A infância sob o olhar de Stephen King

Há umas três semanas comecei a ler “It – A Coisa” do Stephen King.

Levando em conta que passei grande parte da minha infância dentro da biblioteca da minha cidade lendo histórias escritas por ele e por Agatha Christie, eu diria que essa não é a primeira vez que me pego com um sorriso no canto da boca enquanto leio mais uma de suas páginas. Não é a primeira vez que vejo essa capacidade incrível que o King tem de criar personagens extremamente complexos que só tendem a ganhar mais nuances conforme a história se desenvolve. Personagens que, sabe-se lá como o King faz, ganham vida diante da gente, quase como se pudéssemos senti-los.

Só que apesar de tudo isso, de já ter passado por essa experiência outras vezes, essa é a primeira vez que leio King depois de adulta (ao menos no que diz respeito ao número de aniversários que já passei, porque adulta mesmo acho que nunca vou me sentir) e consigo enxergar algumas coisas dentro da sua história que antes eu não via. Ou via, mas exatamente por ser criança, não me levavam a fazer o tipo de análise que faço hoje em dia.  

Um retrato da infância sob o olhar de Stephen King

Foto do meu instagram @paulinhav

É bem sutil, mas está lá, em toda página que você vira: Stephen King trata a infância de uma maneira até mais verdadeira e profunda do que nós a tratamos na vida real.  

Ele cria universos onde crianças têm complexidade e relevância, onde elas podem ser boas ou cruéis, mesquinhas ou generosas, frias ou sentimentais. Universos onde crianças têm voz, sentimentos profundos e ações que podem mudar todo o percurso de uma história – da mesma forma que elas têm aqui fora, mas que, ironicamente e diferente da ficção, a gente parece não levar em conta.

Um retrato da infância sob o olhar de Stephen King

É óbvio que na infância falta maturidade e tudo aquilo que felizmente ou infelizmente a gente só adquire com o passar dos anos (lembram que falei que só consegui reparar em alguns detalhes da escrita do King agora mais velha?). Mas olha, sobra tanta coisa em compensação… E não são coisas simples, como às vezes a gente parece achar.

Por exemplo, sempre me incomoda quando vejo alguma criança com um problema e alguém dizendo “ah, mas não precisa se preocupar. É só uma criança, isso aí logo passa”. Mas será que passa mesmo? Eu penso na minha infância e nas lembranças que carrego dela, e fico com essa sensação de que basta eu fechar os olhos para que algumas cenas voltem com total intensidade. Para que eu sinta de novo algumas coisas que vivi, e lembre o quanto algumas coisas me machucaram e outras me deixaram feliz de um jeito que parecia não haver nada maior do que aquilo.

A infância é um período da nossa vida que nos constrói. É nela que descobrimos o começo do que é o mundo. Não é algo simples nem pequeno, é bastante avassalador, na verdade. E assusta muito pensar que é comum crianças serem tratadas com insignificância, especialmente porque banalizamos repetidas vezes as coisas que elas sentem e agimos como se pudéssemos controlar tudo o que elas vivem. Uma dica: a gente não pode.

Devemos ser ótimos pais, irmãos, avós, tios e servir como um guia para elas. Temos uma responsabilidade gigante nisso tudo. Mas acho que é importante entendermos que elas também têm sua própria voz e irão passar por suas próprias experiências. São pessoais reais, de carne e osso ali, não alguém que apenas moldamos.

Eu lembro da criança que fui e vejo as crianças que encontro nas obras do King e penso que por algum motivo a gente parece esquecer de toda essa profundidade quando cresce. Não sei porquê, e nem acho que é uma coisa simples de se entender, mas acontece. E fico feliz que pelo menos alguém lembre disso, e coloque em palavras, em histórias que serão levadas adiante. A criança que um dia eu fui, agradece.

Sobre os últimos dias

Faz quase um mês que não posto aqui no blog e, de lá pra cá, muita coisa mudou.

Foto by Bárbara Carneiro

Foto batida pela Babi em um dia ensolarado no Parque da Aclimação

O engraçado é que todas essas mudanças não foram coisas palpáveis, do tipo que eu posso apontar e dizer “foi isso aqui que aconteceu, tá vendo?”. Não é nada do tipo. Não ganhei na loteria, não mudei de emprego, não achei um novo hobby maluco pra começar a fazer e nem mesmo fiz algumas das muitas viagens que vivo planejando. Na verdade, de palpável mesmo aconteceu que nesse último mês eu me atolei em trabalho, quase não consegui parar em casa e consequentemente escrever por aqui. Mas fora tudo isso, fora todas essas coisas ~reais~ que acontecem no nosso dia a dia, nada mudou. A não ser é claro que muita coisa mudou, aqui por dentro.

Sinto que tenho passado por um dos momentos mais difíceis da minha vida, emocionalmente falando. Uma das crises mais doídas que eu já tive. Quer dizer… Quem que eu tô querendo enganar? É a crise mais doída que eu já tive. E mistura um monte de coisas, o que torna tudo ainda mais complicado. Especialmente porque tem a ver com uma das coisas que eu mais amo fazer na vida, que é escrever, e tem também a ver com um monte de problemas de autoestima que eu desenvolvi.

E olha, me dói muito falar sobre isso, porque se teve uma coisa que eu sempre acreditei e falei, fosse aqui no blog ou fosse entre as minhas amigas, é que a gente precisa aprender a se amar do jeito que a gente é. Porque isso é algo em que eu realmente acredito. Mas acredito mesmo, do fundo do coração, não tenham dúvida. E é aí justamente o problema: me bate uma certa vergonha de me sentir assim, de passar por todos esses problemas que tô passando e que dizem respeito a minha aparência, sendo que eu acredito nessa premissa.

Como se não bastasse tudo isso, tem um outro fator muito complicado nessa história toda, que tem deixado as coisas ainda mais problemáticas: eu sou uma pessoa muito difícil de me abrir, de falar o que eu tô sentindo e pensando.

Vejam bem, não é que eu não conte sobre os meus problemas pras pessoas mais próximas, eu até conto. Mas eu guardo isso ainda aqui comigo, e fico remoendo as situações, e pensando nelas, e sofrendo repetidamente um zilhão de vezes. O que é exaustivo de uma tal maneira que vocês não fazem ideia.

Quadrinho da Giovana Medeiros

Quadrinho lindo da maravilhosa Giovana Medeiros (no instagram @giovanamedeiros)

Por causa disso, nos últimos dias tenho tentado praticar um exercício diário de aprender a ‘deixar ir’. De viver aquela tristeza sim, mas saber o momento de levantar e continuar. Ainda que doa um pouco. Ainda que doa muito. Porque a verdade é que o mundo não para pra gente juntar nossos caquinhos, e é necessário aprender a fazer isso enquanto outras muitas coisas acontecem na nossa vida.

E claro que não é fácil. Nunca é fácil conseguir mudar algo que, ainda que nos faça mal, já faz parte do nosso jeito de pensar e agir. Mas acho que pouco a pouco as coisas estão melhorando, especialmente porque eu tenho pessoas incríveis ao meu lado, como o Di, que tem sido não apenas o melhor noivo que eu poderia desejar, mas também o melhor amigo, e tantas outras pessoas queridas que vêm me ajudando de maneiras que às vezes nem eles sabem.

Além disso, tenho depositado muitas esperanças que 2017 vai ser um ano incrível, a começar por janeiro que promete coisas muito legais – mas que eu vou deixar acontecerem primeiro antes de vir tagarelar aqui.

Os próximos posts aqui do blog devem ser sobre coisa mais leves, já que estamos em dezembro e às vésperas da minha data preferida de todos os tempos: o Natal. E também porque nesses dias onde o mundo todo anda um caos, a gente precisa de uns momentos mais tranquilos assim, que deixam nosso coração mais aquecido e feliz. Eu acredito muito nisso.

Beijos e bom restinho de segunda-feira.