edith, já que a bela Audrey contou com a ajuda do mestre Rubert de Givenchy para vesti-la. E que ajuda! Givenchy montou um guarda-roupa inteirinho para a atriz, fazendo uma parceria com Audrey que seria um sucesso em muitos de seus filmes, mas também fora das telas, onde a atriz sempre desfilava com roupas do estilista.

Sabrina portanto pode ter seus créditos divididos entre a dama do cinema, Edith Head, e o mestre da elegância, Hubert de Givenchy (apesar das más línguas dizerem que a figurinista ficou morta de raiva pela situação e nem dividiu a honra do Oscar com Hubert), mas também – e principalmente – pela construção da história que casa tão bem com os figurinos apresentados. Ainda que o enredo da “gata borralheira” possa ser batido, Sabrina não fica perdido no meio da multidão, e é esteticamente tão interessante quanto a delícia de história dirigida por Billy Wilder.

Sabrina concorreu nas categorias de melhor direção, melhor atriz, melhor fotografia em preto e branco, melhor direção de arte em preto e branco e melhor roteiro, e ganhou como melhor figurino em preto e branco. Aqui o trailer pra quem quiser assistir.

O Jogo Proibido do Amor parece ser uma comédia romântica divertidíssima de se assistir e foi o segundo filme em que Edith Head levou o Oscar de melhor figurino tendo Lucille Bal, nossa eterna Lucy de I Love Lucy, como protagonista.

Saem os vestidos cheios de firulas e entra um visual muito mais clean, mas nem por isso menos elegante, com conjuntinhos e pérolas roubando a cena. Eram os anos 60 começando e renovando os tipos de filmes que o cinema até então produzia e priorizava.

O Jogo Proibido do Amor foi indicado nas categorias de melhor canção, melhor roteiro original, melhor direção de arte em preto e branco e melhor fotografia em preto e branco, e ganhou a estatueta por melhor figurino em preto e branco.

Depois de uma sucessão de premiações ao longo de toda a década de 50 e começo da de 60, Edith Head teve um hiato de Oscars até 1974, quando com o filme “Um Golpe de Mestre” a figurinista voltou a brilhar. E brilhar de uma forma que antes nunca havia feito, afinal, foi deixado de lado os vestidos, as festas e toda a sua sabedoria sobre o guarda-roupa feminino, e colocado em cena os figurinos masculinos, já que Um Golpe de Mestre tem como personagens principais uma dupla de vigaristas.

A comédia que foi inspirada em fatos reais, apresentava um novo desafio para Edith, que apesar de já ter trabalhado incansavelmente com atores, tinha sempre atrizes como as grandes estrelas de suas produções. Eram sempre as mulheres que ditavam o tom do filme e era em seus figurinos que Edith podia sonhar e ousar.

Se reinventando, Edith criou figurinos impecáveis para Robert Redford e Paul Newman, recriando o espírito da década de 30 e reforçando personalidades e funções que cada um dos personagens cumpria dentro da dupla de trapaceiros.

Um Golpe de Mestre ganhou Oscar de melhor figurino (o cinema colorido havia se popularizado de vez e a academia não dividia mais a categoria), melhor direção de arte, melhor trilha sonora, melhor montagem, melhor roteiro original, melhor direção e melhor filme. Aqui tem o trailer pra quem quiser assistir.

 

Tão gostando do #aquecimentooscar, gente? Tô atrasada com as coisas que queria escrever aqui, mas prometo postar mais sobre o assunto ainda essa semana! E ah, quem ainda não viu, não esquece de dar uma olhadinha no primeiro post que entrou da série falando sobre os últimos curtas de animação que ganharam a premiação.

Bisous, bisous

A la Blair Waldorf

Esse post é papo rápido e tem uma única finalidade: fazer todo mundo suspirar <3

Acontece que depois de anos empacando na segunda temporada de Gossip Girl, sem saber o que aconteceu com a série depois dela, resolvi colocar os pingos nos is e assistir todas as seasons, sem pular nada, bem bonitinho.

Santo Netflix é o responsável por tudo isso, e se eu achava que a maratona de GG ia levar um tempão, já que são seis temporadas com uma média de 20 episódios cada uma, tava redondamente enganada haha. Tô tão apaixonada pela série que tô assistindo tudo na velocidade da luz e nesse momento já estou indo para o sétimo episódio da quinta temporada (quando esse post for ao ar, provavelmente eu já terei visto mais alguns :P).

Além da história que tá me prendendo de um jeito louco, de modo que eu não consigo desgrudar da frente do computador (com o plus de que tenho uma paixão absurda por Blair e Chuck que nossa senhora, me deixa doida em todo episódio), meu outro grande amor dessa série atende pelo nome de “figurinos de Blair Waldorf”. Em qualquer temporada, em qualquer episódio, em qualquer circunstância, eu suspiro por todos eles.

E esse post é exatamente pra compartilhar essas coisas lindas com vocês.

Se inspirem com essas fotos e aproveitem que hoje é sábado – e vocês tem o dia todo pra passear e aproveitar o tempo lindo que tá lá fora – e vistam o melhor estilo Blair que vocês tiverem 😉

Bisous, bisous

Inconsciente (ou não) cinematográfico: a moda nas aberturas de Cannes

É domingo agora, 25 de maio, que acontece o encerramento da 67ª edição do Festival de Cannes, um dos eventos de cinema mais importantes do mundo. Desde 1946, o evento oferece pra todo mundo que gosta de cinema um espaço mais artístico e conceitual, pelo menos se a gente pensar em outros festivais e premiações de mesmo porte. Isso não quer dizer que filmes comerciais fiquem fora da rota de Cannes. O que acontece, no entanto, é que aqui há espaço também para longas e curtas muito aquém dos recordes de bilheteria, dos grandes estúdios e efeitos especiais. Grandes filmes (aqueles da série: todo mundo foi assistir no cinema e virou sucesso absoluto) existem dentro do evento, mas Cannes abre um espaço muito grande e importante também para filmes independentes.

Eu curto acompanhar Cannes ainda que muitos dos filmes sejam difíceis de encontrar em um cinema próximo depois. E ainda que, nem de longe, eu seja uma entendedora de cinema-conceito (nem de cinema em geral, na real, mas né, cinema me fisga de um jeito que eu amo às vezes mesmo sem entender).

Só que aí, enquanto pesquisava sobre algumas curiosidades do festival, acabei percebendo uma similaridade bacana – e muito interessante de ser analisada – entre os filmes que abriram o evento nos últimos quatro anos. Em tempo: o filme que abre Cannes, todo ano, tem uma importância enorme dentro do evento. Ele fica fora da competição (são diversas categorias, mas ao melhor filme cabe o prêmio da Palma de Ouro) e tem meio que a função de representar aquela edição e ser um filme que fisgue público e crítica.

Olhando para os últimos quatro anos e vendo os filmes que abriram o festival, é interessante notar que ainda que a moda não seja o foco número um desses longas, ela tem um papel de extrema relevância nos filmes, quase como se fosse um personagem a mais da história. Isso me faz pensar que, conscientemente ou não, Cannes bota pra gente ver uma coisa que já tá aí borbulhando faz tempo: a moda tá cada vez mais relacionada a outros aspectos e áreas da nossa vida.

Se a gente parar pra olhar bem, nos últimos anos a moda tem andado ainda mais de mãos dadas com diversas outras áreas, como a arte, a música, a decoração… Isso já acontecia antes, é claro, mas acho que quanto mais globalizada e democratizada a moda vai se tornando, ela acaba influenciando (e sendo influenciada) por outros campos. É aquela velha e sábia ideia de sempre lembrar que a moda é muito mais ampla do que pode parecer a primeira vista já que tá intrinsecamente relacionada ao novo.

E pra quem ficou curioso sobre quais foram esses tais filmes que abriram o festival em 2014, 2013, 2012 e 2011, fiz um pequeno resuminho abaixo sobre eles. Bora ver?

Cannes 2011 - Meia Noite em Paris | Woody Allen

O cenário de Meia-noite em Paris é tão maravilhoso que só pra admirar a cidade já valeria a pena assisti-lo, mas, como sempre, Woody Allen faz uma história que prende a gente do começo ao fim. O filme conta a história de um roteirista de Hollywood que está de férias em Paris com a família da noiva, e que não se cansa de passear pelas ruas da cidade se imaginando nos anos 20. E, claro, frequentando as festas, cafés e a vida noturna da cidade, acompanhado pelos grandes escritores desse tempo.

Só que aí chega uma noite em que seu desejo vira realidade e, como em um sonho, o protagonista volta no tempo e conhece F. Scott Fiztgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso e todas essas pessoas que abrilhantaram os anos 20. A sinopse parece uma loucura e de fato é: uma loucura boa, deliciosa, que a faz a gente embarcar sem medo nessa década e querer viver lá também.

O figurino, principalmente o retratado nos anos 20, é uma delícia a parte. As roupas e acessórios usados por Marion Cotillard são de chorar de lindas e são obra da figurinista Sonia Grande que também trabalhou com o diretor em “Vicky, Cristina, Barcelona”.

Cannes 2012 - O Grande Gatsby | Baz Luhrmann

O Grande Gatsby já foi falado e refalado tantas vezes que mesmo ainda não tendo assistido o filme (o que vou fazer em breve agora que terminei de ler o livro), a impressão que tenho é que já conheço todas as cenas. Em termos de sinopse, essa não é a primeira vez que o livro de F. Scott Fitzgerald ganha uma adaptação para o cinema: ao todos foram cinco (!) versões que já apareceram nas telonas. Da mesma forma o figurino já foi extensamente falado, afinal, com tanta exuberância fica difícil isso não virar um tópico recorrente.

Nessa mais recente versão com Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan, o figurino é tão importante quanto a história do filme. É ele quem dita o tom da Era do Jazz, é ele quem esparrama nas cenas toda a exuberância das festas de Gatsby, é ele quem – sob a batuta de Miuccia Prada e Catherine Martin – rouba a cena. Vale lembrar ainda que ele foi o vencedor do Oscar de melhor figurino e que é de se perder de vista o tanto de editoriais e coleções que foram lançados inspirados em suas roupas e acessórios.

Amor, loucura, festas e um guarda-roupa poderoso: é claro que isso ia dar certo.

Cannes 2013 - Moonrise Kingdom | Wes Anderson

Moonrise Kingdom é de uma estética tão linda que fica até difícil botar em palavras toda essa atmosfera do filme. As cores, as angulações da câmera, a trilha sonora e, é claro, o figurino, que aposta muito intensamente nas cores para criar uma clima de sonho, de filtro vintage, fazem a gente mergulhar sem volta nesse filme. Eu confesso que não conheço muito da filmografia do Wes Anderson, mas depois de ver esse filme aqui, fiquei doida de vontade de ver Os excêntricos Tenenbaums e seu novo longa, o Grande Hotel Budapeste.

Aqui em MK, a história se passa em torno de duas crianças de 12 anos que se apaixonam, passam a se corresponder por carta e decidem fugir sozinhas para uma ilha. Wes Anderson e Roman Coppola, que ajudou no roteiro do filme, conseguiram transformar os personagens Suzy (Kara Hayward) e Sam (Jared Gilman) em criaturas que misturam ingenuidade e doçura com uma sabedoria muito além da sua idade. Além disso, o charme que esses pequenos atores conseguiram imprimir aos seus papeis somado ao elenco de peso que estrela a história, combinam tão perfeitamente com essa estética do filme que a gente termina de assistir suspirando e querendo mais.

Cannes 2014 - Grace de Mônaco | Olivier Dahan

Espero que Grace de Mônaco chegue logo nos cinemas daqui, porque além de prometer um figurino deslumbrante, o filme já chega com ar de mistério. Acontece que desde quando foi lançado, Grace de Mônaco virou uma grande polêmica: a família real de Mônaco não apoiou o lançamento do filme, alegando que toda sua história é uma grande farsa.  Vale entender que o longa aqui não conta toda a história de Grace, mas sim um momento muito específico da sua vida quando Hollywood e a vida de princesa se viram confrontadas. Toda essa confusão com a família real, no entanto, parece não ter abalado em nada a decisão de Cannes, que manteve sua ideia original de colocá-lo como filme de abertura desse ano. O que só resultou em ainda mais polêmica, já que diante disso a família real resolveu boicotar sua presença no evento.

Bom, tretas à parte, pelo menos no que se trata de figurino a gente pode ter certeza que tudo aqui é muito real. Praticamente todas as marcas que foram usadas por Grace abriram suas portas e emprestaram suas criações para serem usadas no filme: Hermes com sua bolsa Kelly e seus lenços de seda, Chanel com um terninho feminino e Jimmy Choo e Salvatore Ferragamo com sapatos. Além disso, o filho do chapeleiro oficial da princesa confeccionou chapéus especialmente para o longa e vários outros vestidos foram criados tomando-se como inspiração o estilo de Grace. Ou seja, vale ficar na torcida para que a história de fato empolgue tanto quanto o figurino.

A título de curiosidade, pra quem quer saber mais detalhes sobre Cannes e entender também porque não devemos traçar comparações entre ele e o Oscar, vale muito a apena ler esse texto aqui.

E por hoje é só.

Bisous, bisous e bom filme pra você que se empolgou com algum dos longas daqui do post :)

Melhor figurino #aquecimentoOscar

Na corrida pra ver todos os filmes indicados ao Oscar 2013, fiz questão de priorizar a categoria de melhor figurino. Isso porque além de ter vontade de falar sobre eles aqui no blog, essa é uma das categorias que eu acho mais belas na premiação. Daí que agora, depois de vistos os cinco filmes que estão concorrendo, já dá pra fazer as apostas de quem eu acho que leva a estatueta (e torcer loucamente pelo meu escolhido haha).

Nesse ano, os indicados a melhor figurino do Oscar foram: “Anna Karenina”, “Os Miserévais”, “Lincoln”, “Espelho, espelho meu” e “Branca de neve e o caçador”. Longe de mim querer fazer uma análise profunda do figurino ou do longa, mas decidi compartilhar aqui as impressões de alguém que assistiu todos eles, ama moda e cinema, e por isso mesmo se permitiu fazer algumas considerações sobre ambos, ok?

Então, vamos lá!

Anna Karenina

Anna Karenina

Anna Karenina

Anna Karenina

Já começo logo de cara com meu preferido da categoria, já que no tocante ao figurino “Anna Karenina” é simplesmente de arrepiar. O conjunto do filme todo parece contribuir para que o figurino ganhe destaque, vide as angulações de câmera que aparecem durante o longa e a própria cenografia. Durante todo o filme ela brinca com a ideia de uma peça de teatro, e transforma todas as cenas em cenários que se desmontam e em cenas que congelam enquanto apenas um personagem ganha movimento. A beleza é tão grande que o filme tá concorrendo para melhor direção de arte também e, apesar de faltar “O Hobbit” pra assistir todos dessa categoria, chuto que “Anna Karenina” é um fortíssimo concorrente.

Pra quem não sabe a obra original foi escrita por Liev Tolstói e foi publicada entre 1873 e 1877, retratando um período da aristocracia russa onde as roupas e acessórios eram extremamente voluptuosos – leia-se carregados e opulentes. Daí que pra poder retratar a época sem cair no mais do mesmo e sem pesar a mão, Jacqueline Durran, a responsável por toda essa beleza de guarda-roupa do filme, tomou como ponto de inspiração os anos 50 e os anos 70, levando como referência nome do calibe de Lanvin, Christian Dior e Balenciaga. Depois disso ela retornou para as origens da época retratada e fez meio que uma salada mista disso tudo, resultando em roupas super volumosas, rodadas e aristocráticas, mas que ainda assim era mais enxutas que as da obra original. E entre os que odiaram as mudanças e entre os que amaram, fico no segundo time.

Entre as curiosidades sobre o figurino do filme tem o fato de que Keira Knightley usou um colar de diamantes Chanel que custa a bagatela de 2 milhões de dólares, além de peças que demoraram até 50 horas para serem feitas! E tudo isso foi parar em Londres, – na Ham House em Richmond numa exposição que mostra as peças usadas no longa fazendo todo mundo suspirar por chapéus, vestidos, sapatilhas e uma infinidade de outras roupas e acessórios.

Belezas modísticas à parte, o filme em si não me agradou tanto. Nem a dobradinha de Keira e Joe Wright, que foi tão, mas TÃO incrível em “Orgulho e Preconceito” – um dos meus filmes preferidos da vida – teve efeito dessa vez. Parece que não rola encaixe entre os personagens, que não se cria empatia até. Um desenvolvimento bem malemá, com alguns poucos momentos bons.

Os Miseráveis

Fotos feitas por Annie Leibovitz  para a Vogue US

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Fotos feitas por Annie Leibovitz  para a Vogue US

Tenho uma apreço muito especial por “Os Miseráveis”, o que inclui tanto o enredo e todo o desenvolvimento do filme, quanto as músicas e claro, o próprio figurino. De tudo o que li – e vi – sobre o figurino do filme, fica muito claro qual foi a principal inspiração para a confecção das peças: as cores. São elas, mais até do que os volumes, os tecidos e principalmente as texturas que vão aparecendo tão diversificadamente no longa, que ditam o tom da cena, da atuação, do sentimento presente. Tanto que o figurinista Paco Delgado vai usando uma escolha de cores bem minuciosa pra cada cena. Tipo Anne Hatwyay que quando canta I dreamed a dream – lindo de morrer! – usa roupas super sóbrias, cinzas, que dão essa ideia bem doentia, de pobreza para a cena. Já na hora que ela é resgatada por Jean Valjean, que é um momento super dramático do filme, ela tá toda de vermelho, expressando essas fortes sensações mesmo.

Outro ponto que me faz amar loucamente o figurino de “Os miseráveis” é que ele coloca o sonho, o delírio, a fantasia ali juntinho e em pé de igualdade com a reconstrução histórica das roupas. Isso porque Delgado teve que reconstruir as peças usadas na época de 1815 e 1835, – período em que se passa o longa – mas ao mesmo tempo adicionar uma boa dose de faz-de-conta já que se tratava de um musical. E né, bem difícil saber dosar até que ponto deve-se ser uma releitura ao pé da letra das roupas da época, e até que ponto dá pra adicionar doses de imaginação e sonho nas peças. Nada tranks, eu diria.

Lincoln

Lincoln

Lincoln

Lincoln

Achei Lincoln ok no desenvolvimento do longa e ok no figurino. Não que eu tenha odiado, mas só não achei que o filme realmente era condizente com o tanto de furor que se fez em cima dele. Apesar disso acho que ele é um fortíssimo concorrente ao Oscar de melhor filme, vide a linha que a academia quase sempre segue com os vencedores e o filme ser ‘nós americanos somos incríveis’ até dizer chega. Mas é claro também que o figurino tem seus méritos. A figurinista responsável por ele foi Joanna Johnston que já é figurinha marcada nos filmes do Spielberg. Acredito que isso faça uma diferença giganstesca na hora de se criar o figurino de um filme, afinal já ter trabalhado com o diretor permite que o figurinista esteja muito mais em sintonia com suas vontades e sua maneira de querer que as coisas apareçam na tela – o que o figurino contribui um tanto gigantesco.

Diferente de Anna Karenina, ele procurou ser bem fiel à época retratada – o período da Guerra de Secessão Americana e a trajetória política e pessoal do presidente do período, Abraham Lincoln. E ah, uma coisa que eu acho interessante no filme e que me faz ter vontade de bater palmas é o fato dele ser focado principalmente em personagens masculinos, o que acaba sempre dificultando na escolha dos figurinos. Eu admiro mesmo quando figurinos masculinos conseguem ser tão bem trabalhados, porque, querendo ou não, a gente sabe que historicamente ele sempre foi um guarda-roupa mais contido, que não permite tantos sonhos e delírios quanto o feminino. O que é uma pena, diga-se de passagem. Daí que, por isso mesmo, acho que apesar da gente não sentir o coração pulando pelo figurino igual acontece em Anna Karenina e Os Miseráveis, é de se admirar que Joanna tenha chegado em peças tão bonitas e tão fiéis como as que chegou.

Espelho, espelho meu

Espelho, espelho meu

Espelho, espelho meu

Espelho, espelho meu

Coincidências ou não o Oscar desse ano teve dois filmes sobre a Branca de Neve e os Sete Anões indicados a categoria de melhor figurino. No caso, Espelho, espelho meu e A Branca de Neve e o Caçador – cada um com suas peculiaridades e suas versões da história original. Aliás, ultimamente o cinema tem recebido uma avalanche de versões moderninhas de contos-de-fada, não? Além dos dois da Branca de Neve que eu já disse aqui, tem João e Maria Caçadores de Bruxas, Jack e o Caçador de Gigantes e A Garota da Capa Vermelha (Chapeuzinho Vermelho) que eu me lembro assim de relance.

Mas, voltando ao filme, em Espelho, espelho meu o que salva realmente é o figurino, que tá espetacular. De resto, foi o que eu menos gostei dos cinco. Acho a história bem fraca, as atuações bem difíceis de convencer – tirando Julia Roberts – e fica um filme cansativo, que quer te fazer rir em vários momentos, mas que não chega lá. Por outro lado, as peças usadas pela figurinista são um capítulo à parte.

Eiko Ishioka, a japonesa responsável por 400 das 600 peças usadas no longa faleceu em janeiro do ano passado, mas deixou, sem dúvida alguma, sua marca registrada no mundo dos figurinos. Ela que já tinha ganhado o Oscar pelas peças usadas em Drácula de 1993, trouxe uma impressionante mistura de cores, formatos e texturas a esse filme. Do vestido de cisne usado por Branca de Neve no baile da rainha (oi, Bjork!), ao vestido mega colorido usado em seu casamento (não, ela não casou de branco!). Julia Roberts não fica nem um pouco atrás e, no papel da malvada rainha, também deslumbra qualquer um com suas produções. Uma curiosidade do filme é que a tiara de diamantes que aparece na história tem 78 quilates e (pasmem!) 144 diamantes. E o mais legal de tudo isso? Ela era de Grace Kelly, que a usou muito lindamente no casamento de sua filha.

Pesquisando um tico mais sobre o filme achei o trechinho de um texto – bem bonito – no The Hollywood Reporter sobre a reação da figurinista quando viu suas peças em cena. “Ishioka nunca viu o filme terminado, mas Collins [Lily Collins, A Branca de Neve na história] se lembra de ver o seu olhar na frente do monitor durante as filmagens da cena do Baile. ‘Ela viu todas as suas incríveis criações em uma única cena e deve ter sido incrível e emocionante. Mas ela foi sempre tão humilde. Tudo o que ela fez foi sorrir.

A Branca de Neve e o Caçador

Branca de Neve e o Caçador

Branca de Neve e o Caçador

Branca de Neve e o Caçador

O fato de dois filmes sobre a Branca de Neve estarem concorrendo ao Oscar ganha sim algumas comparações e acho até bom, porque na hora que começamos a olhar com calma para a versão que cada um fez da história – incluindo aí seus figurinos, é claro – a gente começa a perceber que é tudo muito diferente. Se em Espelho, espelho meu, Branca de Neve era a donzela-indefesa-e-frágil que só descobre o quanto é forte no final do filme, Branca de Neve e o Caçador não tem nada a ver com essa ideia quadrada de princesa. A personagem principal nessa versão feita pelo diretor Rupert Sanders é muito mais guerreira e corajosa do que um bando de marmanjo por aí. Exatamente por esse distanciamento com a história criada pela Disney, o figurino da Branca do filme é muito mais austero e estruturado do que colorido e feminino. Bela usa armadura, roupas escuras, calças e apesar de ser interpretada por Kristen Stweart, que tem a mesma cara de felicidade e tristeza para os seus personagens, me apetece muito mais do que a Branca de Espelho, espelho meu.

A figurinista do filme é Colleen Atwood, a mulher que ~apenas~ foi indicada 10 vezes ao Oscar e já faturou 3 vezes a a estatueta (Alice nos País das Maravilhas, Nine e Chicago). Ela apostou nessa vibe mais austera e militar em todos os personagens do filme, tirando Charlize Theron (deusa!), que é o único pontinho mais colorido e feminino do filme, e que resgata esse lado fabuloso dos figurinos de contos-de-fada.

– Pra quem gostou do #aquecimentoOscar (to na torcida haha), eu já falei aqui sobre os melhores look do red carpet e aqui sobre uma foto que mostra Audrey Hepburn e Grace Kelly nos bastidores da premiação. E calma que até domingo tem mais!