Dragão Fashion Brasil

“Sou um operário da moda brasileira.
Sou, acima de tudo, um entusiasta, um sonhador e alguém que
consegue manter-se com fé na nossa legitimidade.
E foi para manter a moda na pauta que, há 15 anos,
lançamos o primeiro Dragão Fashion Brasil,
hoje principal evento de moda autoral do País.”

(Cláudio Silveira, diretor do Dragão Fashion Brasil, em carta aberta ao Segmento de Têxteis e Confecções do Ceará, à Sociedade Civil e à Imprensa em Geral)
Para ler a carta na íntegra, é só clicar.

Desfile de Mark Greiner no DFB 2014 - Foto do instagram da @isabellylima

Desfile de Mark Greiner no DFB 2014 – instagram @isabellylima

Eu amo moda comercial, dessa bem palpável que vai pras ruas e conquista o mundo. Dessa que faz a gente sair de um desfile já imaginando aquela peça de roupa no nosso guarda-roupa, já querendo usar pra ontem tudo que cruzou a passarela. Porém, nada faz meu coração bater mais forte do que a moda conceitual, que choca, que emociona, que me tira do eixo. Da mais sofisticada alta-costura até o desfile mais cerebral, moda-conceito pra mim é sonho, é loucura, é moda no seu sentido mais artístico e mais instigante.

Esse é, com certeza, um dos motivos pelos quais sempre quis conhecer o Dragão Fashion Brasil, evento de moda brasileiro que acontece em Fortaleza, Ceará, desde 1999.  Ele é um dos mais antigos do país, e tem na sua história nomes importantíssimos do cenário brasileiro de moda.

A sua edição 2014 terminou ontem, 27 de abril, depois de uma semana inteira repleta de desfiles das mais variadas vertentes e propostas. E, já que eu não pude estar lá presente (me aguarde, 2015!), fui acompanhando algumas coisas por aqui via a querida Isabelly Lima do Refletindo Moda, a revista Elle Brasil e o facebook e instagram oficias do evento.

O DFB não é uma semana de moda com desfiles apenas conceituais. Nada disso. Tem muita moda comercial, muita gente boa lançando coisas prontíssimas para o mercado. Porém, sinto que dentre as semanas de moda que temos atualmente aqui no Brasil, o Dragão ainda é a que mais dá espaço para experimentações, para ideias mais artísticas ganharem força na passarela.

Pra começar que além da proposta de ser uma semana de moda com desfiles femininos e masculinos, ele também tem uma proposta de debate e de ensino: palestras, workshops, mesas redondas e projetos de incentivo a novos talentos fazem parte de suas atividades. Através do chamado “Dragão Pensando Moda”, abre-se uma porta de discussão e ensino entre quem faz o evento, quem participa e quem assiste. E tem ainda o “Concurso dos Novos”, que abre uma ponte de comunicação com as faculdades e cursos técnicos de moda e estilismo de todo o país.

Assim, das pequenas as grandes coisas, é notório que por mais que exista sim um viés muito comercial dentro da sua programação – essa edição contou com desfiles da Riachuelo e Água de Coco, por exemplo – o Dragão é ainda um espaço de muita liberdade criativa. E é bonito ver como seus criadores batem no peito sobre essa lado autoral tão forte que o evento ainda consegue preservar, mesmo 15 anos depois de sua primeira edição.

Vale lembrar que o DFB é a maior semana de moda do Nordeste (!) e desde seu início sempre deixou evidente a intenção de homenagear a moda artesanal e local, mostrando a força das raízes nordestinas. No entanto, tem espaço pra todo mundo se apresentar ali.  Nos desfiles do “Concurso dos Novos” desse ano, faculdades e cursos técnicos de São Paulo, Paraná e Minas Gerais marcaram presença. De marcas já consagradas, teve Mario Queiroz, Lino Villaventura, Mark Greiner, Dona Florinda, Ivan Aguilar e Vitorino Campos, pra citar algumas. E ainda teve participações especiais, como a do italiano Nico Didonna, que se apresenta na London Fashion Week.

Para quem quer dar uma olhadinha em tudo que aconteceu nesta edição, o site da Heloísa Tolipan fez uma cobertura dia a dia do evento.

Pedacinho do desfile da estilista Lizzi - instagram @dfhouse

Pedacinho do desfile da estilista Lizzi – instagram @dfhouse

Click do backstage de Alix Pinho que se apresentou no último dia de DFB - instagram @ellebrasil

Click do backstage de Alix Pinho que se apresentou no último dia de DFB – instagram @ellebrasil

E antes do final, um pequeno adendo…

Na última edição do SPFW, achei que só eu tava sentindo o clima de desânimo que rondava os corredores. Mas depois acabei tendo um almoço maravilhoso e super interessante com um pessoal da área e a sensação de todo mundo tinha sido igual: tá rolando uma crise geral. A gente sabe que não é só na moda, é claro, mas acho que na área, é ainda mais evidente que o momento não é dos melhores. E além de motivos escancarados como a invasão de marcas e lojas gringas no país e a falta de um plano para o desenvolvimento da indústria de moda brasileira, há motivos muito mais escondidos pra o que tá rolando.

Daí que eu penso que eventos como o Dragão Fashion Brasil são de uma importância extrema sempre, mas principalmente em períodos assim, quando chegamos em um ponto onde mais do que olhar pra longe e para onde a moda brasileira pode chegar, temos que olhar pra dentro e ver como ela está se sustentando. Não há casa que aguente sem um bom alicerce. E não adianta nada a gente querer vender uma moda internacional e fazer bonito lá fora, se aqui dentro o negócio tá pegando fogo. É preciso sim de incentivo a novos talentos, é preciso sim buscar um meio dentro do nosso próprio país de sustentar nosso mercado (acreditem, já faz um bom tempo que tem muita marca aí que não pode sustentar o que tá colocando anualmente nas ruas).

O DFB não é a resposta que procuramos, nem um exemplo ideal de semana de moda. Afinal, aqui no Brasil, das quatro grandes que temos (SPFW, Fashion Rio, Dragão e Minas Trend) cada uma possui um foco específico. Mas é excelente que em meio a tanta vontade de internacionalização, a gente tenha pelo menos um evento com um olhar mais interno.

A questão não é ir contra o crescimento, ir contra a internacionalização ou contra a moda globalizada. É ótimo que a moda brasileira caminhe nesse sentido. A questão é fazer tudo isso tijolo por tijolo, pedacinho por pedacinho. Afinal, pra entender a moda brasileira é preciso, primeiro, entender o Brasil.

SPFW verão 2015 | O último dia

Quem me acompanha no instagram (@paulinhav) deve ter visto que na última sexta-feira, dia 04 de abril, fui conferir in loco o último dia de SPFW. Essa foi minha primeira edição no Parque Villa-Lobos, já que a última temporada que eu assisti pessoalmente foi ainda no Ibirapuera. Depois de tanto tempo longe da semana de moda, voltar e ver como as coisas andam foi uma baita experiência, não só porque tava com saudade, mas também porque, inevitavelmente, acabaram rolando muitas comparações entre o que acompanhei nas últimas edições e o que vi agora. Se você quiser saber disso e dos desfiles que rolaram no dia 04, então prepara aí seu copinho d’água e vem comigo nesse post que a história é longa.

O Parque Villa-Lobos fica localizado no bairro do Alto dos Pinheiros e dá pra chegar lá através da dobradinha metrô+trem ou táxi. Se tem algum ônibus que vai até aquela região eu desconheço, mas acho que mesmo que tiver algum que pare lá por perto, pode preparar as suas perninhas que você vai andar bastante. Eu não conheço quase nada de São Paulo, mas tive a impressão que o local é mais “afastado” mesmo do que, por exemplo, o Ibirapuera, onde dava pra chegar facilmente de ônibus.

O Villa-Lobos fica em um espaço enorme e logo que fui chegando perto da entrada do evento, já dei de cara com turmas e mais turmas de skatistas que aproveitam o local pra treinar. Achei bacana ele ser um parque bem abertão assim. Fico imaginando que em um final de semana normal, sem nenhum evento de moda acontecendo, deve ser um lugar gostoso pra passear, fazer piquenique e (por que não?) andar de skate.

Já no evento em si, em termos de espaço é impossível não notar como o Ibirapuera era maior. Começando pelas salas de desfiles que lá eram três e no Villa-Lobos são duas, o que não só implica numa correria louca pra desmontar a cenografia de uma sala a tempo de montar a do desfile seguinte, como também na pressa que os seguranças – que só tavam fazendo seu trabalho – tinham em esvaziar o local. O desfile mal acabava e um segurança já aparecia plantado atrás de você pedindo pras pessoas saírem do lugar. Corrido é apelido.

O line-up da temporada deixava uma diferença de aproximadamente uma hora entre um desfile e outro, mas na real dava a impressão de que era de dez minutos. Pra vocês terem ideia, como eu assisti todos os desfiles desse dia (menos Reinaldo Lourenço que foi de manhã e externo), eu mal consegui ver a exposição que rolou nessa edição, e no FFW Shop nem os pés eu coloquei (o que é muito triste porque eu sempre surto de inspiração com as coisas de lá). Não sei explicar o que aconteceu, – e se nos outros dias também foi assim – mas nem na época que trabalhei na produção do SPFW eu fiquei tão cansada quanto dessa vez. A impressão que se tinha era a de que tudo era uma grande corrida contra o tempo, principalmente, é claro, para o pessoal que tava cobrindo. Precisa nem falar que esse tal de glamour da moda é zero, né? (Pelo menos pra quem trabalha e não vive de comprar.)

Preciso confessar que não sou das maiores fãs da Melissa, mas isso não me impede de admirar o quanto eles conseguiram construir uma marca tão sólida e tão querida por milhares e milhares de meninas. O empreendedorismo ali é forte, e são em desfiles como esse que a gente entende porque a marca chegou onde chegou.

Pode não ser um conceito fácil e nada comercial, – o que soa estranho pra uma marca que é total vendas – mas desde o começo do desfile, quando as luzes se apagam e numa tela gigante surgem imagens que se alternam naquele estilo de máquina de casino, a gente percebe que o que vai acontecer ali é pra soar surreal e total conto-de-fadas mesmo. É pra mexer com a imaginação dessas meninas, pra fazer todo mundo se sentir em um mundo de faz de conta.

Por trás de tudo isso, vem o conceito da apresentação, que faz referência ao prazer de comer. E nessa pegada a Melissa sabe bem do que fala, afinal quem aí não lembra daquele cheiro de chiclete/doce/quero-comer-agora que t-o-d-a Melissa tem? A ideia é transportar isso para as roupas e, principalmente, para a beleza, que pra mim foi o ponto alto da apresentação. Assinada pelo hair stylist  Charlie Le Mindu e pelo maquiador Robert Estevão, cabelo e maquiagem, respectivamente, brincam o tempo inteiro com esse tema. AMEI loucamente os batons das modelos que vinham propositalmente escorridos, como se elas tivesses comido algum doce sem medo de se sujar.

A coleção nova, chamada Eat My Melissa – entre os brindes que vinham na sacola dada no desfile, haviam balinhas em forma de letras que formavam o nome da coleção <3 – traz modelos nada clássicos, apostando muito em rasteirinhas e saltos plataforma. Muitas têm um aspecto mais masculino, bem pesado, e apesar de ser uma das coleções que eu menos gostei da marca, sinto que será um sucesso tão grande quanto quase tudo que ele lançam no mercado…

Ah, vale lembrar que o desfile da Melissa não faz parte do line-up principal do SPFW e é considerado um evento dentro do evento. A stylist da coleção foi a Anna Trevelyan e a cenografia ficou por conta do Pier Balestrieri.

Acho que ao desfile da Ellus cabe perfeitamente a pergunta que Sylvain Justin fez essa semana no twitter “Questionamento da temporada brasileira de moda: um desfile é uma arma de marketing ou a melhor forma de expressar uma coleção, um conceito, um DNA?”

Que a Ellus é uma das marcas mais comerciais do SPFW, todo mundo sabe, até aí não há novidade pra ninguém. Nessa temporada, inclusive, eles trouxeram Cauã Reymond na passarela (e Lea T. também!). O problema é que apesar de um desfile limpo, com uma lavagem bem bonita e super a cara da marca, a roupa aqui foi o que menos contou. As atenções do público ficaram com a bateria da escola de samba da Vai-Vai (que a despeito de qualquer coisa tava linda e com todos os integrantes na mais pura energia e simpatia), nas celebridades que desfilaram e no tal protesto que foi feito no final da apresentação. Com uma camiseta com os dizeres “abaixo este país atrasado”, muita gente ficou sem entender exatamente a que a Ellus se referia.

É super legal quando uma marca usa da sua força e da sua aparição na mídia pra levantar um tema ou fazer uma coleção mais crítica, que coloque o dedo na ferida. O que me soou um pouco triste foi não conseguir ver uma real ligação entre o que a Ellus apresentou na passarela e a camiseta do final do desfile. Reflexão é ótima na medida em que é de fato uma reflexão. E né, quem sou eu pra querer apontar erro de marca, mas na minha humilde opinião, o desfile teria sido muito mais coeso e belo – porque sim, o jeans clarinho e a modelagem foram lindos, lindos mesmo – se o foco tivesse ficado só na roupa. Tava lindo, Ellus, isso já bastava pra gente (:

Foto FFW | ©Agência Fotosite

Foto FFW | ©Agência Fotosite

Como certas coisas nessa vida só acontecem comigo, as fotos que bati desse desfile – o que eu mais gostei dos que assisti – se perderam no celular. Como eu consigo fazer essas proezas nem eu mesmo sei, e fica aí de tópico pra um outro post. Bom, de qualquer forma, o fato é que Wagner Kallieno foi, assim, uma lufadinha de ar fresco nessa temporada. Não é muito maravilhoso quando um estreante do SPFW chega lá e prova que tem gente talentosa à beça nesse Brasil que merece ter espaço na grande mídia?

Uma das coisas que mais me conquistaram nesse desfile foi o fato de que o estilista resolveu fazer sua estreia bem do jeitinho dele, sem querer botar banca ou fingir algo que não é. Ele falou das suas raízes e de sua cidade, Natal, e sobre o fato de lá ser a primeira cidade no brasil onde nasce o sol. Daí toda a ideia da coleção se desdobrava a partir dessa força do sol do Nordeste, falando sobre o que ele representa para a região e as sensações que transmite. Em uma matéria que li no Estadão, vi uma declaração dele sobre essa coleção que dizia uma coisa muito interessante. Segundo ele, mesmo ela sendo feita a partir de um tema regional, as peças tinham um olhar universal, e eu instantaneamente lembrei da entrevista que o FFW fez com a Li Edelkoort, onde ela disse “Meu conselho à cultura do Brasil seria considerar de onde vocês vem. Porque o mundo está se tornando muito global e o próximo passo no mercado mundial é conquistar a América do Sul e a África. Então a indústria e os designers do Brasil deverão expressar o que os motiva intimamente, e não que está acontecendo em outro lugar.” Muito zeitgeist, não?

Nas peças de Wagner, o que mais se viu foi exatamente essa mistura: fios naturais com bordados regionais maravilhosos que ganhavam interferência de outros materiais mais tecnológicos. As peças variavam entre tons de branco e nude e eu saí de lá fascinada.

Os convidados chegam, sentam e as luzes se apagam. Alguns vídeos passam no telão e, logo em seguida, são ditas as normas de segurança da sala. Silêncio. Vai entrar a primeira modelo na passarela. Só que aí, uma coisa muito estranha acontece. Uma música bem conhecida e, nada imaginável de se estar em uma passarela do SPFW, começa a tocar: “Ula, ula de lá, Tchan, quebra, quebra daqui, Tchan, ô Bahia iaiá, é o Tchan no Havaí.” E foi assim, ao som de É o tchan, que a Amapô fez seu desfile. Na primeira fila, mesmo sentada, uma menina fazia passinhos de coreô, e não foram nem uma, nem duas, nem três pessoas que eu vi cantarolando a música. Foram muitas.

As roupas e o tema que serviu de inspiração para essa coleção justificam a escolha da música – que sério, não poderia ter sido melhor (ah, eu bem sei que você já dançou É o tchan pelo menos uma vez na sua vida, vai, admite!), porque foi um universo de referências ao Havaí que adentrou a passarela. Além dos característicos hibiscos havaianos que apareceram em estampas super coloridas, a cintura alta, tanto nos shorts, quanto nas saias e calças, dominou do começo ao fim. Além do contraste de cores muito fortes, essa coleção apostou também nos acessórios, focando em óculos e chapéus bem chamativos.

Os fãs da marca, que adoram as extravagâncias e loucuras tão gostosas que Pitty e Carô sempre fazem, devem ter pirado com essa coleção.

 

Eu sou muito fã do trabalho do Alexandre Herchcovitch e acho que a esperteza dele em fazer coleções nem sempre fáceis de digerir assim de cara, mas que tem peças hiper vestíveis e com uma alfaiataria de bater palmas, vem desde a sua formatura na FASM – ainda que naquela época sua pegada rocker e soturna fosse muito mais aparente. Na coleção masculina dessa temporada, Alexandre trouxe um casting inteiro de homens negros (tinham duas mulheres também) e uma proposta de coleção que vinha inspirada por uma religião chamada Baptist Nazareth Chrunch, que mistura zulu com cristianismo.

O contraste de cores e as saias estilo kilt pontuaram o desfile do começo ao fim e, mesmo acompanhando moda masculina muito menos do que a feminina, arriscaria dizer que essa coleção tem ingredientes poderosos pra fazer sucesso nas lojas do estilista. Ainda que na passarela elas ganhem um trabalho de styling mais conceitual, tudo tem potencial de ir para as ruas.

O encerramento dessa edição ficou por conta de Samuel Cirnansck que dessa vez fez uma coleção bem leve e etérea (nada de modelos amarradas ou amordaçadas!), com peças mega fluidas. Os vestidos de tons pastel esvoaçavam pela passarela e eram cobertos por bordados, rendas e pedrarias.  Essa era uma coleção que eu queria muito ter visto mais de pertinho pra poder analisar algumas coisas, – como alguns problemas de acabamento que, de longe, pareciam existir. Como estética geral, ela é bem contos-de-fada, com uma aura todo angelical. Saí fascinada da sala, com vontade de ter dinheiro pra comprar nem que fosse um pedacinho daquele brilho e delicadeza toda haha.

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Pra quem chegou até aqui, parabéns haha. Desculpa o tamanho do texto, gente, mas quando é um assunto assim pelo qual eu ando muito inspirada, não consigo ser sucinta. E contem nos comentários o que vocês acharam dessas coleções e das dos outros dias também!

Bisous, bisous e até a próxima.

O Rio de Janeiro continua lindo!

Em semana de Fashion Rio, muita gente, – seja daqui do Brasil ou lá de fora – para pra assistir os desfiles que acontecem nesses cinco dias, pra saber o que tá rolando de tendência pra próxima estação, pra ver os famosos que passaram pelo Pier Mauá (é, pois é). Mas não é só isso. Quem vem pra cá ou mesmo pra quem já é do país, quem acompanha a cobertura dos portais ou que tá lá, cobrindo, assistindo, comprando na semana de moda carioca, sente uma vibração que não é exclusiva do evento. É uma coisa que transpira em cada foto que você vê, em cada entrevista dada, em cada matéria que você lê. É uma bossa única que atende pelo nome de Rio de Janeiro.

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E olha que essa história começa lá atrás, quando a cidade ainda nem era uma cidade, mas um pedaço de terra disputado por franceses e portugueses. Nossos colonizadores ganharam a disputa e ali começou a história de fato. A cidade, agora já “São Sebastião do Rio de Janeiro” cresceu, virou região preciosa pro comércio portuário e foi uma das pioneiras no desenvolvimento do país, até que virou capital do Brasil, perdendo o posto em 1960 para Brasília.

E o que que essa história História tem a ver com Fashion Rio? Tem tudo a ver, eu diria.

O desenvolvimento e pioneirismo do Rio foram importantíssimos para a efervescência cultural que dominou a cidade nas décadas de 50 e 60 e que, por sua vez, foi responsável por criar o cartão postal em que ela se transformou, pelo lifestyle que só o carioca tem, que só sua moda, sua literatura e sua música possuem.

Samba do Avião – Tom Jobim
(Quando em 1962 Tom Jobim escreveu os versos de Samba do Avião que diziam “Este samba é só porque, Rio, eu gosto de você”, Tom tomou a liberdade de falar não só por si, mas por milhares de pessoas que tendo ou não passado pelo Rio, sentem esse amor pela cidade.)


Quando o Fashion Rio surgiu em 2002, a escolha da cidade do Rio de Janeiro não foi à toa. A Dupla Assessoria buscou apoio da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro) e da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) para que o evento fosse realizado ali por um motivo muito específico: o Rio de Janeiro é uma cidade que representa o Brasil lá fora. “O Rio era e é, sem sobra de dúvida, o melhor cartão-postal do Brasil. É uma ferramenta internacional forte e indiscutível para se chamar atenção para a produção de moda no Brasil. O Rio é idealizado no imaginário do mundo inteiro, como a capital do verão, das pessoas que vivem um lifestyle em torno das águas…” – Eloysa Simão para o “História da moda no Brasil”.

Vale lembrar que nesse mesmo ano, a Dupla Assessoria criou o Fashion Bussiness, uma feira de negócios que ocorria em paralelo aos desfile do Fashion Rio e, dois anos depois, foi a vez de aparecer o Rio Moda Hype, evento que revelava novos talentos da moda brasileira (Fernanda Yamamoto deu seus primeiros passinhos aí!).

Ou seja, o Fashion Rio nasceu de uma vontade bem diferente da do SPFW, que tinha mais a ver com organizar a confusão que eram as apresentações da moda brasileiras na época, acontecendo cada uma em um canto, em um período. Nós já tínhamos o exemplo de que uma semana de moda no Brasil conseguia vingar (depois de Phytoervas Fashion, Morumbi Fashion e o próprio SPFW tava mais do que comprovado), mas ainda havia uma necessidade diferente daquela que reinava na capital paulista. Mais do que um evento pra mostrar o talento de tanta gente incrível que tava aí pelo Brasil, o Fashion Rio já nasceu com essa vontade de ter um espaço mais comercial e aproveitar a ‘imagem carioca’ pra vender, literalmente, nossa moda pra fora. Era uma vontade de dizer que nós não apenas fazíamos moda, mas que também podíamos vendê-la e exportá-la. E que tínhamos competência, público e inteligência pra sermos bom com as ideias e também com a mão na massa.

O Fashion Rio pelas lentes do instagram da @glamourbrasil, @girlswstyle, @riotec, @bazaarbr, @modices e @bluemanbrasil

Entre verdades e meias verdades, desde o seu início o Fashion Rio se tornou o “grande rival” do SPFW, gerando uma série de mudanças no calendário dos eventos, muita falação da mídia e muita coisa entalada na gargante de seus organizadores. O fim de todo o auê só veio mesmo em abril de 2009 quando a Dupla Assessoria saiu de cena e a Abit e Firjan fecharam novo contrato com a Inbrands, que por sua vez passou a organização do evento para a Luminosidade. Ou seja, Paulo Borges estava na jogada, baby.

Teve quem amou e quem odiou. Teve gente que disse que o evento tinha perdido seu gingado carioquês, que o Fashion Rio não era mais o mesmo e que tava tudo errado. Teve aqueles que, por outro lado, amaram, que acharam as mudanças (a começar pelo número de desfiles que caiu de 41 pra 29) incríveis, que o evento finalmente tava na rota certa. Enfim, houve de tudo. De certeza mesmo só ficou uma. Mais do que usar a imagem do Rio pra mostrar o evento, as novas mudanças do Fashion Rio só caminhavam pra um lugar: colocar a cidade como “capital da moda praia” e o evento como seu grande cartão de boas-vindas.

Em pleno 2013, no momento em que acontecem os desfiles do Fashion Rio verão/2014, há muito que o evento parece ter encontrado seu rumo. Sob a batuta da Luminosidade acabaram-se as “brigas”, e as duas semanas de moda passaram a somar e a caminharem cada vez mais pra focos bem diferentes.

Que o Fashion Rio cresceu e cresce a cada temporada é indiscutível. Isso se reflete não apenas na sua grande estrutura e seriedade que se comprovam em toda edição, mas também no destaque nacional e internacional que os desfiles, sua moda praia e é, claro, a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro ganham. Até porque, sejamos sinceros, com tanta beleza assim, como não se apaixonar?

“Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito pra mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você”

Samba do Avião – Tom Jobim

Desfiles SPFW verão/2014 – dia 5

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Uma

A artista brasileira Lygia Clark foi a grande estrela da coleção da Uma, que se inspirou em sua história e obra pra fazer um desfile que pra mim pode ser definido em apenas uma palavra: leveza. E bota leveza nisso. As transparências, sobreposições e peças tão longilíneas pareciam dançar em cima da passarela – se um vento muto forte soprasse a gente tinha a impressão que a modelo seria arrastada dali. Séries como “Bichos” tiveram réplicas adornando a cabeça das modelos e “A casa é o corpo”, outra obra de Lygia, teve uma parte de si no cenário do desfile. Tudo muito leve, muito fluido e com poucas cores, já que cartela flertou entre o branco, preto, cinza e apenas uma estampa em amarelo.

Cereja no topo do bolo: a trilha sonora que me deixou em êxtase, com Caetano cantando “Is you hold a stone (Marinheiro Só)” que, inclusive foi escrita para a artista em 1971, e “Não identificado”, umas das canções brasileiras mais lindas e singelas de todos os tempos.

Têca

Eu sou fã confessa da Têca e sempre aguardo ansiosamente seus desfiles (sua coleção de verão 2013, estreia no SPFW, até hoje não me sai da cabeça. Saí da sala de desfiles me sentindo mais leve, mais bonita, mais inspirada). Daí que pra esse verão/2014 eu me surpreendi. Me surpreendi porque a Têca apostou em algo um pouco diferente do que aquela linha mais ‘menininha’ que ela costuma fazer, mas algo tão lindo e tão bem feito como em qualquer um de seus desfiles anteriores. Nessa coleção, as estampas vieram aos montes, às vezes aparecendo só nos barrados ou perto dos decotes dos vestidos e, em alguns momentos tomando a peça toda, como no caso dos casacos. Em uma ou outra situação, elas são ricamente trabalhadas em arabescos e dão uma certa imponência pra delicadeza e fluidez das peças. Um antagonismo gostoso de ver. Pudera! Inspirado na porcelana antiga (ô tema lindo!) fica difícil não gostar de cada milímetro desse desfile. E ainda tem as bolsas que são uma delícia à parte e resgatam esse lado gostoso da marca de fazer dos acessórios peças importantíssimas da coleção.

É, to bem apaixonada.

Rosner

Total drama queen. É sempre assim que as coleções de Rodrigo Ronser gostam de ser, já tomando essa vontade pelo exagero, pelo absurdo como parte de seu DNA. E dessa vez não foi diferente. Os vestidos etéreos e esvoaçantes aparecem ao lado de laços enormes, camadas e mais camadas de tecidos, pedrarias, plumas. Tudo junto e misturado no aqui e agora. Segundo o estilista, a ideia inicial da coleção era a desconstrução do mito do amor romântico, representado pelas modelos que na passarela ganhavam status de princesas. A riqueza e opulência dos vestidos justificam-se aí, mas ainda assim, alguma coisa não me ganhou nessa coleção. Tudo bem que eu já tenho um pezinho ali atrás com esse tanto de exagero nas peças, mas nunca tomei isso como regra, afinal um bom drama é ótimo de vez em quando. Só que dessa vez não rolou…

Lino

O desfile de Lino tá aí pra comprovar que um drama às vezes não é só bom, às vezes é mesmo necessário. Essa coleção, que encerrou os desfile de verão 2014 do SPFW, foi um dos desfiles mais lindos dessa temporada. Pra começar que Lino Villaventura trabalhou (pasmem!) canutilhos de uma forma fora do comum, criando verdadeiros mosaicos nas roupas dos modelos, e tirando aquela imagem meio “carnaval” que às vezes a gente deles. Em preto e prata ou coloridos, eles davam um caimento e efeito lindos na passarela! As transparências vieram trabalhadas em detalhes, como em alguns colos de modelos masculinos, e às vezes na peça inteira, como foi o caso da modelo que abriu o desfile. Apesar de tudo pender pro lado do exagero – tudo mesmo, desde os materiais atá as silhuetas – é tudo muito bem dosado e a coleção de Lino que não teve apenas uma inspiração, mas que “viaja na imaginação” como disse o próprio estilista, cria exatamente esse efeito de sonho, de resgate do passado, mas com um pezinho no presente.

Pra bater mesmo palmas de pé, o que foi feito por quem assistiu o desfile lá na Bienal.

Créditos das fotos: FFW | ©Ag. Fotosite

Desfiles SPFW verão/2014 – dia 4

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Alexandre Herchcovitch

Alexandre não apresentou sua coleção masculina nessa edição, o que é uma pena, mas pra compensar trouxe uma coleção feminina que tinha como ponto de partida sua própria coleção de verão 98/99. Um mergulho no passado pra entender um pouco mais do estilista no presente. Olhando pras duas coleções, fica impossível não traçar comparações entre o Alexandre de antes e o Alexandre de agora, e se lá em 98/99 ele fazia uma moda “sombria”, “dark” magicamente transformada em prêt-à-porter, no seu verão 2014 ele mostra que, o que se achava impossível acontece: ele só melhorou.

As listras, que já ganharam as ruas de um jeito louco e assustadoramente rápido, aparecem aos montes na coleção. Ora literais e ora em tiras, nesse segundo caso criando uma mistura de tecidos responsáveis por movimentos incríveis quando as modelos andavam. E além das peças da coleção mostrarem tanto primor técnico, o cabelo, tão anos 20, e a make (algumas modelos usaram batom preto!) não deixaram dúvida alguma da mulher elegante, misteriosa e poderosa dessa coleção.

Cereja no topo do bolo: as costas de várias partes de cima que brincavam com a ideia de um cardigã jogado nos ombros. Achei apenas genial.

Amapô

Acho legal pra dedéu o fato da Amapô nunca ter medo de abraçar esse lado exagerado e louco da passarela, do tipo se é pra fazer um desfile e contar uma história, vamos mesmo mostrar tudo que a gente pensou! Nessa coleção de verão 2014, em especial, a Amapô foi no fundo do mar pra buscar suas referências e voltou inspirada. As pérolas vinham traduzidas tanto nos efeitos do tecido quanto nas estampas de pois, da mesma forma como as escamas ganharam suas versões em camadas e babados espaçados. E as roupas masculinas? Nossa, são ainda mais divertidas de ver! Aqueles coletes cheios de recortes diferentes, sobreposições de listras (elas de novo!) e pois, tudo misturado causando aquele efeito pirado de passarela, mas que nas araras, separadamente e um pouco mais ajustado pras ruas, vai ganhar o coração dos apaixonados pela moda. Não é uma coleção – a bem da verdade nem uma marca – que agrada a gregos e troianos, mas a quem eles se dirigem, bom, quanto a isso não resta dúvida de que eles estão fazendo o trabalho deles “muito bem, obrigada”.

Juliana Jabour

Juliana Jabour às vezes me dá a impressão que a cada temporada tenta descobrir um pouco mais de si e de sua própria marca. Não que outros estilistas não tentem inovar e levar seu trabalho por outros caminhos, mas quando vejo as coleções de Juliana tenho a impressão que ela ainda tá procurando, caçando sua verdadeira identidade. Ou a gente pode simplesmente falar que ela tá amadurecendo um tico mais a cada temporada. Aqui nesse seu verão 2014, ela testa um pouquinho de tudo na passarela. No geral é tudo mais pro minimalista, mas até as formas das peças que começam mais justinhas e depois vão ganhando leveza e distância do corpo fazem parte dessa vontade de tentar. Daí vem acessórios maxi pra compensar, roupas que querem ser discretas, mas tem brilhos mil, uma mistura de coisas. E né, Juliana bem sabe que só tentando e experimentando pra chegar lá.

Osklen

No desfile da Osklen, as pedras preciosas – seus tipos, formas e lapidações – foram responsáveis pela inspiração que regeu as peças dessa coleção. E com Oskar Metsavaht não tem erro, afinal se tem uma marca que tem um DNA muito bem definido, explorando os mais diversos assuntos e ainda assim ficando claramente identificável no meio de tudo isso, essa marca é a Osklen. O caimento perfeito das peças, – mesmo nas proporções mais difíceis de se conseguir esse efeito – os recortes geométricos que deixavam as costas das modelos quase totalmente nus, os materiais tecnológicos e artesanais que às vezes se encontravam numa mesma peça e os bicos que se formavam em muitas das partes de cima da coleção são coisas que pulam logo de cara na nossa frente. Mas daí, olhando um pouquinho mais, a gente vê que vai bem longe disso. O design e conforto que a marca sempre explora, agora junto das referências das pedras preciosas, aparece também nos acessórios. Reparem nas bolsas e em como sua segunda alcinha, ali meio que despretensiosamente colocada, se encaixa certinho nas mãos da modelo. Ou ainda na sua alça maior que quando chega aos ombros fica mais larga. Gente, faz todo o sentido ela ser mais larga distribuindo assim o peso da bolsa e ficando mil vezes mais confortável nos ombros!

Tudo muito impecável, bem a cara de Oskar Metsavaht.

Samuel Cirnansck

Não que eu não seja apaixonada por festas, na verdade é o oposto haha, mas não sou propriamente uma fã incontrolável dos vestidos do Samuel. Acho apenas que não sou bem o tipo de mulher pra quem ele se dirige, essa mulher que ama o exagero, que ama armações, babados, grandezas, tudo misturado. Ou talvez seja apenas chatice minha, afinal as noivas, um dos maiores segmentos a quem ele se destina, não querem, podem e devem ter mesmo todas as atenções voltadas pra si nesse dia? Enfim… Essa coleção de verão 2014 foi inspirada nas flores, desde seu desabrochar até sua morte. E olha, elas aparecem mesmo aos montes! Nos cabelos, em redemoinhos, nas formas que lembravam pétalas de alguns vestidos, nas camadas e babados das peças. Tinha de tudo um pouco.

Acho que foi Gloria Kalil quem disse que as roupas dessa coleção pareciam um mostruário, com todas as opções de Samuel pra vestidos de noite e noiva. Não poderia concordar mais.

ColcciA Colcci sempre foi comercial dentro ou fora das passarelas. Sempre. E essa posição sempre é reafirmada pelo tanto de celebridades que eles colocam em seu desfile, sejam elas do mundo da moda ou não. Só nesse ano teve a top modelo brasileira Izabel Goulart, a angel da Victoria’s Secret Erin Heatherton e o ator americano Paul Walter. E, no mínimo, um baita burburinho eles causam. Já na roupas, Colcci não trouxe nenhuma novidade. Daquele jeitinho que mistura uma moda bem jovem e usável com alguns toques de alfaiataria, principalmente no jeans sua marca registrada, eles trazem uma modelagem bonita e que é a sua cara. Vai agradar o público da marca com certeza.

Créditos das fotos: FFW | ©Ag. Fotosite