A vida de Alice e a vida de Mariana

No último dia 17 o blog foi convidado para o lançamento do livro “A Vida de Alice”, da escritora Mariana Akemi Yamaguti. O evento aconteceu no Bauru Shopping, e reuniu muita gente interessada em conhecer e prestigiar o trabalho da Mariana, que é bauruense da gema e está lançando o seu primeiro livro.

Antes de tudo isso acontecer, no entanto, acho legal contar que quando recebi o convite do evento, duas coisas me deixaram muito feliz: a primeira foi estar sendo chamada para o lançamento de um livro, coisa que quem acompanha os posts aqui do blog ou me segue nas redes sociais, sabe que tem tudo a ver com meu universo. E a segunda foi que a Mariana, autora do livro, é uma garota de apenas 13 anos de idade e mesmo tão novinha não só conseguiu escrever como ainda publicar a sua história!

"A Vida de Alice" e a vida de uma jovem escritora

Eu e a Mariana no dia do lançamento do livro, em foto do Social Bauru

Acho que quem, assim como eu, também tem uma relação de amor com o mercado editorial, deve entender essa felicidade. Saber que existem pessoas como a Mariana só faz a gente ter ainda mais certeza de que não, a internet não matou os livros, e que essa nova geração tem interesse sim por esse universo. Tanto que houveram vários livros YA de sucesso nos últimos anos, um considerável crescimento de canais literários do YouTube dedicados a um público mais jovem, e um boom em eventos literários já clássicos, como a Bienal do Livro de São Paulo, e o surgimento de novos, como a Flipop. Ou seja, a galera mais nova lê, sim. E, por sinal, lê bastante.

No caso da Mariana, além de ler (aqui embaixo tem uma listinha com os autores preferidos dela!), dá pra ver que também tem gente produzindo coisas muito legais, e foi exatamente sobre o processo de escrita de “A Vida de Alice” e a publicação do livro que a gente conversou.

A Vida de Alice e a vida de Mariana

A Vida de Alice e a vida de Mariana

A Mari contou que tudo começou quando os amigos de escola desafiaram ela a escrever uma história. Na época com 11 anos, a garota deu início então a narrativa que hoje é seu primeiro livro, mas que para chegar até aqui, percorreu um caminho bastante longo. Tudo que ia sendo escrito era levado para sua professora de português, que junto da garota, ia vendo o que precisava melhorar, o que podia ser mantido e assim por diante. Foram cerca de nove meses nessa troca de figurinhas até o livro final ganhar vida e, depois, mais um ano e três meses em busca de uma editora que publicasse a história.

“Eu, na minha cabecinha infantil e alienada do assunto, imaginava que bastava escrever um livro, levar para uma editora que ela publicaria com extrema facilidade; porém não foi bem isso que aconteceu, eu dei de cara com uma barreira imensa que quase cobriu o meu sonho. Fui em diversas editoras e recebi “não” de todas elas, o que foi bem frustrante, mas necessário para eu encontrar as pessoas certas.”, conta.

Foi aí que entrou em cena então a própria escola da Mariana, que com a ajuda de muita gente envolvida, conseguiu tornar esse sonho realidade. O livro foi publicado pela Canal 6 Livraria e “A Vida de Alice” ganhou vida.

"A Vida de Alice" e a vida de uma jovem escritora

Quando questionada sobre as inspirações que ajudaram ela a desenvolver essa história mesmo tão novinha, Mariana aponta duas coisas que tiveram muita influência nesse processo. “Acredito que hajam dois tipos de inspiração, algo mais “físico” relacionado a convivência e influência de determinadas pessoas e experiências; e algo mais interior, uma sensação, um sentimento… não sei descrever ao certo, um choque de adrenalina e criatividade que te impulsionam a passar para o papel, o que está no mais profundo do seu ser.”

E, quando o assunto é sobre os próximos passos da carreira e se ela pretende publicar mais livros, Mariana é enfática. “Não imagino mais a minha vida sem escrever, é algo que já é parte de mim e extremamente vital no meu dia a dia. Pretendo sim escrever mais livros, acho que ainda tenho muito para falar, mas para projetos futuros… No momento ainda estou sentindo e curtindo “A Vida de Alice”.”

A Vida de Alice e a vida de Mariana

“A vida de Alice” conta a história de uma menina que, ajudada pela melhor amiga, está tentando encontrar seu lugar no mundo depois de perder a mãe de uma forma bastante misteriosa. Para quem ficou interessado na sinopse e quer prestigiar o trabalho da Mariana, é possível comprar seu exemplar pelo próprio site da editora ou ainda no site da Amazon.

Me contem depois nos comentários o que vocês acharam. Quero muito saber.

Beijos e até a próxima!

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Ano passado escrevi aqui no blog sobre a trilha sonora de Life is Strange, jogo da Dontnod Entertainment que marcou meu ano de 2017. Eu pirei de verdade com a história e jogabilidade dele, e fiquei tão envolvida pelas suas músicas que na lista de final de ano do Spotify, Obstacles do Syd Matters entrou no meu top five de canções mais ouvidas.

O jogo, aliás, conquistou muito mais gente do que só eu, tanto que no ano passado foi lançado o Life is Strange: Before the Storm, um prequel do título original que eu tratei de jogar assim que 2018 começou. Com uma história que se passa meses antes da chegada de Max em Arcadia Bay, esse prequel mostra o início da amizade de Chloe Price, nossa já velha conhecida, e Rachel Amber, personagem que no começo do primeiro jogo está desaparecida.

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Ainda que eu tenha achado o título original muito melhor (em grande parte, meu descontentamento ficou pela personalidade que foi atribuída a Rachel e por alguns furos do roteiro), Before the Storm serviu pra matar um pouco da saudades que eu tava sentindo do universo de Life is Strange. Além disso, esse novo jogo precisou readaptar algumas jogabilidades do título original e conseguiu fazer isso de uma maneira bastante positiva. O melhor exemplo dessas mudanças pra mim foram os itens colecionáveis que, se antes eram as fotos que Max batia, agora, no novo jogo, se transformaram nas pichações de Chloe. Uma maneira inteligente de manter os achievements espalhados pela história de modo a fazer sentido com o desenrolar dos fatos.

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Outro ponto legal de Before the Storm é conhecer mais sobre o passado de alguns personagens, e entender como os fatos foram se desenrolando pra chegarmos no cenário do primeiro Life is Strange. E claro, o final da história, que assim como acontece no primeiro jogo, também pode mudar de acordo com as escolhas que você faz, tirando um pouquinho da previsibilidade que um jogo prequel assim poderia ter.

Importante dizer ainda que quem comprou a versão deluxe do jogo (o que infelizmente não é o meu caso), agora no dia 06 de março vai poder jogar um episódio bônus da história, o Farewell. Tô na esperança de que mais pra frente eles liberem uma venda separada dele e que eu possa, assim, rever esses personagens e cenários mais uma vez 😀

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Ainda falando sobre coisas marcantes desse meu começo de ano, achei que valia muito a pena escrever aqui no blog sobre “Fortaleza Impossível”, minha primeira leitura de 2018.

O livro é do Jason Rekulak, autor até então pra mim desconhecido, e tem uma escrita tão fluida, que te prende do começo ao fim da história, que você vai virando suas páginas sem nem perceber como está avançando na leitura. Um YA de primeira mesmo!

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Assim como tantas outras obras que têm feito sucesso nos últimos tempos (alô, Stranger Things!), Fortaleza Impossível se passa nos anos 80 e usas e abusa da cultura pop da época pra contar sua história.

Tudo começa quando um trio de garotos bem esquisitos, Billy, Alf e Clark, decide armar um plano para roubar uma revista Playboy estrelada pela sua apresentadora de TV preferida. Só que pra isso dar certo, eles precisam que Billy se aproxime de Mary, uma garota nerd que mesmo sem saber, pode ajudá-los a conseguir a publicação. O problema é que Billy e Mary tem muito mais a ver um com o outro do que imaginam, e, além disso, formam a dupla perfeita para transformar em realidade um jogo que Billy vem imaginando há muito tempo – e que pode vencer um desafio de programação que promete presentear seu vencedor com um dos computadores mais incríveis da época.

É então nessa mistura de romance adolescente, referências a perder de vista dos anos 80, computadores (todos os capítulos do livro abrem com códigos de programação) e a magia dos jogos online que se desenrola esse enredo, além é claro de um daqueles plot twists que a gente tanto ama.

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Se você gostou então de Fortaleza Impossível ou de Life is Strange, dá pra comprar tanto o livro quanto o jogo no Submarino. E, se quiser um pouco de desconto nas compras, é só usar os cupons do Cupom Válido (que além do Submarino, ainda oferecem cupons de desconto em lojas como Saraiva, Natura, Extra e até 18% de desconto na Centauro).

Depois me contem o que vocês acharam deles :)

Beijos e até já, já que essa semana tem #aquecimentoOscar aqui no blog!

A infância sob o olhar de Stephen King

Há umas três semanas comecei a ler “It – A Coisa” do Stephen King.

Levando em conta que passei grande parte da minha infância dentro da biblioteca da minha cidade lendo histórias escritas por ele e por Agatha Christie, eu diria que essa não é a primeira vez que me pego com um sorriso no canto da boca enquanto leio mais uma de suas páginas. Não é a primeira vez que vejo essa capacidade incrível que o King tem de criar personagens extremamente complexos que só tendem a ganhar mais nuances conforme a história se desenvolve. Personagens que, sabe-se lá como o King faz, ganham vida diante da gente, quase como se pudéssemos senti-los.

Só que apesar de tudo isso, de já ter passado por essa experiência outras vezes, essa é a primeira vez que leio King depois de adulta (ao menos no que diz respeito ao número de aniversários que já passei, porque adulta mesmo acho que nunca vou me sentir) e consigo enxergar algumas coisas dentro da sua história que antes eu não via. Ou via, mas exatamente por ser criança, não me levavam a fazer o tipo de análise que faço hoje em dia.  

Um retrato da infância sob o olhar de Stephen King

Foto do meu instagram @paulinhav

É bem sutil, mas está lá, em toda página que você vira: Stephen King trata a infância de uma maneira até mais verdadeira e profunda do que nós a tratamos na vida real.  

Ele cria universos onde crianças têm complexidade e relevância, onde elas podem ser boas ou cruéis, mesquinhas ou generosas, frias ou sentimentais. Universos onde crianças têm voz, sentimentos profundos e ações que podem mudar todo o percurso de uma história – da mesma forma que elas têm aqui fora, mas que, ironicamente e diferente da ficção, a gente parece não levar em conta.

Um retrato da infância sob o olhar de Stephen King

É óbvio que na infância falta maturidade e tudo aquilo que felizmente ou infelizmente a gente só adquire com o passar dos anos (lembram que falei que só consegui reparar em alguns detalhes da escrita do King agora mais velha?). Mas olha, sobra tanta coisa em compensação… E não são coisas simples, como às vezes a gente parece achar.

Por exemplo, sempre me incomoda quando vejo alguma criança com um problema e alguém dizendo “ah, mas não precisa se preocupar. É só uma criança, isso aí logo passa”. Mas será que passa mesmo? Eu penso na minha infância e nas lembranças que carrego dela, e fico com essa sensação de que basta eu fechar os olhos para que algumas cenas voltem com total intensidade. Para que eu sinta de novo algumas coisas que vivi, e lembre o quanto algumas coisas me machucaram e outras me deixaram feliz de um jeito que parecia não haver nada maior do que aquilo.

A infância é um período da nossa vida que nos constrói. É nela que descobrimos o começo do que é o mundo. Não é algo simples nem pequeno, é bastante avassalador, na verdade. E assusta muito pensar que é comum crianças serem tratadas com insignificância, especialmente porque banalizamos repetidas vezes as coisas que elas sentem e agimos como se pudéssemos controlar tudo o que elas vivem. Uma dica: a gente não pode.

Devemos ser ótimos pais, irmãos, avós, tios e servir como um guia para elas. Temos uma responsabilidade gigante nisso tudo. Mas acho que é importante entendermos que elas também têm sua própria voz e irão passar por suas próprias experiências. São pessoais reais, de carne e osso ali, não alguém que apenas moldamos.

Eu lembro da criança que fui e vejo as crianças que encontro nas obras do King e penso que por algum motivo a gente parece esquecer de toda essa profundidade quando cresce. Não sei porquê, e nem acho que é uma coisa simples de se entender, mas acontece. E fico feliz que pelo menos alguém lembre disso, e coloque em palavras, em histórias que serão levadas adiante. A criança que um dia eu fui, agradece.

Eu li: Precisamos falar sobre o Kevin do Lionel Shriver

Lembro quando assisti “Precisamos Falar Sobre o Kevin” pela primeira vez. O filme é do diretor Lynne Ramsay e na época do seu lançamento, além de fazer um sucesso muito grande, ele vinha sendo classificado por todo mundo como um excelente thriller psicológico. E sendo eu uma pessoa que ama bons filmes desse gênero, foi meio que inevitável que a minha curiosidade pela história triplicasse.

Confesso que foi chocante. Além das atuações excelentes do trio de personagens principais (a deusa Tilda Swinton, o ator novato em Hollywood e que viria a se tornar meu queridinho, Ezra Miller, e o maravilhoso John C. Reily), o filme fala sobre uma série de assuntos como maternidade indesejada, relações humanas de puro ódio, relacionamentos destruídos, e muitos outros temas já muito discutidos, mas quase nunca falados sob o ponto de vista mostrado na história.

Tinha muita coisa pra ser deglutida em “Precisamos Falar sobre o Kevin”, e muita coisa que incomodava, que causava desconforto, que fazia o telespectador refletir.

Mas minha história com ele não tinha acabado aí. Quatro anos depois de assistir o filme pela primeira vez, encontrei Kevin novamente. Dessa vez pelas mãos da Bruna, que me emprestou o livro que deu origem ao filme com a promessa de que eu com certeza iria achá-lo incrível. E não é que ela acertou em cheio?

Minha capa preferida do livro. Acho ela sombria e meio creep de um jeito bem fiel a história

Por mais difícil que isso possa parecer, já que o filme é mesmo excelente, o livro me envolveu mais. A escrita de Lionel Shriver parece que chega te socando na boca do estômago, em especial porque a história é contada através das cartas escritas pela mãe do garoto, Eva, para o seu marido Franklin. O que torna a realidade que ela viveu, pensou, sentiu e temeu, a nossa própria realidade.

Logo que começamos a ler as cartas, entendemos que o livro não se desenrola exatamente em ordem cronológica. Eva, em um momento futuro da história que vamos acompanhar, decide escrever para seu marido contando os fatos que a levaram até ali. Isso de uma maneira bastante crua, sem esconder nenhum sentimento ou acontecimento vividos. Tudo que desejava, tudo que sentiu, tudo que colocou em segundo lugar na sua vida, tudo que amou, tudo que odiou. Tudo que viveu e que vai sendo despejado sem cerimônia na escrita.

O encontro e casamento dos dois, a gravidez de Eva, a dificuldade do relacionamento de mãe e filho, a aversão à maternidade, os primeiros sinais de que a criança não era uma criança como as outras e muitos outros acontecimentos, sempre cheios de conflitos internos e externos, vão sendo contados para o marido e, claro, para o leitor.

Isso, aliás, é um trunfo bem grande do livro. A gente vai acompanhando a história da mãe de Kevin já sabendo que, no futuro, algo de muito ruim aconteceu. Eva está sozinha agora, destruída, em um emprego horrível, totalmente arrasada. Mas não sabemos o que de fato houve nesse meio tempo. Qual o tortuoso caminho que fez com que a inteligente e perspicaz Eva do começo da história se transformasse nessa figura amaldiçoada.

A edição que eu li, com a capa do filme

A edição que eu li, com a capa do filme

Entre os muitos assuntos que acabam surgindo ao longo da leitura, o que mais grita na nossa cara e que parece estar por trás de todos os acontecimentos que são narrados diz respeito a maldade humana. Afinal, Kevin é uma criança que nasceu má.

Mas será mesmo?

Enquanto algumas passagens do texto te levam a aceitar isso sem muitas dúvidas, outras parecem nos fazer pensar se não existe um algo mais aí. Se bem e mal são assim tão milimetricamente separados, – preto ou branco, cara ou coroa – ou se uma há uma ambivalência de sentimentos dentro de cada pessoa que pode ser despertada para um lado ou outro ao longo da vida.

E se for isso mesmo, de quem é a culpa pela escolha?

Não sinto em dizer, – já que acredito que essa é uma das coisas que tornam o livro tão excelente quanto ele é – que essas e muitas outras questões não serão respondidas ao longo da leitura. Talvez porque elas não tenham uma única resposta ou talvez porque caiba a cada um ter sua própria compreensão dos fatos narrados.

Quotes

Holocaustos não me assombram. Estupros e trabalho escravo infantil não me assombram. Franklin, sei que você pensa o contrário, mas Kevin também não me assombra. Fico assombrada quando deixo cair uma luva na rua e um adolescente corre dois quarteirões para devolvê-la. Fico assombrada quando a moça do caixa me lança um amplo sorriso, junto com o troco, quando a minha fisionomia era apenas uma máscara apressada. Carteiras perdidas enviadas aos respectivos donos pelo correio, estranhos que fornecem indicações precisas de uma rua, vizinhos que regam as plantas uns dos outros – essas coisas me assombram. Celia me assombrava.”

“Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada.”

“Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a ideia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos ver. Que, ao recebermos aquele telefonema fatal avisando que nossa mãe está morta, não sentiremos nada. Pergunto-me se esse pequeno medo calado, inexprimível, é ainda mais agudo que o medo da má notícia em si: o de que vamos nos descobrir uns monstros.
”

Para quem se interessou pelo livro, ele tá a venda no site da Saraiva. E se você já leu, conta aqui nos comentários se gostou dele tanto quanto eu.

Bisous, bisous e até amanhã :)

Eu li: Toda Luz Que Não Podemos Ver do Anthony Doerr

Sempre admirei pessoas que conseguiam escrever narrativas boas, bem feitas e envolventes, com enredos completamente distantes daquilo que viveram. Já dizia alguém muito mais sábio do que eu: é muito mais fácil escrever sobre aquilo que você conhece. Não é menos respeitoso, – até porque escrever bem, eu acredito, é sempre algo a se admirar – mas talvez seja uma zona de conforto inteligente a se manter quando criamos uma história de ficção.

O que não é o caso de Antony Doerr, é claro.

Tudo bem que o cara é formado em História, e possivelmente já havia estudado sobre a Segunda Guerra Mundial muito mais do que eu ou você. No entanto, a infinidade de referências, fatos históricos e sensibilidade que eu encontrei em seu livro, eu arriscaria dizer que não foram aprendidos numa sala de aula.  Ainda que ficcional, o trabalho de pesquisa e a profundidade que o livro tem provam que Anthony Doerr mergulhou com tudo em uma época que ele não viveu (o escritor nasceu na década de 70), em uma história em que ele não era o protagonista (fosse no corpo de uma garota cega de 15 anos ou nos pensamentos de um jovem alemão de 16) e em uma situação, definitivamente, muito distante da vida que leva hoje em dia morando em Idaho nos Estados Unidos.

“Toda Luz Que Não Podemos Ver” é o segundo romance publicado pelo escritor e foi o vencedor do prêmio Pulitzer de ficção 2015. Ele foi tão incessantemente elogiado pela crítica e pelo público que virou um dos meus maiores desejos de leitura do final do ano passado.

Uma coisa que me chamou a atenção logo de cara foi o fato da narrativa do livro ter como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, um dos temas históricos pelos quais mais tenho curiosidade. Mas o que me prendeu de vez mesmo a essa vontade doida de ler o livro, foi o seu enredo, que parecia singelo e “bonitinho” (no melhor sentido da palavra) e que por isso mesmo causava muita estranheza. Afinal, como é que uma história aparentemente tão delicada e sensível podia se desenrolar em um cenário tão cáustico quanto o da guerra?

O livro conta duas histórias paralelas, mas que acontecem em situações e lugares completamente diferentes. Uma delas é a história de Marie-Laurie, uma garota que ficou cega aos seis anos de idade e que aprendeu a se locomover pelo seu bairro graças a maquete construída pelo seu pai, o chaveiro do Museu de História Natural de Paris. Aos 12 anos, depois de ver as ruas da sua cidade serem invadidas pelas tropas alemãs, ela e o pai fogem da capital em busca de um lugar para ficarem, e acabam se refugiando na cidadezinha de Saint Malo, onde mora seu tio, um sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. Junto com eles está um dos maiores tesouros do museu, que é confiado ao pai da menina para que ele não seja roubado pelos nazistas.

Do outro lado, temos a história de Werner, um garotinho órfão que mora junto com sua irmã em um abrigo para crianças em uma região de minas da Alemanha. Desde pequeno o menino se descobre apaixonado por rádios e ondas eletrônicas, e aos 14 anos de idade é selecionado para estudar em um colégio nazista, onde passa a trabalhar para o estado alemão desmantelando as transmissões de rádio inimigas.

Os capítulos ficam se alternando entre a história de um personagem e de outro, e de tempos em tempos a cena de abertura da história – que se passa no futuro, em 1944– volta a ganhar mais um pedacinho da sua continuação.

Os capítulos do livro, aliás, são supercurtinhos, quase sempre com uma página e meia, no máximo duas de duração, e tornam a leitura muito mais interessante. Ainda que ela seja detalhada e demore pra engatar, – não se engane, esse daqui não é um livro fácil de ler – o fato de haverem tantas mudanças de tempo em trechos tão curtos faz com que o livro fique muito mais dinâmico, deixando cada nova página mais envolvente do que a anterior.

E eu preciso dizer, de preferência em letras garrafais pra deixar bem registrado, que a escrita de Anthony Doerr é de um primor absoluto. Ele sabe usar muito bem as palavras e vai construindo as frases aos pouquinhos, até elas ganharem uma imensidão e significados gigantes na sua frente. É aquele tipo de pessoa que sabe juntar todos os grãozinhos de areia pra formar um castelo enorme, bonito, cheio de labirintos dentro de si.

“Werner fica impressionado ao perceber exatamente naquele momento como é extraordinariamente frívolo construir prédios esplêndidos, compor música, cantar canções, imprimir livros colossais repletos de pássaros coloridos diante da indiferença sísmica e controladora do mundo – quanta pretensão têm os seres humanos! Por que alguém vai se dar ao luxo de compor uma música se o silêncio e o vento são tão mais amplos? Por que alguém vai acender as luzes se as trevas vão inevitavelmente apagá-las? Se os prisioneiros russos são acorrentados a cercas, em grupos de três ou quatro, enquanto os soldados alemães enfiam granadas destravadas em seus bolsos e fogem?
Teatros para ópera! Cidades na lua! Ridículo! Todos eles fariam melhor se dessem o ar da graça quando chegassem os rapazes que atravessam a cidade carregando trenós com cadáveres empilhados.”

“É certo – pergunta Jutta – fazer algo apenas porque todas as outras pessoas estão fazendo?”

A quem interessar possa, tá aqui uma pesquisinha no Buscapé com lugares e preços onde o livro está sendo vendido. Leiam e depois me contem o que acharam!

Bisous, bisous