Semana de moda de Nova York verão 2015

Sei que tô fazendo esse post bem depois que as semanas de moda já terminaram, mas penso eu que antes tarde do que nunca (risada sem graça). Além disso, acho que eu prefiro fazer esse apanhadão das semanas de moda gringas todas juntas depois, porque não dou conta de ver tudo de uma vez e gosto mesmo de analisar os desfiles aos poucos, com calma e reparando em detalhes.

Por isso, nessa semana e na próxima, vou postar aqui no blog alguns highlights das semanas de moda de Nova York, Londres, Milão e Paris, cada um de uma vez. É um apanhadão bem resumido das coisas que mais gostei e do que de mais legal apareceu em cada desfile. Prontos pra maratona? Então bora lá!

Eu já falei algumas vezes (muitas, na verdade) sobre o quanto eu sou apaixonada pelas criações do Jason Wu. Os desfiles dele sempre trazem peças lindas, mega usáveis, que a gente consegue imaginar em mulheres da vida real, mas que nem por isso deixam de ter aquela pitada de sonho e ousadia que eu acho indispensáveis na moda. Acho tão difícil acertar essa balança, que me admira gente como ele que faz esse tipo de coisa tão bem.

No seu verão 2015, além de repetir essa fórmula mágica de “peça com informação de moda que vai pras ruas”, ele fecha uma cartela de cores bem pequena e trabalha mais em cima das modelagens, brincando com uma gradativa descontração das peças. Os looks mais formais vão ganhando mais fendas e decotes conforme o desfile vai se desenrolando e a gente fica com aquela sensação de que a mulher que veste Jason Wu pode pegar essa coleção e ter uma peça de roupa pra cada tipo de horário ou evento que ela tenha no seu dia.

Os tênis de corrida e o esporte em geral foram conceitos tão fortes por trás da coleção do Alexander Wang que em praticamente todas as peças, das bolsas aos calçados, dos vestidos as saias, a gente conseguia captar alguma referência ou lembrança do assunto.  O mais legal dessa coleção é que em todos os looks, dos mais fechados aos mais abertos, a silhueta é sempre a mesma e os tecidos e telas vão brincando com os recortes e texturas por cima disso. As partes de cima vem sempre estruturadas, quase rígidas (elas me lembram muito os maiôs usados por nadadores) e a parte de baixo vem sempre mais leve, algumas até com plissado. É uma brincadeira de contrapontos que fica bonita de ver.

Lá vem a Opening Ceremony mostrando que gosta dessa pegada mais jovem e leve não só nas roupas que faz, mas que aposta também nessa ideia para as apresentações da sua coleção. Tanto que, para esse verão 2015, além do seu desfile, eles reservaram uma surpresa para os admiradores da marca: uma peça de teatro de 45 minutos (!) de duração, coescrita pelo diretor Spike Jonze e com nomes de peso no elenco como Elle Fanning e Karlie Kloss. A peça, que se chamava “100% Lost Cotton” tinha o mundo da moda como pano de fundo da sua história e apesar de terem sido proibidas fotos ou gravações dela, tô na esperança que a marca libere isso mais tarde na internet. Fiquei bem curiosa pra assistir!

Uma das coisas que mais gostei na coleção da OC dessa temporada foram os tons usados (branco, rosa bebê, laranja e cinza) e esse recorte, que às vezes aparecia também em formato de estampa, imitando uma sequência de traços. Isso me remeteu muito a costura, a ideia da linha na agulha, ao movimento da máquina sobre o tecido. Pode ser viagem minha, mas achei uma coisa meio metafórica pro ato da construção mesmo da peça.

Outra coisa que deu o que falar nesse desfile foi o tal do bracelete inteligente que muitas das modelos estavam usando. O Intel MICA (My Intelligent Communication Accessory) foi desenvolvido em uma parceria da Intel com a Opening, e é um smartwatche que une um design suuuuper luxuoso com uma tecnologia de notificações de SMS, lembretes de aniversário e por aí vai.

Achei bem bonito que o Michael Herz assumiu a direção criativa da Diane Von Furstenberg e mostrou que sabe valorizar o que há de melhor e mais tradicional na marca e também trazer uma pitada de autenticidade e contribuição que só ele poderia dar. Como? Apostando em uma nova forma de apresentar o vestido-envelope (o maior clássico da grife) ao público. Ele veio total desconstruído (até em top croppeds!) e aparecia aqui e acolá sempre de um jeito “disfarçado”, mostrando as raízes da DVF, mas em uma nova proposta.

E por falar em nova proposta, quer tema mais lindo do que esse que foi mostrado?! A Riviera Francesa dos anos 50 é um dos cenários mais inspiracionais pra quem curte um visual lady like, e colocar Brigittee Bardot como referência master dessa coleção é apostar em muita fluidez, sensualidade, estampas mil e prints de vichy na passarela. Tudo que eu amo <3.

Que gostoso que é ver uma marca levando uma mensagem para o seu público de um jeito tão descomplicado e bonito como foi esse daqui! É como se eles dissessem para os jovens que as roupas também contam uma história, também podem te inspirar a seguir em frente, também podem te motivar a ser quem você quer ser, vestir o que você quiser vestir. São muitas referências aos anos 90 e ao universo clubber, que se sente principalmente no uso de materiais, que vai do vinil até o plástico, e a gente vê um universo tão grande de estilos cruzar a passarela, que a mensagem de “liberte-se”, de vá encontrar o seu estilo, instantaneamente faz a gente soltar um sorriso de canto de boca.

Sigo aqui amando marcas que nunca se esquecem de conversar com seu público. Parabéns mesmo para as designers Katie Hillier e Luella Bartley.

Aff, como eu amo a Rodarte! Só mesmo as irmãs Mulleavy pra pensar em um tema tão singelo, tão inspiracional quanto esse daqui. A ideia central é sim o universo das águas, um tema já bem batido e explorado em diversos desfiles, mas a coleção aqui trata isso de um jeito diferente, focando mais nas lembranças que as duas irmãs têm da infância que elas tiveram na praia.  É algo muito mais pessoal, que ganha toques de nostalgia. Me dá a sensação de que essa coleção é um álbum de fotografias com bons momentos, com boas referências, com pequenas imagens que elas guardaram dessa época. Daí isso vem tudo misturado nos tecidos, com seus tules, rendas e pedrarias, nas partes de baixo que lembram redes de pescar, nos vestidos que parecem ter escamas de peixe, nos tons de azul que ora me lembram do mar, ora me lembram daquelas pequenas conchinhas que surgem na areia.

São muito materiais e muita informação que não se perde e que também não foge completamente do comercial. É as irmãs Mulleavy fazendo o que de mais lindo e puro elas sabem fazer.

Quando a gente vê essa coleção do Oscar de La Renta a gente fica na dúvida se é mesmo um desfile que a gente tá assistindo ou se fomos teletransportados para uma festa de alta-costura. É lindo e sofisticado ao cubo essa crescente que as peças da coleção vão ganhando, não só em termos de estampas e de modelagem, mas em bordados, aplicações, transparências e estruturas. Tudo que vai dando toques de exuberância e de uma festa de gala.

As cores vem suaves desde o começo da apresentação, mas quando as últimas modelos cruzam a passarela, tons de verde, laranja e amarelo bem iluminados também aparecem, mostrando que toda festa que se preze precisa de um bom colorido, daquele vestido incrível que todo mundo vai ficar comentando no dia seguinte.

Só sei que eu queria três de cada modelo dessa coleção.

Imagens: FFW

Dragão Fashion Brasil

“Sou um operário da moda brasileira.
Sou, acima de tudo, um entusiasta, um sonhador e alguém que
consegue manter-se com fé na nossa legitimidade.
E foi para manter a moda na pauta que, há 15 anos,
lançamos o primeiro Dragão Fashion Brasil,
hoje principal evento de moda autoral do País.”

(Cláudio Silveira, diretor do Dragão Fashion Brasil, em carta aberta ao Segmento de Têxteis e Confecções do Ceará, à Sociedade Civil e à Imprensa em Geral)
Para ler a carta na íntegra, é só clicar.

Desfile de Mark Greiner no DFB 2014 - Foto do instagram da @isabellylima

Desfile de Mark Greiner no DFB 2014 – instagram @isabellylima

Eu amo moda comercial, dessa bem palpável que vai pras ruas e conquista o mundo. Dessa que faz a gente sair de um desfile já imaginando aquela peça de roupa no nosso guarda-roupa, já querendo usar pra ontem tudo que cruzou a passarela. Porém, nada faz meu coração bater mais forte do que a moda conceitual, que choca, que emociona, que me tira do eixo. Da mais sofisticada alta-costura até o desfile mais cerebral, moda-conceito pra mim é sonho, é loucura, é moda no seu sentido mais artístico e mais instigante.

Esse é, com certeza, um dos motivos pelos quais sempre quis conhecer o Dragão Fashion Brasil, evento de moda brasileiro que acontece em Fortaleza, Ceará, desde 1999.  Ele é um dos mais antigos do país, e tem na sua história nomes importantíssimos do cenário brasileiro de moda.

A sua edição 2014 terminou ontem, 27 de abril, depois de uma semana inteira repleta de desfiles das mais variadas vertentes e propostas. E, já que eu não pude estar lá presente (me aguarde, 2015!), fui acompanhando algumas coisas por aqui via a querida Isabelly Lima do Refletindo Moda, a revista Elle Brasil e o facebook e instagram oficias do evento.

O DFB não é uma semana de moda com desfiles apenas conceituais. Nada disso. Tem muita moda comercial, muita gente boa lançando coisas prontíssimas para o mercado. Porém, sinto que dentre as semanas de moda que temos atualmente aqui no Brasil, o Dragão ainda é a que mais dá espaço para experimentações, para ideias mais artísticas ganharem força na passarela.

Pra começar que além da proposta de ser uma semana de moda com desfiles femininos e masculinos, ele também tem uma proposta de debate e de ensino: palestras, workshops, mesas redondas e projetos de incentivo a novos talentos fazem parte de suas atividades. Através do chamado “Dragão Pensando Moda”, abre-se uma porta de discussão e ensino entre quem faz o evento, quem participa e quem assiste. E tem ainda o “Concurso dos Novos”, que abre uma ponte de comunicação com as faculdades e cursos técnicos de moda e estilismo de todo o país.

Assim, das pequenas as grandes coisas, é notório que por mais que exista sim um viés muito comercial dentro da sua programação – essa edição contou com desfiles da Riachuelo e Água de Coco, por exemplo – o Dragão é ainda um espaço de muita liberdade criativa. E é bonito ver como seus criadores batem no peito sobre essa lado autoral tão forte que o evento ainda consegue preservar, mesmo 15 anos depois de sua primeira edição.

Vale lembrar que o DFB é a maior semana de moda do Nordeste (!) e desde seu início sempre deixou evidente a intenção de homenagear a moda artesanal e local, mostrando a força das raízes nordestinas. No entanto, tem espaço pra todo mundo se apresentar ali.  Nos desfiles do “Concurso dos Novos” desse ano, faculdades e cursos técnicos de São Paulo, Paraná e Minas Gerais marcaram presença. De marcas já consagradas, teve Mario Queiroz, Lino Villaventura, Mark Greiner, Dona Florinda, Ivan Aguilar e Vitorino Campos, pra citar algumas. E ainda teve participações especiais, como a do italiano Nico Didonna, que se apresenta na London Fashion Week.

Para quem quer dar uma olhadinha em tudo que aconteceu nesta edição, o site da Heloísa Tolipan fez uma cobertura dia a dia do evento.

Pedacinho do desfile da estilista Lizzi - instagram @dfhouse

Pedacinho do desfile da estilista Lizzi – instagram @dfhouse

Click do backstage de Alix Pinho que se apresentou no último dia de DFB - instagram @ellebrasil

Click do backstage de Alix Pinho que se apresentou no último dia de DFB – instagram @ellebrasil

E antes do final, um pequeno adendo…

Na última edição do SPFW, achei que só eu tava sentindo o clima de desânimo que rondava os corredores. Mas depois acabei tendo um almoço maravilhoso e super interessante com um pessoal da área e a sensação de todo mundo tinha sido igual: tá rolando uma crise geral. A gente sabe que não é só na moda, é claro, mas acho que na área, é ainda mais evidente que o momento não é dos melhores. E além de motivos escancarados como a invasão de marcas e lojas gringas no país e a falta de um plano para o desenvolvimento da indústria de moda brasileira, há motivos muito mais escondidos pra o que tá rolando.

Daí que eu penso que eventos como o Dragão Fashion Brasil são de uma importância extrema sempre, mas principalmente em períodos assim, quando chegamos em um ponto onde mais do que olhar pra longe e para onde a moda brasileira pode chegar, temos que olhar pra dentro e ver como ela está se sustentando. Não há casa que aguente sem um bom alicerce. E não adianta nada a gente querer vender uma moda internacional e fazer bonito lá fora, se aqui dentro o negócio tá pegando fogo. É preciso sim de incentivo a novos talentos, é preciso sim buscar um meio dentro do nosso próprio país de sustentar nosso mercado (acreditem, já faz um bom tempo que tem muita marca aí que não pode sustentar o que tá colocando anualmente nas ruas).

O DFB não é a resposta que procuramos, nem um exemplo ideal de semana de moda. Afinal, aqui no Brasil, das quatro grandes que temos (SPFW, Fashion Rio, Dragão e Minas Trend) cada uma possui um foco específico. Mas é excelente que em meio a tanta vontade de internacionalização, a gente tenha pelo menos um evento com um olhar mais interno.

A questão não é ir contra o crescimento, ir contra a internacionalização ou contra a moda globalizada. É ótimo que a moda brasileira caminhe nesse sentido. A questão é fazer tudo isso tijolo por tijolo, pedacinho por pedacinho. Afinal, pra entender a moda brasileira é preciso, primeiro, entender o Brasil.