SPFW TRANS N42: algumas impressões e links sobre a última edição

Essa edição do SPFW foi muito diferente de todas as outras.

Foto do FFW mostrando a entrada do evento feita Kleber Matheus e que ficava toda iluminada em neon à noite

A entrada do evento foi feita pelo artista Kleber Matheus e ficava toda iluminada em neon à noite. Foto: Agência Fotosite para o FFW.

Pra início de conversa, a sigla TRANS, de transição, foi acrescentada ao nome do evento, em uma referência as mudanças que estão acontecendo na semana de moda de São Paulo e que passam a valer já na próxima edição.

Uma dessas mudanças é a assimilação do sistema “see now, buy now”, que em resumo (um dos links daqui de baixo se aprofunda mais nesse tópico) consiste na venda imediata (ou quase isso) das coleções apresentadas na edição, de forma que não haja um espaço de tempo tão grande entre o desfile e a chegada das roupas às lojas. Isso implica também na mudança do calendário verão/inverno, já que agora as marcas que adotarem esse modelo passarão a desfilar com peças da estação em vigor.

Além disso, a partir do ano que vem, o SPFW passa a acontecer nos meses de março e agosto, em uma forma de ajustar esse novo sistema com as engrenagens do mercado têxtil.

O corredor da entrada do evento dava direito para uma arvorezinha <3 Foto: Agência Fotosite para o FFW.

O corredor da entrada do evento dava direito para uma arvorezinha muito fofa e, em seguida, para a área de livre circulação. Foto: Agência Fotosite para o FFW.

Mas as diferenças não pararam por aí. Nessa edição, o SPFW deu um rápido adeus a Bienal e foi acontecer ali do ladinho, em uma tenda montada no meio do Parque Ibirapuera, ao lado do Museu Afro Brasileiro. O espaço ficou totalmente diferente, inclusive com uma parte aberta para o parque, cheia de espreguiçadeiras bem gostosas que serviam como uma pausa muito bem-vinda em meio a correria da semana de moda.

Por causa do espaço reduzido havia apenas uma sala de desfile no local e o line-up (que já foi mais enxuto do que o normal porque algumas marcas precisaram pular a edição para conseguirem ajustar sua produção), acabou tendo que se dividir em muitas apresentações externas. O que, ainda que complique a vida da imprensa e deixe o calendário cheio de horários malucos, acabou se mostrando interessante e até quase que imprescindível para os desfiles de algumas marcas.

Foto do FFW mostrando as cadeira estilo espreguiçadeiras que ficavam na área externa

As cadeiras estilo espreguiçadeiras que ficavam na área externa da edição e que quase fizeram eu tirar um cochilo no final da tarde de sexta-feira. Foto: Agência Fotosite para o FFW.

Como de praxe dei um pulinho no último dia do evento, sexta-feira, pra conferir in loco alguns desfiles e toda a estrutura dessa fase de transição. A visita, aliás, foi bem menos corrida do que nas últimas vezes, já que havia um espaçamento bem grande entre os desfiles que eu assisti e, assim, pude fazer uma coisa que quase nunca consigo: visitar os stands e participar das ações de cada um. Tirei foto polaroid no stand da Instax 70, brinquei de boomerang com os canudos personalizados da Coca, tomei um Magnum de creme brulé maravilhoso que tavam dando no carrinho da marca e fiz mais um monte de outras atividades que em anos de SPFW nunca tinha conseguido fazer.

E, claro, assisti a algumas apresentações. Duas, para ser mais exata.

Vi dois desfiles nesse dia, e ainda que os dois tenham sido completamente diferentes e com propostas quase que extremas, foi ótimo assistir duas apresentações que tiveram destaques bem positivos pra essa edição.

Highlights do desfile da MEMO. FOTO: Ze Takahashi da Agência Fotosite para o FFW.

Highlights do desfile da MEMO. Foto: Ze Takahashi da Agência Fotosite para o FFW.

O primeiro desfile que assisti foi o da Memo, marca fitness da Patricia Birman, herdeira do Grupo Arezzo, que fez sua estreia no SPFW. Eles já haviam feito uma parceria com a estilista Lollita antes e resolveram repetir a dobradinha para essa coleção (pelo que foi divulgado pela marca, a cada nova edição da semana de moda um estilista diferente será convidado a preencher esse cargo).

Ainda que eu tenha ido com zero de expectativas assistir ao desfile, achei tudo bem fresco, e uma combinação que de cara asim não me parecia muito animadora, acabou rendendo um bom resultado na passarela e fazendo muito sentido pra esse momento em que vivemos, onde o sportwear já mostrou que tem espaço além das academias faz tempo.

Em seguida foi a vez de ver o maravilhoso João Pimenta. E ainda que ele sempre faça um trabalho muito bonito (tenho amigos – e amigas também! – que brincam que se fossem rico teriam apenas João Pimenta no armário), ele conseguiu se superar nessa edição e criar uma coleção masculina extremamente bonita, que é bastante conceitual em muitos aspectos, mas, que ao mesmo tempo, consegue mostrar força de mercado e um ar fresco para o que se vê da moda masculina atual.

Highlights do desfile do João Pimenta. FOTO: Ze Takahashi / FOTOSITE para o FFW

Highlights do desfile do João Pimenta. Foto: Ze Takahashi da Agência Fotosite para o FFW

Como teve muita gente da imprensa fazendo um trabalho bem incrível nessa edição, com pautas que permeavam muito além de tendências e críticas de desfiles (que eu gosto muito também, diga-se de passagem!) achei que valia a pena compartilhar alguns links por aqui.

Leiam, vejam e compartilhem – porque eles merecem.

Transgressão foi a palavra que definiu este SPFW

Agência Fotosite

Foto Agência Fotosite

A maravilhosa da Vivian Witheman fez um balanço desse SPFW pro site da Elle Brasil, e nele ela fala sobre alguns momentos muito especiais dessa edição que foram de extrema importância pra história do evento e da própria moda brasileira. Entre eles está o desfile de Ronaldo Fraga e da LAB, marca comandada pelo Emicida e pelo Fióti.

Diferente de apenas pincelar o que aconteceu nas apresentações, Vivian faz (como sempre) uma análise profunda da situação e do que ela representa dentro da “alta roda da moda brasileira”, mostrando como o trans do nome do evento já parecia ser um prenúncio de todas as transgressões que estavam por vir.

Veja-agora-comprZzzzzz

Lá no Petiscos, a Mariana Inbar explicou mais detalhadamente no que consiste esse sistema do “see now, buy now” e como ele repercutiu nas marcas internacionais que já adotaram esse mecanismos nas suas últimas coleções.

O texto todo é bem interessante não apenas pra se entender melhor essa mudanças, mas pra se avaliar até que ponto ela é de fato positiva (ou não) para a moda.

Ronaldo Fraga fala ao FFW sobre a moda como ato político

O final do desfile de Ronaldo Fraga. FOTO: Gabriel Cappelletti | Agência Fotosite

O final do desfile de Ronaldo Fraga. Foto: Gabriel Cappelletti da Agência Fotosite para o FFW

A jornalista Juliana Lopes do FFW escreveu um texto desmembrando o desfile de Ronaldo Fraga em muitas nuances, desde a importância da mensagem passada pela coleção, até o casting de modelos escolhido e a história por trás das roupas mostradas.

Pincelado com algumas falas do próprio Ronaldo logo após o desfile, é ainda mais emocionante olharmos assim, com lupa de aumento, cada detalhe dessa apresentação, percebendo a importância dela não apenas pra moda, mas para a problematização de uma questão tão brutal que enfrentamos no Brasil.

Quem merece nosso shot?

Já na página do facebook do Altas da Moda, um canal de moda bem maneiro feito pelo trio de jornalistas Luigi Torres, Giuliana Mesquita e Guga, rolaram lives de todos os dias do evento e um vídeo de encerramento da temporada com os destaques da edição.

Vai ter gorda no SPFW, sim!

Ainda que feito de forma bastante humorada, o vídeo gravado por Juliana Romano e Lucas Castilho para o seu canal, o “A Gorda e o Gay”, lança um questionamento bem interessante “A moda ama os gays e odeia as gordas?”.

A pergunta que não quer calar é o ponto de partida para os dois buscarem indícios de uma representatividade de mulheres gordas no evento e – o que é uma pequena, mas importante mudança nesse cenário – encontrarem ao menos uma modelo dentro dessas características.

Vamos falar sobre os preços?

Ainda que não seja nenhuma cobertura do evento, quis encerrar esse post com um texto postado hoje no site do Laboratório Fantasma falando sobre o preço da coleção LAB Yasuke. Mais do que uma marca que traz um preço acessível pra diversas camadas da população brasileira, é muito, muito importante e legal ver a preocupação da LAB de explicar o motivo dos preços, a cadeia de produção e a história por trás das roupas e de tudo isso.

É um exemplo pra inúmeras outras marcas do nosso país, vocês também não acham?

Bisous, bisous e bom final de semana!

Um giro no último dia do SPFW N41

Na última sexta-feira, dia 29 de abril, fiquei bastante feliz por São Paulo ter amanhecido gelada. Eu tinha ido pra lá na quinta para cobrir um evento pela editora, e acabei estendendo a viagem e aproveitando para ficar na cidade durante a sexta e o final de semana também.

Um dos motivos pra isso é que no dia 29 ia rolar o último dia de SPFW, e vocês bem sabem que sempre que possível, eu gosto de acompanhar de perto essa semana de moda.

Os corredores

Exposição “How Do I Feel Today”, da modelo e artista plástica Nathalie Edenburg, que criou diferentes tipos de intervenções artísticas em uma mesma foto sua

Quem costuma ir a semana de moda de Sâo Paulo sabe que é de praxe ver a produção e a imprensa correndo como uns loucos no entra e sai de cada desfile, mas outra coisa comum a todas as edições são as ações super diferentes e legais que rolam pelos corredores.

Nessa temporada, por exemplo, além de um espaço da TNT onde você podia customizar uma camiseta da Cotton Projec, havia ainda uma máquina da Coca-Cola pra você personalizar sua bebida escrevendo seu nome na garrafinha, e um carrinho da Magnum que além do tradicional sorvete mara deles, ainda oferecia uma versão do picolé derretido como um cappuccino (!!).

Ainda nessa parte de ações, tinham os já ‘tradicionais’ food trucks e um espaço lindo da Natura onde rolaram palestras e pocket shows durante toda a semana de moda, com gente como Jout Jout, Liniker e Elza Soares. (Pausa nesse momento pra chorar um pouquinho ao lembrar que teve show do Liniker em Bauru e eu não fui.)

E é claro, tiveram as exposições também, que em toda temporada estão espalhadas pelos corredores, mas que infelizmente nem sempre são muito lembradas pelas pessoas que passam pelo evento.

Nessa edição, além da exposição da modelo Nathalie Edenburg (mostrada na primeira foto desse post), havia também uma área dedicada a joias dos finalistas e vencedores do AuDITIONS Brasil, o maior concurso de joias de ouro do país. E, junto a tudo isso – e pra mim, a mais emblemática exposição dessa edição – havia também uma sessão de fotos chamada “Apolônias do Bem” que mostrava mulheres que foram vítimas de violência doméstica e que receberam tratamento odontológico gratuito da ONG  Turma do Bem.

As fotos mostravam algo como um “antes e depois” da mudança, e era chocante a diferença de expressão que cada uma dessas mulheres carregava. Se as fotos do antes mostravam seriedade, tristeza e quase um tom sombrio, as que vinham depois eram recheadas de risos, brincadeiras e caretas. Uma mudança assustadora, mas muito representativa também da transformação que a vida dessas mulheres teve.

O FFWSHOP como sempre cheio de itens de arte que me fazem suspirar

E como não podia deixar de ser, a lojinha do FFW, a FFWSHOP, também estava lá nessa edição, ainda mais repleta de coisas lindas do que de costume. Eram livros, objetos de decoração, plantinhas, camisetas e uma infinidade de objetos de arte encantadores.

Dessa vez, eu fiquei tentada mais do que o normal em trazer um item pra casa, já que entre os livros do estande havia um com todas as ilustrações originais do filme Inside Out da Pixar. Mas, como sempre, fiquei barrada no preço (que não era dos mais convidativos) e acabei deixando quieto. Uma pena, na real.

Os desfiles

Assisti a todos os desfiles que rolaram na sexta-feira, com exceção do da Ellus (momento que eu aproveitei pra pegar um táxi em paz, sem correria e disputa, e ir pra casa descansar hehe) e achei que esse último dia teve um balanço mais do que excelente de apresentações.

Lino Villaventura

Lino, que costuma ser sempre performático em seus desfiles, se superou dessa vez. O que aconteceu foi que as modelos entravam, paravam em um local montado com holofotes e posavam em sofás ou carrinhos (que eram trocados de tempos em tempos) para o fotógrafo Miro. No ato as fotos apareciam no telão, e só depois de muitas poses – lindas e dramáticas – as modelos levantavam, cruzavam a passarela e saíam de cena.

Pra mim a ideia de transformar seu desfile em uma sessão de fotos feita assim, na frente de todos os telespectadores e sem cortes, foi genial. Em roupas dramáticas, com muito volume e bordados, tudo era puro conceito, puro drama, pura arte. A beleza ajudava ainda mais nesse resultado, com cabelos super elaborados e presos em hastes no alto da cabeça. Tudo bem drama queen mesmo, apostando em um resultado que vai ser visto só daqui algum tempo, em uma exposição que será feita com as fotos do desfile.

Mas, se existe uma ressalva que pode ser feita quando a essa apresentação, é a de que ainda que Lino quisesse fazer suspense sobre o resultado do ensaio, ficou uma situação meio esquisita para os fotógrafos que estavam no PIT registrar tudo aquilo, já que as modelos posavam de lado, e não de frente para eles. E, se por outro lado, a ideia era dirigir todo o foco para o público que assistia a apresentação, nem a gente conseguiu enxergar bem o que se passou, já que os enormes spots de luz tapavam boa parte da visão.

Nesse ponto, a estrutura da sessão de fotos poderia ter sido diferente (a apresentação, aliás, ia ser externa, mas dias antes do evento começar, voltou para o line-up da Bienal), o que teria deixado o espetáculo ainda mais bonito.

Wagner Kallieno

Já no desfile do Wagner Kallieno, os anos 80 apareceram em peso e o que vimos na passarela foi uma profusão de blazers (daqueles que pareciam ter enchimento nos ombros e o deixavam ainda maior) e peças sortidas, como calças, saias e vestidos que adotaram com força o lamê pra si. O desfile inteiro, aliás, foi uma brincadeira de juntar o armário feminino com o armário masculino, numa tentativa (bem sutil) de pincelar o tão controverso e discutido estilo unissex.

Li depois no Chic que essa coleção tomou como inspiração a personagem Alex do filme Flashdance, o que justifica bastante a escolha dos tecidos e especialmente os primeiros looks que cruzaram a passarela. Além disso, outra coisa bastante marcante na apresentação foram as peças oversized, que parecem mesmo ser a grande aposta de várias marcas pra essa temporada.

GIG Couture

Minha primeira impressão do desfile da GIG Couture foi a de que estava rolando uma invasão de babados e plissados na passarela. Foi só depois, olhando com mais atenção, que percebi como esse volume que as duas formas faziam nas roupas é que eram os responsáveis por misturar as cores da coleção. Eram nos plissados que as cores se intercalavam ou criavam diferentes efeitos, e nos babados que elas se misturavam ou criavam blocos de cores.

Esse jogo de cores, formas e luz resultou em um trabalho bastante autoral e bonito. Desses que deixa a gente curiosos pra acompanhar os próximos passos da marca.

Ratier

O desfile da Ratier era o que eu mais tava ansiosa pra assistir, já que vi a estreia deles na temporada passada e amei loucamente a proposta da marca. Ainda assim conseguiu me surpreender com a qualidade (e quantidade!) de peças que eles apresentaram, e só confirmei a minha teoria de que a Ratier ainda vai voar muito longe.

Vale dizer que essa é uma das poucas grifes que eu piro na proposta e acho lindo a vibe minimalista rock, mesmo sem ser o estilo de roupa que eu uso no meu dia a dia. Sabe marca que independente de gosto pessoal, ganha espaço e respeito no nosso coração? Pois é.

Nessa edição, a proposta deles de ser clean, minimal e com poucos pontos de luz continuou, mas com um up aparente nas peças que ganharam um pouco mais de sofisticação. Lindo de verdade.

Cotton Project

É sempre uma delícia assistir a estreia de uma marca no evento e a Cotton Project fez muito bonito nessa sua primeira apresentação. A marca que é do diretor criativo Rafael Varandas e do estilista Acácio Mendes (vocês lembram que ele participou do reality show “Projeto Fashion” do SBT?!) já havia desfilado na Casa de Criadores temporada passada e, pra essa edição, mudou um pouco de ares e caiu de cabeça na Bienal.

Eu confesso que conhecia pouco do trabalho da dupla, mas achei interessante essa proposta que eles possuem bastante comercial e direcionada a um público específico, bem easy e descolado. A vibe do desfile todo foi bem colorida e cheia de peças fáceis de usar, combinar e brincar no look. Gostoso de ver.

Algumas considerações

Foi apenas um dia de evento, mas já deu pra sentir que havia um clima mais animado nos corredores do que nas últimas temporadas. Ainda que várias marcas como Colcci, Animale e Amapô tenham pulado essa edição, fiquei com a sensação de que o público em geral gostou muito dessa não generalização de estações e achou que fez mais sentido essa “liberdade” que foi dada as marcas.

Já a imprensa, por outro lado, me pareceu meio perdida nessa edição. É como se nesse momento onde tantas mudanças estão acontecendo, muitos veículos e jornalistas não soubessem muito bem onde havia um terreno seguro para se colocar os pés. Senti falta, port exemplo, de coberturas mais detalhadas da semana de moda e percebi que até alguns portais deixaram de fazer vídeos e críticas nessa temporada.

Enfim, o jeito agora é esperar e ver como as próximas edições irão se desdobrar dentro e fora da Bienal.

E mais...

Pra quem, assim como eu, também fica lendo, vendo e digerindo tudo que rolou no SPFW mesmo mais de uma semana depois, fica aqui a indicação de alguns links que achei bem interessantes sobre o assunto.

Esse texto do Costanza Who que mostra quem são, o que de fato fazem e qual a rotina de um fotógrafo de PIT em uma semana de moda.

A matéria do FFW que faz um resumão de vários acontecimentos importantes dessa temporada.

O artigo que Paulo Borges escreveu para o BoF (Business of Fashion) sobre as mudanças dessa e das próxima edições, e onde o criador do SPFW fala um pouco sobre a indústria de moda no país, porque essas mudanças foram tão necessárias e o que se espera com essas alterações no calendário.

– E essa propaganda da Natura que passava antes de todos os desfiles e que me deixou emocionada da cabeça aos pés todas as vezes.

E vocês, o que acharam dessa edição? Gostaram das mudanças?

Bisous, bisous e até mais!

SPFW inverno 2015 | Highlights de cada dia

Como já havia contado nesse post aqui quando falei sobre os corredores do SPFW, resolvi escrever sim sobre os desfiles dessa temporada, mas de um jeito diferente do que sempre faço. Pensei que ao invés de falar de desfile por desfile, seria mais legal se eu fizesse uma espécie de “melhores momentos” de cada dia, em um post mais leve e sem aquela bateria enorme de análises de apresentações.  O resultado é esse daqui de baixo, onde em cada dia escolhi uma coleção, uma beleza e uma trilha sonora preferida pra falar. E, em alguns, ainda rola um plus com algumas informações que não cabiam nessas categorias, mas que mereciam um espaço de destaque entre as melhores.

Comentem a vontade sobre o que vocês acharam desses “highlights” (e se vocês não concordam e destacariam outras coisas nesses dias) e o que mais amaram dessa temporada. Falar sobre desfiles é uma das coisas que mais gosto :)

Primeiro dia

É difícil não amar uma coleção da Animale e é difícil não amar uma coleção do Vitorino Campos, mas é mais difícil ainda não amar uma coleção que junte o estilista e a marca de uma vez só. Com uma estreia linda, dessas de fazer nosso queixo cair, Vitorino trouxe uma pegada mais contemporânea (e eu diria até mais comercial) pra Animale, algo que eu, apesar de amar a marca, achava mesmo que era necessário já fazia algum tempo. A inspiração da coleção foi “a rota da seda” e a camisaria adequada a um styling bem único foi um dos pontos mais bonitos da apresentação. Por falar em camisaria, tá aí um item pra ficar de olho. Usadas de formas, tamanhos e propostas diferentes, a camisa branca foi uma das maiores sensações dessa edição do SPFW.

As maquiagens dessa edição foram bem naturais, não apostaram em quase nada de cor e nem de longe em um bom drama (tirando Ronaldo Fraga de quem eu falo um pouco mais logo abaixo). Ainda assim, minha preferida do primeiro dia foi a da PatBo, que inclusive tem passo a passo, com listinha de todos os produtos usados, lá no site do FFW. O make foi feito pelo Henrique Martins e ainda que a cor seja discreta, em uma leve cintilância por cima do delineado preto, achei que deu uma graça e um “tchan” na produção.

Minha trilha preferida desse primeiro dia também é da Animale, que trouxe o som divertido do projeto musical SBTRKT. A música chama “New Dorp, New York” e foi amor à primeira vista, ou melhor dizendo, ao primeiro som. Aqui tem o clipe pra quem quiser assistir.

Segundo dia

Mais uma vez na FAAP, o inverno 2015 de Reinaldo Lourenço foi uma continuação das homenagens que o estilista tem prestando a algumas cidades nas últimas temporadas. Depois de Paris e Londres, foi a vez agora de Florença, na Itália, e o mote central da apresentação girou em torno do Renascimento e da descoberta de “um novo mundo” com novos valores e conceitos. São vários os materiais trabalhados na coleção, como a seda, o couro e o jérsei, e as cores na maioria dos looks são bem escuras, variando entre o verde, o preto e o cinza.

A beleza da Pat Pat’s tinha tudo pra ser ~só~ mais um olho esfumado, mas o toque de cor trazido na linha d’água do olho variando entre o rosa, o azul e o azul claro, faz uma diferença absurda. Os cabelos não têm muito segredo (como quase todos os cabelos dessa edição, que também seguiram a ideia do minimalismo das maquiagens), e vêm bem chapados e divididos ao meio.

Não que Gisele não ganhe meu coração toda vez que aparece em cima de uma passarela (acho ela de uma presença avassaladora), mas a trilha sonora da Colcci acertou em cheio com “Love Runs Out” do OneRepublic. O clima da coleção e a música, que tem uma batida divertidíssima, casaram mega bem e deixaram a apresentação ainda mais bonita de se ver.

Terceiro dia

Lilly Sarti me conquistou no primeiro look (esse que abre a imagem daqui de cima), mas aí, a cada nova peça desfilada, a paixão foi crescendo. A inspiração mor da coleção veio dos anos 60 (que eu amo!) e dos 70 (a década mais usada como referência nas coleções desfiladas lá fora) e eu fiquei com a impressão que a década sessentinha apareceu mais nos shapes das peças (ai, esses vestidos) e para os anos de “paz e amor” coube as estampas psicodélicas e alguns acessórios (como não amar os chapéus desse desfile?). Dessa mistura surge essa coleção tão bonita, tão chique, tão feminina, que eu queria ter inteirinha na minha arara.

Já deu pra perceber que as belezas dessa edição que não optaram por um make sem nada, só com uma pele perfeita, deram uma pequena inovada usando lápis e delineadores coloridos, né? São detalhes que fazem sim muita diferença, e nesse caso aqui, a beleza do desfile do Vitorino Campos ainda contou com os cabelos molhados e revoltos, quase como se a modelo tivesse acabado de sair do mar. Quem cuidou dessa parte foi a Krisna Carvalho e a maquiagem ficou por conta da maquiadora sênior da MAC, Fabiana Gomes.

Por que escolher “Beat it” do Michael Jackson como melhor trilha sonora do terceiro dia? Porque é “Beat it”, uai! Haha. Adoro essa música e acho que pra desfile ela é ótima e imprime um ritmo gostoso pra apresentação. Ellus arrasou na escolha!

Plus: nessa edição, a Triton se inspirou na saga Star Wars pra sua coleção (shame on me, mas acreditam que eu ainda não assisti todos os filmes?) e antes da apresentação começar, rolou uma invasão do Darth Vader na passarela. Nos vídeos dá pra ver a confusão que foi entre os fotógrafos pra acompanhar os movimentos do personagem. Tá pensando que é fácil cobrir semana de moda? Haha

Vale ainda lembrar que foi nesse dia que o Ronaldo Fraga se apresentou, e que o estilista apostou em uma beleza que, sem sombra de dúvidas, foi a mais comentada dessa edição. Problema é que não pelos motivos mais legais que a gente sempre espera… Depois de pintar suas modelos de vermelho da cabeça aos pés (e Ronaldo foi um desfile que aconteceu lá pelo meio do dia), não havia mágica que conseguisse tirar toda a maquiagem que havia sido colocada. Resultado? Um atraso enorme no line-up, muita confusão e muita modelo chorando porque não pode ir para o próximo desfile.

Quarto dia

Intitulada como “floresta medieval”, a inspiração da Têca para esse inverno 2015 veio traduzida em muito, mas muito mesmo brilho. Pedras, bordados, lantejoulas e muitos maxipaetês invadiram a passarela do começo ao fim, trazendo ares de riqueza e de luxo ostensivo. Apesar de carregada (na lojas, com certeza as peças terão menos informação), eu já tava sentindo falta mesmo de uma apresentação com um pouco mais de drama pra essa edição.

Apesar de ter gostado muito da beleza das Glória Coelho (que era um pouco da própria Glória Coelho nas modelos), a beleza da Patrícia Viera me conquistou mais. A apresentação foi na Faculdade Belas Artes e trocou a passarela por uma aula de modelagem, explicando modelo a modelo o que foi pensado para a coleção. No campo das maquiagens, feita aqui por Max Weber, voltamos de novo o foco para os olhos, que se sagraram os grandes destaques dessa edição. Bem esfumados e marcados, tanto em cima quanto embaixo, eles ganham ainda camadas e mais camadas de rímel.  Os cabelos foram meus preferidos dos cinco dias, em um loiro mega platinado e sedoso.

Estreante no SPFW, a marca GIG Couture fez bonito nas roupas e na trilha com um remix da música Gavitron do trio de garotas Au Revoir Simone. Comandada pelo DJ Bitt, a apresentação dava vontade de balançar os pezinhos enquanto a gente assistia às belezuras que a grife trouxe pra passarela.

Plus: o dia com o line-up mais cheio teve também uma das apresentações mais aguardadas dessa temporada: Versace para Riachuelo, com a presença da própria Donatella. Realizada na Bienal do Ibirapuera (saudade do SPFW ser lá), a sala se transformou em um parque de diversões e a passarela em um ringue de carrinhos de bate-bate. Uma outra passarela que contornava o ringue foi o local onde as modelos e os mais de 50 looks da coleção desfilaram.

Quinto dia

Pra mim foi impossível não escolher o desfile da Acquastudio como meu preferido desse dia porque além de ver pessoalmente a apresentação, eu assisti esse de muito pertinho, e consegui ver detalhes incríveis da roupa que nem sempre pelo vídeo funcionam da mesma maneira. Vale dizer que ele foi feito inteirinho em dourado, e o que poderia ter sido entediante ou esquisito, ficou lindíssimo! Com inspiração vinda do barroco mineiro, o trabalho de modelagem e de detalhes (bordados, bordados, bordados por todos os lados) é absurdo de lindo. Além disso, uma das coisas que mais amei nesse desfile foi a combinação dos vestidos e saias enormes com os tênis (também todos cravejados de pedras e brilhantes) que formaram uma combinação tão inusitada e tão bonita.

Fiquei chateada que em nenhum site consegui encontrar informações sobre como foi feita a beleza da Llas, que eu achei super fresh e que mesmo seguindo a tendência de beleza natural que dominou nesses cinco dias, ainda assim conseguiu se destacar em meio à multidão. Os cabelos presos e os fios propositalmente caindo desajeitados são detalhes que eu acho uma graça, e gostei da forma como o blush/bronzer foi usado, sem pesar muito a mão.

Juro que tentei ser imparcial nessa escolha, mas sério, gente, o desfile da Acquastudio me impactou mesmo nessa edição. Essa trilha sonora me emocionou do começo ao fim da apresentação e os violinos criaram um efeito poderoso e lindo na passarela. A música em questão se chama Smooth Criminal e é do 2CELLOS, e aqui nesse vídeo que gravei dá pra ver como as modelos se cruzavam na passarela de um jeito diferente ao som da música. Lindo, lindo!

Fotos: FFW | Ag. Fotosite

Bisous, bisous e boa terça-feira pra todos nós!

Semana de Moda de Milão verão 2015

Para ver os highlights da Semana de Moda de Nova York é só clicar aqui e os da Semana de Moda de Londres, aqui.

Já vi gente lançando a pergunta aí pela internet e reforço aqui o coro: os anos 70 estão mesmo voltando pras ruas? Pelo que a gente viu dessa temporada, deu pra perceber que se depender da moda das passarelas e do que as brands apostam como a nova década pra se repaginar (tchau anos 90), a era disco, o estilo boho e todo o clima de paz e amor – agora bem mais moderninho – vão sim dominar as ruas. A Gucci, por exemplo, traz uma mistura de tudo isso de um jeito bem moderno e chic, apostando em estampas étnicas e chinesas, jeans (muito jeans!) e um toque de militarismo que deixa alguns dos looks um pouco mais formais e utilitários. O vestido chemise ou vestido-camisa, (como vocês preferirem chamar) é minha grande paixão dessa coleção.

Só por esse primeiro look já dá pra gente pegar um pouco desse espírito “Art Déco” que invadiu a passarela da Dsquared2. Os geometrismos e cubismos permeiam toda a coleção e me peguei várias vezes lembrando daqueles vitrais de igrejas todos coloridos e iluminados. O mais legal é que essas ideias de linhas e abstrações não ficam apenas nas estampas e nessas mil cores que se formam na coleção, mas nos próprios designs e shapes que capa peça ganha: tudo vai formando linhas e imagens geométricas, especialmente os top croppeds, as jaquetas trucker e as sandálias gladiadoras.

O verão da Prada (um beijo Miuccia, te acho incrível!) não parece ser assim de temperaturas muito altas. Os looks são todos fechadinhos, pesados, quase austeros e a gente só fica com um pouquinho de pele à mostra nos joelhos, divididos entre as saias, ora lady likes, ora retilíneas, e os pés. Aliás, repararam nas meias ¾? Taí uma peça tão desprezada no nosso dia a dia que eu acho linda.

O mais legal pra mim dessa coleção é que olhando no todo ela não parece ter tanta informação, mas quando você olha cada look separado é como se mil coisas pulassem e acontecessem ao mesmo tempo. Algumas peças lembram costuras de vários retalhos (o tal famoso patchwork) e outras apresentam mil sobreposições que brincam com as silhuetas do look.

É, com certeza, o do it yourself mais incrível de todos os tempos.

Ps: esse é um daqueles desfiles que tem que assistir pra catar um pouco do espírito da coleção – e delirar com o cenário e pirar com a trilha sonora.

Sai o McDonald’s, entra o mundo da Barbie!

Eu fiquei apaixonada por essa coleção do Jeremy Scott! Assim, apaixonada. Amo como esse cara sabe “rir” da moda, sabe brincar com o desejo das pessoas, sabe imprimir tão fortemente a marca dele (tem o nome da Moschino pulando nos cintos, roupas, mochilas, em tudo!) de um jeito muito esperto, que com certeza vai virar hit e vender horrores – não só as roupas, mas principalmente os acessórios.

A Barbie aparece aí, em peso, em todo os detalhes e em todos os looks: tem ela na hora das compras, tem a Barbie fitness, tem a patinadora (quando assisti o vídeo do desfile, achei que a modelo não fosse conseguir frear o patins, tadinha), a fashionista, a “vamos para a praia” e, claro, a Barbie festa de gala.

Uma coisa muito interessante que eu li na Vogue, e que pra mim resume bem essa sacadas geniais que o Jeremy tem, é que algumas multimarcas como Net-a-Porter, Farfetch, Nordstrom e Opening Ceremony compraram a coleção da Moschino sem saber o que seria desfilado em Milão. Ou seja, confiando cegamente na força da marca e no poder de sedução do estilista. Incrível, né?

Enquanto a coleção da Versace pra Riachuelo não desembarca logo nas lojas, o desfile da marca lá em Milão traz um clima bem disco, cheio de brilhos, cores fluos e listras nas mais variadas direções brincando nos looks. E tudo com aquela pitadinha de sexy e provocativo que a Versace tem, ainda que aqui seja em uma escala bem menor do que o normal.

No meio de tudo isso, o mood esportivo somado a essas cores, só me fizeram lembrar de uma coisa: David Bowie. Fui a única?

A mistura de tecidos, estampas e shapes da Giorgio Armani pode até ter suas principais inspirações no mar e na areia, mas pra mim fica impossível não associar esses tecidos fluidos, – e essas combinações de “vestidos + calças” – com as histórias do livro mil e uma noites e daquela ideia romantizada que criamos da odalisca.  O último look desfilado, inclusive, é inteiro feito de tule e brilhos (até na peruca!) e fecha com chave de ouro essa coleção, mostrando uma “imagem divina” de mulher.

É, acho que Emilio Pucci levou a ideia da volta dos anos 70 ainda mais a sério do que a maioria dos estilistas e suas coleções dessa temporada. Tudo aqui respira a alma setentinha, o clima de paz e amor e o espírito hippie. Estampas tie-dye, bordados florais, blusas de crochê, batas, macramé e rendas aparecem aos montes, sempre em cores vibrantes, e os vestidos parecem flutuar pela passarela, criando movimentos lindos. Com certeza, uma das coleções mais literais sobre a década, com um trabalho apuradíssimo de handmade e técnicas artesanais que valorizam ainda mais cada uma das peças.

Os quimonos já se mostram ser o novo grande hit da temporada, e aqui na coleção da Dolce & Gabbana aparecem enormes, combinados a ponchos e franjas mil. O vermelho e o amarelo (que aqui ganha um toque de dourado em pedras e bordados deslumbrantes), cores da Espanha, ditam o tom da coleção, e a imagem do Sagrado Coração aparece em vários dos looks.

Vale muito a pena assistir o vídeo do desfile e ver o final da apresentação, quando 65 modelos, todas usando o mesmo look no estilo clássico de toureiro, adentraram a passarela juntas. Fica aquele gostinho de coleção bela e marcante, extremamente sedutora e com uma riqueza de detalhes não só aparente, mas também nas inspirações e estudos que resultaram na sua apresentação final.

Imagens: FFW

Bisous, bisous

Semana de moda de Londres verão 2015

Para ver os highlights da Semana de Moda de Nova York é só clicar aqui.

O desfile da Orla Kiely de verão 2015, assim como todas as coleções e desfiles que a sua designer se propõe a fazer, traz, além das roupas, uma performance que brinca com a plateia, que faz os admiradores, consumidores e todo mundo que para pra assistir ao seu desfile, embarcar de fato naquele universo.

Nessa apresentação tudo girava em torno da primavera, tanto que ao subirem no palco as modelos levavam flores nas mãos e, simbolicamente, as plantavam, cada uma, em um dos vasinhos do cenário. Além disso, as referências pra essa coleção cheia de charme sessentinha, vestidos trapézios mega confortáveis, listras e prints primaveris ainda tinha mais três grandes focos: os filmes “Le Bonheur” de Agnes Varda e “Daisies” de Vera Chytilova, e o mood 60 de Twiggy. E por falar nela, vale suspirar não só com as roupas em sua homenagem, mas também com a beleza do desfile, que trouxe a marca registrada da modelo: os longos cílios de boneca carregados de delineador na parte de baixo e com efeito propositalmente borrados.

Em resumo: um jardim de fofuras da primeira à última roupa <3

Foram os jardins ingleses Kew e Sissinghurst Castle as grandes referências para os prints de plantas e flores que apareceram no desfile da Mulberry. Eles vão aparecendo aos poucos na coleção, primeiro misturados a shapes mais sérios, com uma pegada militar, e depois junto com os tecidos vazados e o couro. Daí vira festa. São plantas mil que vão surgindo pelos vestidos e que deixam de lado os tradicionais tons de verde para apostar na força do azul.

Ainda nessa leva de referência botânicas, lá vem as plataformas com seus saltos belíssimos de madeira, que casam tão bem com as silhuetas rígidas e sérias da coleção. O casamento entre roupa e sapato é tão bonito que, até aquelas como eu que não são das mais fãs de plataforma, acabam não resistindo a essa combinação.

Eu acho que não existe forma mais inspiradora e mais “educativa” haha, digamos assim, de entender como moda é muito mais sobre ser, sobre se sentir bem, sobre não estar interessada em ser alguém para os outros, mas sim ser alguém para você mesma, do que ver um desfile do Paul Smith.

Aqui saem os brilhos e saem as exuberâncias, mas, em compensação, sobram bons tecidos e cortes impecáveis. Sobram silhuetas incríveis. Sobram peças utilitárias e que botam em dúvida o conceito de que minimalismo e opulência estão em lugares opostos. Pra mim esse desfile aqui traduz tudo aquilo que o designer sabe fazer de melhor: mostrar que a beleza – seja da moda, seja da vida, seja das mulheres que veste – não precisa de muito pra acontecer. É na essência das coisas, em um bom tecido ou em pequenos momentos, que ela se encontra.

Muito tule, muita transparência e muita cor. Apesar de essas serem as primeiras coisas que pulam aos nossos olhos no desfile da Burberry, quando a gente pega pra pesquisar e ler mais sobre as inspirações de Christopher Bailey pra essa temporada, fica claro que tem muito mais coisa por trás desse desfile. Pra começar essa ideia maluca de se inspirar em capas de livros para o design da coleção. Sinceridade? Achei das inspirações mais bonitas que já vi, afinal, tem como mais linda, mais provocadora, mais misteriosa do que uma capa de livro? E pra completar, Bailey ainda aposta em borboletas e abelhas para estamparem os looks – o que explica o nome dado a essa coleção de “The Birds and The Bees”.

Agora, pra mim o ponto alto mesmo da apresentação é a ideia de trazer o grande símbolo da Burberry, o trench-coat, de uma maneira bem peculiar: uma invasão de jaquetas jeans, que ora aparecem fechadas, ora abertas, ora com pelos, ora com franjas, mas que sempre nos fazem lembrar do grande ícone da grife.

E como não podia faltar uma boa dose de tecnologia, a Burberry ainda disponibilizou um serviço pelo Twitter, no in-tweet, que permitia a qualquer um com uma conta na rede social comprar os novos esmaltes mostrados na apresentação assim que a modelo que o usava cruzava a passarela.

Vocês hão de concordar comigo que o conceito de fast-fashion nunca foi tão preciso…

Foi remexendo em gavetas quase esquecidas que Christopher Kane encontrou fotos antigas de sua vida, muito antes do designer ser esse profissional de sucesso de hoje em dia. Nas fotos, lembranças da época em que Kane desenhava para poucos verem, tendo sua irmã Tammy como “modelo” dos vestidos que fazia, e lembranças também de uma de suas grandes inspirações profissionais e pessoais: sua professora Louise Wilson, da Central Saint Martin.

Foi com essas memórias em mente, da época em que Kane não se via preso a vínculos comerciais nem a ditames de mercado, que o estilista soube que tinha em mãos algo muito maior do que simples lembranças: ele tinha em mãos o tema da sua nova coleção. Para colocá-la em prática era preciso então resgatar os sonhos de antigamente, os vestidos que deram origem a tudo (e que saíram finalmente do papel e invadiram a passarela), as pessoas que lhe ajudaram quando tudo ainda era apenas o começo.

Como ponto mais bonito da coleção, destacaria a homenagem que Kane fez a sua professora, e que é igual aquela vontade que a gente tem de mostrar que “chegamos lá” para aquele professor mais marcante da nossa vida, aquele que acreditou na gente desde o primeiro minuto. É, portanto, mais do que uma homenagem. É uma forma de tentar orgulhar aquele que nos inspirou a chegar lá. Coisa que a professora Louise sentiu, onde quer que ela esteja, depois de ver as lindas referências ao universo navy. – nada literais com o uso de cordas – os plissados, as transparências aparecendo em pontos  estratégicos e até mesmo o design nada convencional dos vestidos de Kane.

Sabe uma coleção que parece pegar um tema e gritar ele em cada peça de roupa, em cada detalhe, em cada brilho, em cada transparência? Pra mim essa é a coleção do Tom Ford. Aqui a imagem da mulher meio punk, que usa o preto no verão sem medo e que tem esse estilo que pode parecer decadente e mal calculado, mas que na real é muito bem pensado e extremamente sexy, parece gritar em cada mínimo detalhe.

O estilista consegue juntar todo esse espírito rocker a coisas, em teoria, delicadas, e o resultado é uma mistura de mulheres fotografadas por Helmut Newton com Joan Jett gritando no palco a plenos pulmões. Dá vontade de embarcar nessa volta aos anos 90, de embarcar nesse show de rock disfarçado de desfile e de ter a experiência de viver um pouquinho nesse universo.

Ah, vale destacar ainda a beleza dessa coleção, que trouxe um cabelo maravilhosamente rebelde e que trouxe a maquiagem carregada, exagerada, podrinha, maravilhosa, sexy, ai, a maquiagem que mais amei de Londres.

Bisous, bisous