Eu li: Toda Luz Que Não Podemos Ver do Anthony Doerr

Sempre admirei pessoas que conseguiam escrever narrativas boas, bem feitas e envolventes, com enredos completamente distantes daquilo que viveram. Já dizia alguém muito mais sábio do que eu: é muito mais fácil escrever sobre aquilo que você conhece. Não é menos respeitoso, – até porque escrever bem, eu acredito, é sempre algo a se admirar – mas talvez seja uma zona de conforto inteligente a se manter quando criamos uma história de ficção.

O que não é o caso de Antony Doerr, é claro.

Tudo bem que o cara é formado em História, e possivelmente já havia estudado sobre a Segunda Guerra Mundial muito mais do que eu ou você. No entanto, a infinidade de referências, fatos históricos e sensibilidade que eu encontrei em seu livro, eu arriscaria dizer que não foram aprendidos numa sala de aula.  Ainda que ficcional, o trabalho de pesquisa e a profundidade que o livro tem provam que Anthony Doerr mergulhou com tudo em uma época que ele não viveu (o escritor nasceu na década de 70), em uma história em que ele não era o protagonista (fosse no corpo de uma garota cega de 15 anos ou nos pensamentos de um jovem alemão de 16) e em uma situação, definitivamente, muito distante da vida que leva hoje em dia morando em Idaho nos Estados Unidos.

“Toda Luz Que Não Podemos Ver” é o segundo romance publicado pelo escritor e foi o vencedor do prêmio Pulitzer de ficção 2015. Ele foi tão incessantemente elogiado pela crítica e pelo público que virou um dos meus maiores desejos de leitura do final do ano passado.

Uma coisa que me chamou a atenção logo de cara foi o fato da narrativa do livro ter como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, um dos temas históricos pelos quais mais tenho curiosidade. Mas o que me prendeu de vez mesmo a essa vontade doida de ler o livro, foi o seu enredo, que parecia singelo e “bonitinho” (no melhor sentido da palavra) e que por isso mesmo causava muita estranheza. Afinal, como é que uma história aparentemente tão delicada e sensível podia se desenrolar em um cenário tão cáustico quanto o da guerra?

O livro conta duas histórias paralelas, mas que acontecem em situações e lugares completamente diferentes. Uma delas é a história de Marie-Laurie, uma garota que ficou cega aos seis anos de idade e que aprendeu a se locomover pelo seu bairro graças a maquete construída pelo seu pai, o chaveiro do Museu de História Natural de Paris. Aos 12 anos, depois de ver as ruas da sua cidade serem invadidas pelas tropas alemãs, ela e o pai fogem da capital em busca de um lugar para ficarem, e acabam se refugiando na cidadezinha de Saint Malo, onde mora seu tio, um sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. Junto com eles está um dos maiores tesouros do museu, que é confiado ao pai da menina para que ele não seja roubado pelos nazistas.

Do outro lado, temos a história de Werner, um garotinho órfão que mora junto com sua irmã em um abrigo para crianças em uma região de minas da Alemanha. Desde pequeno o menino se descobre apaixonado por rádios e ondas eletrônicas, e aos 14 anos de idade é selecionado para estudar em um colégio nazista, onde passa a trabalhar para o estado alemão desmantelando as transmissões de rádio inimigas.

Os capítulos ficam se alternando entre a história de um personagem e de outro, e de tempos em tempos a cena de abertura da história – que se passa no futuro, em 1944– volta a ganhar mais um pedacinho da sua continuação.

Os capítulos do livro, aliás, são supercurtinhos, quase sempre com uma página e meia, no máximo duas de duração, e tornam a leitura muito mais interessante. Ainda que ela seja detalhada e demore pra engatar, – não se engane, esse daqui não é um livro fácil de ler – o fato de haverem tantas mudanças de tempo em trechos tão curtos faz com que o livro fique muito mais dinâmico, deixando cada nova página mais envolvente do que a anterior.

E eu preciso dizer, de preferência em letras garrafais pra deixar bem registrado, que a escrita de Anthony Doerr é de um primor absoluto. Ele sabe usar muito bem as palavras e vai construindo as frases aos pouquinhos, até elas ganharem uma imensidão e significados gigantes na sua frente. É aquele tipo de pessoa que sabe juntar todos os grãozinhos de areia pra formar um castelo enorme, bonito, cheio de labirintos dentro de si.

“Werner fica impressionado ao perceber exatamente naquele momento como é extraordinariamente frívolo construir prédios esplêndidos, compor música, cantar canções, imprimir livros colossais repletos de pássaros coloridos diante da indiferença sísmica e controladora do mundo – quanta pretensão têm os seres humanos! Por que alguém vai se dar ao luxo de compor uma música se o silêncio e o vento são tão mais amplos? Por que alguém vai acender as luzes se as trevas vão inevitavelmente apagá-las? Se os prisioneiros russos são acorrentados a cercas, em grupos de três ou quatro, enquanto os soldados alemães enfiam granadas destravadas em seus bolsos e fogem?
Teatros para ópera! Cidades na lua! Ridículo! Todos eles fariam melhor se dessem o ar da graça quando chegassem os rapazes que atravessam a cidade carregando trenós com cadáveres empilhados.”

“É certo – pergunta Jutta – fazer algo apenas porque todas as outras pessoas estão fazendo?”

A quem interessar possa, tá aqui uma pesquisinha no Buscapé com lugares e preços onde o livro está sendo vendido. Leiam e depois me contem o que acharam!

Bisous, bisous

Andei lendo: “Morte Súbita”

Se tem um livro que com certeza me surpreendeu – para o bem! -, nesse ano que já tá chegando ao fim, com certeza esse livro foi Morte Súbita (The Casual Vacancy, em inglês). E há muitos motivos para isso, mas, antes de explicá-los, preciso fazer uma confissão para que vocês entendam um pouco dessa história.

Quando comprei Morte Súbita, diferente de praticamente todos os livros que compro e que me atraem pela sinopse logo de cara, ele era uma incógnita pra mim. Meus amigos não tinham lido e eu mesma não sabia quase nada da história. Porém, uma coisa eu sabia (e ela já era mais do que suficiente pra eu querê-lo na minha estante): esse livro era da J. K. Rowling, a mesma autora que eu passei a minha infância, adolescência e minha atual juventude, lendo.

Harry Potter foi uma marco na minha vida e, consequentemente, J. K. Rowling também.

Daí que era meio que óbvio que o livro que ela lançasse depois da série fosse pra minha wishlist. Porque ela com certeza é uma autora que me cativou, alguém que eu espero sempre acompanhar e saber em que projetos tá envolvida. Isso tudo, independente de Harry Potter. É difícil explicar, mas acho que todo mundo que acompanhou a série por tantos anos também sente isso. Também sente que mesmo só tendo escrito HP, ela mostrava que podia ir muito além daquilo.

Portanto, comprei Morte Súbita no escuro, apenas pelo fato de que esse livro era dela. E, qual não foi minha surpresa quando eu comecei a lê-lo…

Não reparem na colcha amassadinha haha.

Eu sempre achei a J. K Rowling uma ótima escritora, mas como até então o que ela havia lançado se prendia a uma única série voltado para o público infanto-juvenil (apesar que a gente sabe muito bem que nos últimos livros de HP o negócio ali é muito mais sério), vê-la escrever um livro completamente adulto e que mesmo sendo de ficção tem elementos da nossa vida real, é muito diferente.

Acho que antes de qualquer coisa é preciso deixar claro que Morte Súbita é sim um livro totalmente adulto.Ele tem problemáticas pesadas e com uma história em teoria pacata, mas que serve pra gente analisar uma boas verdades da nossa vida. E, acima de tudo, é um livro sobre hipocrisias, sobre retratos de cidades pequenas (e pode acreditar que é mesmo, porque apesar do livro se passar em Pagford, eu poderia citar uma série de coincidências com a minha cidade natal) e sobre realidades que mesmo tão distantes do nosso mundo, tem ali uma ‘lições de moral’ tapa na cara que servem pra gente.

Na história de “Morte Súbita”, o professor de Educação Física, Barry FairBrother, além de ser uma das figuras mais carismáticas e conhecidas da pacata cidadezinha onde vive, ocupa também um dos lugares de maior destaque no conselho municipal. Assim, quando Barry morre de maneira súbita, não apenas uma vaga do conselho fica aberta, como toda cidade de Pagford sofre as consequências – de maneira indireta ou direta – da perda de um seus mais conhecidos e influentes cidadãos.

É interessante como de uma sinopse em teoria tão simples – Barry morre já no capítulo de abertura e o que se sucede são as reações à notícia e as consequências dessa morte – J. K. Rowling constroi uma história tão interessante. Pra quem nunca viveu em uma cidadezinha do interior deve ser um pouco mais difícil imaginar como a vida de uma única pessoa pode causar tanto impacto na de outras, mas mesmo para essas pessoas, não deve demorar muito para se entender como funciona essa teia de relações sociais da pequena cidade de Pagford.

J. K vai mostrando o cotidiano abalado das pessoas e como cada uma reage a notícia, seja bem, mal, esperando tirar proveito da situação, sofrendo com a perda… Como a cidade é pequena, mesmo quem não teve nunca nada a ver com o professor acaba sendo atingido por sua morte. Pra entender como isso funciona, é só pensar naquelas pilhas de dominó, onde assim que a gente derruba a primeira peça, as outras vão caindo também. A ideia aqui é exatamente essa.

O legal também desse livro é que a vontade que a gente tem é de nunca mais parar de ler, e isso só aumenta com o número de páginas haha.  Nele tudo caminha de forma crescente: a sinopse, a sua identificação com os personagens, a sua vontade de mudar o rumo da história e até a imagem que a gente faz de alguns núcleos e que vai mudando de acordo com o desenrolar dos fatos.

Enfim, eu recomendo mesmo esse livro para os fãs ou não da escritora. Acho que quem é fã vai gostar ainda mais do estilo dela de escrever, e quem não conhece ou não gostava muito de Harry Potter (vocês existem?! haha brinks), deveria mesmo dar uma chance.

A minha edição é da Editora Nova Fronteira e achei de uma das melhores gramatura que li ultimamente. As folhas são bem durinhas, o espaçamento é ótimo e apesar de não ser capa dura, tanto frente quanto verso do livro são bem resistentes. Essa edição tem 501 páginas e pode ser encontrado pra comprar no Submarino por R$29.90 (preço consultado no dia 02/12/13, e que eu acho que tá com um belo de um desconto em relação ao valor original. Então corre!).

Vocês já leram esse livro, gente? Contem o que vocês acharam!

Aliás, agora tô mega curiosa pra ler o novo dela, “O Chamado do Cuco”, escrito sob o pseudônimo de Robert Galbraithv. Se alguém já leu esse, conta aqui também se gostou!

Bisous, bisous  e boa semana 😉