De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Ano passado escrevi aqui no blog sobre a trilha sonora de Life is Strange, jogo da Dontnod Entertainment que marcou meu ano de 2017. Eu pirei de verdade com a história e jogabilidade dele, e fiquei tão envolvida pelas suas músicas que na lista de final de ano do Spotify, Obstacles do Syd Matters entrou no meu top five de canções mais ouvidas.

O jogo, aliás, conquistou muito mais gente do que só eu, tanto que no ano passado foi lançado o Life is Strange: Before the Storm, um prequel do título original que eu tratei de jogar assim que 2018 começou. Com uma história que se passa meses antes da chegada de Max em Arcadia Bay, esse prequel mostra o início da amizade de Chloe Price, nossa já velha conhecida, e Rachel Amber, personagem que no começo do primeiro jogo está desaparecida.

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Ainda que eu tenha achado o título original muito melhor (em grande parte, meu descontentamento ficou pela personalidade que foi atribuída a Rachel e por alguns furos do roteiro), Before the Storm serviu pra matar um pouco da saudades que eu tava sentindo do universo de Life is Strange. Além disso, esse novo jogo precisou readaptar algumas jogabilidades do título original e conseguiu fazer isso de uma maneira bastante positiva. O melhor exemplo dessas mudanças pra mim foram os itens colecionáveis que, se antes eram as fotos que Max batia, agora, no novo jogo, se transformaram nas pichações de Chloe. Uma maneira inteligente de manter os achievements espalhados pela história de modo a fazer sentido com o desenrolar dos fatos.

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Outro ponto legal de Before the Storm é conhecer mais sobre o passado de alguns personagens, e entender como os fatos foram se desenrolando pra chegarmos no cenário do primeiro Life is Strange. E claro, o final da história, que assim como acontece no primeiro jogo, também pode mudar de acordo com as escolhas que você faz, tirando um pouquinho da previsibilidade que um jogo prequel assim poderia ter.

Importante dizer ainda que quem comprou a versão deluxe do jogo (o que infelizmente não é o meu caso), agora no dia 06 de março vai poder jogar um episódio bônus da história, o Farewell. Tô na esperança de que mais pra frente eles liberem uma venda separada dele e que eu possa, assim, rever esses personagens e cenários mais uma vez 😀

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Ainda falando sobre coisas marcantes desse meu começo de ano, achei que valia muito a pena escrever aqui no blog sobre “Fortaleza Impossível”, minha primeira leitura de 2018.

O livro é do Jason Rekulak, autor até então pra mim desconhecido, e tem uma escrita tão fluida, que te prende do começo ao fim da história, que você vai virando suas páginas sem nem perceber como está avançando na leitura. Um YA de primeira mesmo!

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Assim como tantas outras obras que têm feito sucesso nos últimos tempos (alô, Stranger Things!), Fortaleza Impossível se passa nos anos 80 e usas e abusa da cultura pop da época pra contar sua história.

Tudo começa quando um trio de garotos bem esquisitos, Billy, Alf e Clark, decide armar um plano para roubar uma revista Playboy estrelada pela sua apresentadora de TV preferida. Só que pra isso dar certo, eles precisam que Billy se aproxime de Mary, uma garota nerd que mesmo sem saber, pode ajudá-los a conseguir a publicação. O problema é que Billy e Mary tem muito mais a ver um com o outro do que imaginam, e, além disso, formam a dupla perfeita para transformar em realidade um jogo que Billy vem imaginando há muito tempo – e que pode vencer um desafio de programação que promete presentear seu vencedor com um dos computadores mais incríveis da época.

É então nessa mistura de romance adolescente, referências a perder de vista dos anos 80, computadores (todos os capítulos do livro abrem com códigos de programação) e a magia dos jogos online que se desenrola esse enredo, além é claro de um daqueles plot twists que a gente tanto ama.

De volta ao universo de Life is Strange e o primeiro livro do ano

Se você gostou então de Fortaleza Impossível ou de Life is Strange, dá pra comprar tanto o livro quanto o jogo no Submarino. E, se quiser um pouco de desconto nas compras, é só usar os cupons do Cupom Válido (que além do Submarino, ainda oferecem cupons de desconto em lojas como Saraiva, Natura, Extra e até 18% de desconto na Centauro).

Depois me contem o que vocês acharam deles :)

Beijos e até já, já que essa semana tem #aquecimentoOscar aqui no blog!

A infância sob o olhar de Stephen King

Há umas três semanas comecei a ler “It – A Coisa” do Stephen King.

Levando em conta que passei grande parte da minha infância dentro da biblioteca da minha cidade lendo histórias escritas por ele e por Agatha Christie, eu diria que essa não é a primeira vez que me pego com um sorriso no canto da boca enquanto leio mais uma de suas páginas. Não é a primeira vez que vejo essa capacidade incrível que o King tem de criar personagens extremamente complexos que só tendem a ganhar mais nuances conforme a história se desenvolve. Personagens que, sabe-se lá como o King faz, ganham vida diante da gente, quase como se pudéssemos senti-los.

Só que apesar de tudo isso, de já ter passado por essa experiência outras vezes, essa é a primeira vez que leio King depois de adulta (ao menos no que diz respeito ao número de aniversários que já passei, porque adulta mesmo acho que nunca vou me sentir) e consigo enxergar algumas coisas dentro da sua história que antes eu não via. Ou via, mas exatamente por ser criança, não me levavam a fazer o tipo de análise que faço hoje em dia.  

Um retrato da infância sob o olhar de Stephen King

Foto do meu instagram @paulinhav

É bem sutil, mas está lá, em toda página que você vira: Stephen King trata a infância de uma maneira até mais verdadeira e profunda do que nós a tratamos na vida real.  

Ele cria universos onde crianças têm complexidade e relevância, onde elas podem ser boas ou cruéis, mesquinhas ou generosas, frias ou sentimentais. Universos onde crianças têm voz, sentimentos profundos e ações que podem mudar todo o percurso de uma história – da mesma forma que elas têm aqui fora, mas que, ironicamente e diferente da ficção, a gente parece não levar em conta.

Um retrato da infância sob o olhar de Stephen King

É óbvio que na infância falta maturidade e tudo aquilo que felizmente ou infelizmente a gente só adquire com o passar dos anos (lembram que falei que só consegui reparar em alguns detalhes da escrita do King agora mais velha?). Mas olha, sobra tanta coisa em compensação… E não são coisas simples, como às vezes a gente parece achar.

Por exemplo, sempre me incomoda quando vejo alguma criança com um problema e alguém dizendo “ah, mas não precisa se preocupar. É só uma criança, isso aí logo passa”. Mas será que passa mesmo? Eu penso na minha infância e nas lembranças que carrego dela, e fico com essa sensação de que basta eu fechar os olhos para que algumas cenas voltem com total intensidade. Para que eu sinta de novo algumas coisas que vivi, e lembre o quanto algumas coisas me machucaram e outras me deixaram feliz de um jeito que parecia não haver nada maior do que aquilo.

A infância é um período da nossa vida que nos constrói. É nela que descobrimos o começo do que é o mundo. Não é algo simples nem pequeno, é bastante avassalador, na verdade. E assusta muito pensar que é comum crianças serem tratadas com insignificância, especialmente porque banalizamos repetidas vezes as coisas que elas sentem e agimos como se pudéssemos controlar tudo o que elas vivem. Uma dica: a gente não pode.

Devemos ser ótimos pais, irmãos, avós, tios e servir como um guia para elas. Temos uma responsabilidade gigante nisso tudo. Mas acho que é importante entendermos que elas também têm sua própria voz e irão passar por suas próprias experiências. São pessoais reais, de carne e osso ali, não alguém que apenas moldamos.

Eu lembro da criança que fui e vejo as crianças que encontro nas obras do King e penso que por algum motivo a gente parece esquecer de toda essa profundidade quando cresce. Não sei porquê, e nem acho que é uma coisa simples de se entender, mas acontece. E fico feliz que pelo menos alguém lembre disso, e coloque em palavras, em histórias que serão levadas adiante. A criança que um dia eu fui, agradece.

Eu li: Precisamos falar sobre o Kevin do Lionel Shriver

Lembro quando assisti “Precisamos Falar Sobre o Kevin” pela primeira vez. O filme é do diretor Lynne Ramsay e na época do seu lançamento, além de fazer um sucesso muito grande, ele vinha sendo classificado por todo mundo como um excelente thriller psicológico. E sendo eu uma pessoa que ama bons filmes desse gênero, foi meio que inevitável que a minha curiosidade pela história triplicasse.

Confesso que foi chocante. Além das atuações excelentes do trio de personagens principais (a deusa Tilda Swinton, o ator novato em Hollywood e que viria a se tornar meu queridinho, Ezra Miller, e o maravilhoso John C. Reily), o filme fala sobre uma série de assuntos como maternidade indesejada, relações humanas de puro ódio, relacionamentos destruídos, e muitos outros temas já muito discutidos, mas quase nunca falados sob o ponto de vista mostrado na história.

Tinha muita coisa pra ser deglutida em “Precisamos Falar sobre o Kevin”, e muita coisa que incomodava, que causava desconforto, que fazia o telespectador refletir.

Mas minha história com ele não tinha acabado aí. Quatro anos depois de assistir o filme pela primeira vez, encontrei Kevin novamente. Dessa vez pelas mãos da Bruna, que me emprestou o livro que deu origem ao filme com a promessa de que eu com certeza iria achá-lo incrível. E não é que ela acertou em cheio?

Minha capa preferida do livro. Acho ela sombria e meio creep de um jeito bem fiel a história

Por mais difícil que isso possa parecer, já que o filme é mesmo excelente, o livro me envolveu mais. A escrita de Lionel Shriver parece que chega te socando na boca do estômago, em especial porque a história é contada através das cartas escritas pela mãe do garoto, Eva, para o seu marido Franklin. O que torna a realidade que ela viveu, pensou, sentiu e temeu, a nossa própria realidade.

Logo que começamos a ler as cartas, entendemos que o livro não se desenrola exatamente em ordem cronológica. Eva, em um momento futuro da história que vamos acompanhar, decide escrever para seu marido contando os fatos que a levaram até ali. Isso de uma maneira bastante crua, sem esconder nenhum sentimento ou acontecimento vividos. Tudo que desejava, tudo que sentiu, tudo que colocou em segundo lugar na sua vida, tudo que amou, tudo que odiou. Tudo que viveu e que vai sendo despejado sem cerimônia na escrita.

O encontro e casamento dos dois, a gravidez de Eva, a dificuldade do relacionamento de mãe e filho, a aversão à maternidade, os primeiros sinais de que a criança não era uma criança como as outras e muitos outros acontecimentos, sempre cheios de conflitos internos e externos, vão sendo contados para o marido e, claro, para o leitor.

Isso, aliás, é um trunfo bem grande do livro. A gente vai acompanhando a história da mãe de Kevin já sabendo que, no futuro, algo de muito ruim aconteceu. Eva está sozinha agora, destruída, em um emprego horrível, totalmente arrasada. Mas não sabemos o que de fato houve nesse meio tempo. Qual o tortuoso caminho que fez com que a inteligente e perspicaz Eva do começo da história se transformasse nessa figura amaldiçoada.

A edição que eu li, com a capa do filme

A edição que eu li, com a capa do filme

Entre os muitos assuntos que acabam surgindo ao longo da leitura, o que mais grita na nossa cara e que parece estar por trás de todos os acontecimentos que são narrados diz respeito a maldade humana. Afinal, Kevin é uma criança que nasceu má.

Mas será mesmo?

Enquanto algumas passagens do texto te levam a aceitar isso sem muitas dúvidas, outras parecem nos fazer pensar se não existe um algo mais aí. Se bem e mal são assim tão milimetricamente separados, – preto ou branco, cara ou coroa – ou se uma há uma ambivalência de sentimentos dentro de cada pessoa que pode ser despertada para um lado ou outro ao longo da vida.

E se for isso mesmo, de quem é a culpa pela escolha?

Não sinto em dizer, – já que acredito que essa é uma das coisas que tornam o livro tão excelente quanto ele é – que essas e muitas outras questões não serão respondidas ao longo da leitura. Talvez porque elas não tenham uma única resposta ou talvez porque caiba a cada um ter sua própria compreensão dos fatos narrados.

Quotes

Holocaustos não me assombram. Estupros e trabalho escravo infantil não me assombram. Franklin, sei que você pensa o contrário, mas Kevin também não me assombra. Fico assombrada quando deixo cair uma luva na rua e um adolescente corre dois quarteirões para devolvê-la. Fico assombrada quando a moça do caixa me lança um amplo sorriso, junto com o troco, quando a minha fisionomia era apenas uma máscara apressada. Carteiras perdidas enviadas aos respectivos donos pelo correio, estranhos que fornecem indicações precisas de uma rua, vizinhos que regam as plantas uns dos outros – essas coisas me assombram. Celia me assombrava.”

“Mais do que partir, eu tinha pavor de ser deixada.”

“Até o dia 11 de abril de 1983, eu me iludia com a ideia de ser uma pessoa excepcional. Mas, desde o nascimento de Kevin, estou convencida de que somos todos provavelmente de uma profunda normalidade. (Na verdade, achar que somos excepcionais é talvez a regra geral.) Temos expectativas muito definidas sobre nós mesmos em determinadas situações – para além de expectativas; são exigências. Algumas são de pouca importância: se alguém nos fizer uma festa surpresa, ficaremos maravilhados. Outras são consideráveis: se o pai ou a mãe morre, nos sentimos muito mal. Mas, talvez, junto com essas expectativas haja o medo secreto de que acabaremos desapontando as convenções, na hora do vamos ver. Que, ao recebermos aquele telefonema fatal avisando que nossa mãe está morta, não sentiremos nada. Pergunto-me se esse pequeno medo calado, inexprimível, é ainda mais agudo que o medo da má notícia em si: o de que vamos nos descobrir uns monstros.
”

Para quem se interessou pelo livro, ele tá a venda no site da Saraiva. E se você já leu, conta aqui nos comentários se gostou dele tanto quanto eu.

Bisous, bisous e até amanhã :)

Eu li: Toda Luz Que Não Podemos Ver do Anthony Doerr

Sempre admirei pessoas que conseguiam escrever narrativas boas, bem feitas e envolventes, com enredos completamente distantes daquilo que viveram. Já dizia alguém muito mais sábio do que eu: é muito mais fácil escrever sobre aquilo que você conhece. Não é menos respeitoso, – até porque escrever bem, eu acredito, é sempre algo a se admirar – mas talvez seja uma zona de conforto inteligente a se manter quando criamos uma história de ficção.

O que não é o caso de Antony Doerr, é claro.

Tudo bem que o cara é formado em História, e possivelmente já havia estudado sobre a Segunda Guerra Mundial muito mais do que eu ou você. No entanto, a infinidade de referências, fatos históricos e sensibilidade que eu encontrei em seu livro, eu arriscaria dizer que não foram aprendidos numa sala de aula.  Ainda que ficcional, o trabalho de pesquisa e a profundidade que o livro tem provam que Anthony Doerr mergulhou com tudo em uma época que ele não viveu (o escritor nasceu na década de 70), em uma história em que ele não era o protagonista (fosse no corpo de uma garota cega de 15 anos ou nos pensamentos de um jovem alemão de 16) e em uma situação, definitivamente, muito distante da vida que leva hoje em dia morando em Idaho nos Estados Unidos.

“Toda Luz Que Não Podemos Ver” é o segundo romance publicado pelo escritor e foi o vencedor do prêmio Pulitzer de ficção 2015. Ele foi tão incessantemente elogiado pela crítica e pelo público que virou um dos meus maiores desejos de leitura do final do ano passado.

Uma coisa que me chamou a atenção logo de cara foi o fato da narrativa do livro ter como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, um dos temas históricos pelos quais mais tenho curiosidade. Mas o que me prendeu de vez mesmo a essa vontade doida de ler o livro, foi o seu enredo, que parecia singelo e “bonitinho” (no melhor sentido da palavra) e que por isso mesmo causava muita estranheza. Afinal, como é que uma história aparentemente tão delicada e sensível podia se desenrolar em um cenário tão cáustico quanto o da guerra?

O livro conta duas histórias paralelas, mas que acontecem em situações e lugares completamente diferentes. Uma delas é a história de Marie-Laurie, uma garota que ficou cega aos seis anos de idade e que aprendeu a se locomover pelo seu bairro graças a maquete construída pelo seu pai, o chaveiro do Museu de História Natural de Paris. Aos 12 anos, depois de ver as ruas da sua cidade serem invadidas pelas tropas alemãs, ela e o pai fogem da capital em busca de um lugar para ficarem, e acabam se refugiando na cidadezinha de Saint Malo, onde mora seu tio, um sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. Junto com eles está um dos maiores tesouros do museu, que é confiado ao pai da menina para que ele não seja roubado pelos nazistas.

Do outro lado, temos a história de Werner, um garotinho órfão que mora junto com sua irmã em um abrigo para crianças em uma região de minas da Alemanha. Desde pequeno o menino se descobre apaixonado por rádios e ondas eletrônicas, e aos 14 anos de idade é selecionado para estudar em um colégio nazista, onde passa a trabalhar para o estado alemão desmantelando as transmissões de rádio inimigas.

Os capítulos ficam se alternando entre a história de um personagem e de outro, e de tempos em tempos a cena de abertura da história – que se passa no futuro, em 1944– volta a ganhar mais um pedacinho da sua continuação.

Os capítulos do livro, aliás, são supercurtinhos, quase sempre com uma página e meia, no máximo duas de duração, e tornam a leitura muito mais interessante. Ainda que ela seja detalhada e demore pra engatar, – não se engane, esse daqui não é um livro fácil de ler – o fato de haverem tantas mudanças de tempo em trechos tão curtos faz com que o livro fique muito mais dinâmico, deixando cada nova página mais envolvente do que a anterior.

E eu preciso dizer, de preferência em letras garrafais pra deixar bem registrado, que a escrita de Anthony Doerr é de um primor absoluto. Ele sabe usar muito bem as palavras e vai construindo as frases aos pouquinhos, até elas ganharem uma imensidão e significados gigantes na sua frente. É aquele tipo de pessoa que sabe juntar todos os grãozinhos de areia pra formar um castelo enorme, bonito, cheio de labirintos dentro de si.

“Werner fica impressionado ao perceber exatamente naquele momento como é extraordinariamente frívolo construir prédios esplêndidos, compor música, cantar canções, imprimir livros colossais repletos de pássaros coloridos diante da indiferença sísmica e controladora do mundo – quanta pretensão têm os seres humanos! Por que alguém vai se dar ao luxo de compor uma música se o silêncio e o vento são tão mais amplos? Por que alguém vai acender as luzes se as trevas vão inevitavelmente apagá-las? Se os prisioneiros russos são acorrentados a cercas, em grupos de três ou quatro, enquanto os soldados alemães enfiam granadas destravadas em seus bolsos e fogem?
Teatros para ópera! Cidades na lua! Ridículo! Todos eles fariam melhor se dessem o ar da graça quando chegassem os rapazes que atravessam a cidade carregando trenós com cadáveres empilhados.”

“É certo – pergunta Jutta – fazer algo apenas porque todas as outras pessoas estão fazendo?”

A quem interessar possa, tá aqui uma pesquisinha no Buscapé com lugares e preços onde o livro está sendo vendido. Leiam e depois me contem o que acharam!

Bisous, bisous

O que eu andei lendo nos últimos tempos

http://www.idealbookshelf.com/

Eu sei que faz um tempo que eu não falo das minhas leituras por aqui, mas acontece que essa época de final de ano me animou a ler bastante, e eu mergulhei em histórias tão legais e inteligentes que esqueci de todo o resto.

Com esse saldo de leituras totalmente maravilhoso nas mãos, eu não podia deixar de fazer um compilado aqui no blog falando um pouquinho sobre cada uma delas. Nada técnico, claro. Aliás, as minhas resenhas aqui (tô pensando seriamente em deixar de usar essa palavra) nunca seguem nenhuma regrinha não. Eu falo só sobre o que quero, o que me toca, me inspira e coisas que eu acho interessantes a respeito da obra.

Mas ó, se alguém quiser saber alguma informação sobre esses livros que eu não coloquei aqui no post, é só deixar nos comentários que eu vou ajudar no que souber. E se alguém aí quiser indicar mais leituras legais pra esse final de ano, tô super aberta a listinhas. (:

 

Todo mundo conhece a história de Peter Pan, o menino que não queria crescer, e da Terra do Nunca, lugar habitado por garotos perdidos, fadas e o temível Capitão Gancho.

Eu já assisti vários filmes com versões diferentes dessa história, mas sentia que faltava o principal: ler a obra original e entender o verdadeiro relato que deu origem a tudo isso. Por esse motivo que pirei quando ganhei essa edição maravilhosa da Zahar – ilustrada e comentada! – de Dia dos Namorados do Di. Todos os livros dessa coleção são de cair o queixo (inclusive os de bolso), e isso me deixou ainda mais empolgada, já que essa leitura é muito clássica e edições completas assim tendem a te fazer mergulhar ainda mais fundo na narrativa.

Dito e feito: J. M. Barrie se inspirou em pessoas, lugares e acontecimentos da sua vida para criar uma história de fantasia cheia de lições e ensinamentos importantes. Ninguém possui apenas uma faceta, ninguém é apenas bom ou apenas mau (coisa bastante recorrente em textos infantis) e foi só aqui no livro que eu percebi como alguns personagens, como os pais de Wendy e a próprio Sininho, são muito mais complexos e importantes pra narrativa do que parecem.

Vale ler especialmente nessa edição, que ambienta as condições e motivos que levaram à criação dessa história, e discute à fundo várias passagens maravilhosas do livro.

 

Um dos livros que li no ano passado foi “Bidu – Caminhos”, uma das HQ’s do selo Graphic MSP. Pra quem não conhece, esse é um projeto feito pelo Maurício de Souza em que ele cedeu seus personagens da Turma da Mônica para outros ilustradores brasileiros, deixando que eles criassem suas próprias releituras e histórias da turma da Rua do Limoeiro.

Bidu me conquistou tanto, mas tanto, que resolvi pedir emprestado para o Diego Dias (aka @pretobrasico no instagram) os outros livros da série. Comecei por “Laços” e fiquei muito surpresa com os traços do Vitor e da Lu Cafaggi. O trabalho da Lu eu conhecia um pouquinho por ter visto algumas ilustrações que ela fez pro livro da Bruna Vieira, o Quando Tudo Começou, mas do trabalho do Vitor eu realmente não conhecia nada. Foi uma surpresa muito boa ver o quanto eles deram vida aos personagens de uma maneira completamente original, sem interferência alguma dos quadrinhos do Maurício. Não é só no aspecto físico, mas também no tipo de história (que é fofa, mas muito adulta e sábia) que a gente vê o quanto isso fica evidente.

Nesse livro aqui, aliás, a trama gira em torno do desaparecimento do Floquinho e do plano que Cebolinha, Cascão, Mônica e Magali armam para achar o cachorrinho e trazê-lo de volta pra casa.

O livro não está entre as minhas leituras favoritas da série, mas é indiscutivelmente uma gracinha, e tô muito curiosa pra ver como isso vai ficar nas telonas, já que agora na Comic Con foi anunciado que ele vai virar filme em live-action!

 

Depois de Laços foi a vez de ler Lições, também dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi. Os traços das duas histórias são os mesmos, mas ainda que eu tenha achado Laços uma graça, Lições apertou meu peito.

Acho que o maior mérito desse livro é conseguir mostrar de maneira simples e bonita como são nos momentos mais difíceis e inesperados que aprendemos as maiores lições da vida. Tanto é que nessa HQ nós vamos acompanhando os personagens em histórias diferentes (depois de um incidente em comum) e percebendo como cada um tem seu tempo e sua maneira de aprender sobre o que fez.

É muito apaixonante e me fez ficar pensando um bocado de tempo depois que virei a última página.

 

Eu tava muito curiosa pra ler Astronauta Magnetar porque esse livro foi a primeira HQ que a Graphic MSP fez, porque ele é o preferido de muita gente e porque ele tem uma história que foi super bem criticada. E a real é que depois de ler o livro, eu achei que faz mesmo sentido todo esses holofotes que ele ganhou dentro da coleção.

As outras HQ’s do selo têm histórias bem desenvolvidas e conflitos mais crescidos do que as histórias infantis da Turma da Tômica, isso é fato. Mas ao mesmo tempo todas elas mantém um certo clima “fofo”, inclusive nos traços, que traz sempre uma moral por trás de uma história bonitinha.

Astronauta Magnetar não tem uma história bonitinha. O livro não é sutil, não tem traços sutis e não tem nada de fofo. Isso faz com que a gente se depare com um outro tipo de narrativa, que é mais triste, mais pesada, mais crua.

Chama a atenção porque é uma forma muito diferente de dar vida a um dos personagens da série, e chama a atenção porque tem uma história bem soco na boca do estômago: o astronauta fica perdido, sozinho e vendo seus dias de suprimento e sanidade se esgotarem, depois que uma peça da sua nave quebra e ele não consegue voltar para a Terra.

É um livro bem denso e eu fiquei muito maravilhada em ver como o Danbilo Beyruth conseguiu ilustrar tudo à altura, com uma atenção impressionante para os detalhes do espaço.

 

ast.

Astronauta Singularidade segue a mesma fórmula do livro anterior do personagem, mas, ainda que eu tenha achado a história aqui bem interessante, ele não teve o pra mim o mesmo efeito de Autronauta Magnetar.

É difícil fazer comparações desse tipo, eu sei, mas acho que o primeiro livro mexeu tanto comigo que eu fui ler o segundo com as expectativas lá em cima e fiquei um pouco decepcionada com o que encontrei.

Ainda assim, vale muito a pena a leitura da obra, especialmente por causa das ilustrações incríveis que ela têm. Eu diria até que mesmo que não houvessem plots inteligentes e muito bem desenvolvidos em ambos os livros, ainda assim valeria a pena olhar página por página de cada um deles e admirar as suas imagens maravilhosas.

 

Essa biografia do Steve Jobs foi publicada em 2011 e desde então eu venho alimentando essa vontade de ler o livro. Acabou que demorou quatro anos, mas finalmente eu tomei coragem pra ler as mais de seiscentas páginas que compõem essa história.

Biografias por si só não são fáceis. Pelo menos pra mim, biografias sempre exigiram mais atenção, concentração e pausas entre alguns capítulos do que outros livros em geral. É como se elas sugassem ainda mais de mim e mostrassem que entrar na vida de outra pessoa, sendo ela quem quer que seja, nunca é fácil.

Então se em geral biografias não são fáceis de serem lidas (ainda que eu tenha tido muita sorte com leituras que quase sempre valeram muito a pena), fica até meio difícil classificar uma biografia que fale de Steve Jobs. Se no lado público ele foi uma das mentes mais brilhantes dos últimos tempos, tendo revolucionado a tecnologia, o cinema e a música com suas ideias e invenções, no lado privado ele foi uma das figuras mais complexas e intrigantes sobre as quais eu já li. Alguém que por alguns momentos se mostrava de uma humildade gigantesca, com suas crenças budistas, suas meditações, seu veganismo e sua vontade de transcender, e por outro, se mostrava um escroto, abandonando a própria filha, humilhando os funcionários e sendo o rei dos narcisistas.

Jobs é alguém que tem um cérebro que eu admiro, mas que tem um coração que eu desprezo, e ler a sua biografia nesse ano foi de uma intensidade que eu nem sei botar em palavras.

 

Não é segredo pra ninguém o quanto eu gosto de Legião Urbana, então foi meio que inevitável que assim que eu ficasse sabendo desse livro, já começasse a me dar coceirinha pra comprá-lo.

A leitura dele é um pouco cansativa porque o livro não é um diário como a gente tá acostumados, com pensamentos soltos do seu escritor. A escrita aqui é muito mais organizadinha, já que os textos fazem parte do programa de reabilitação dos alcoólicos anônimos (um dos vícios do qual Renato tentava se livrar), seguindo seus doze passos e resultando em um compilado de listas (faça uma lista com situações em que você se sentiu com medo, por exemplo), melhoras do seu dia e histórias pessoais e da banda.

É um livro que eu gostei porque sabia bem do que ele falava antes de começar a leitura, mas se você não é fã da Legião ou do cantor, acho melhor nem se arriscar nas suas páginas.

E vocês, o que andaram lendo nos últimos tempos?

Bisous, bisous