Para ver o que rolou no primeiro, segundo, terceiro e quarto dia de desfiles, é só clicar nos links.

Glória Coelho

Glória Coelho

A coleção de verão 2019 da estilista Glória Coelho, responsável por abrir os trabalhos do último dia de SPFW, apresentou no palco do Teatro FAAP uma série de peças que, além de vestirem tanto meninas quanto meninos, tinham um curioso mix de referências. O tipo de mistura que só mesmo uma designer com 43 anos de experiência como Glória consegue fazer tão bem.

Na primeira parte da apresentação, ganharam destaque os looks mais despojados e utilitários, com transparências e pegada esportiva, que vão de encontro as inspirações que a marca vem incorporando cada vez mais ao seu DNA. Logo em seguida, uma profusão de looks com referência sessentinha invadiu a passarela, usando e abusando de trench coats, leggings e terninhos, mas de um jeito mais cool e menos romântico do que na época. Para fechar as referências da coleção, uma série de peças metalizadas, feitos com pastilhas e em shape de “cascata”, trouxeram um ar futurista muito bem pontuado, que parece ter agradado em cheio a sua clientela.

Não bastasse tudo isso, Glória ainda incorporou à sua apresentação uma coleção cápsula de bolsas, camisetas e até tênis inspirada na animação “Os Incríveis 2”, da Disney Pixar. Filme que, aliás, chega em junho nos cinemas do Brasil e que ajudou a trazer ainda mais bossa para a coleção.

Amapô

Amapô

Que a Amapô sempre foge à regra e faz seus desfiles de maneira muito criativa a gente já sabe, mas para essa temporada a marca parece ter caprichado ainda mais e, como resultado, ter feito a apresentação mais divertida e cheia de estilo dessa edição.

Partindo de um processo não muito comum em coleções, os looks foram pensados a partir de um casting de amigos e personalidades da internet escolhidos a dedo pela dupla Pitty Talliani e Carol Gold (os nomes por trás da Amapô), de forma que cada uma dessas criações tivesse a ver com seus estilos e personalidades. Com a inspiração mor da coleção vinda dos anos 80 e 90, época da adolescência das designers, muitas das peças foram construídas a partir de uma mistura de diversas outras roupas resgatas em brechós, trazendo um sopro do que foram essas décadas misturadas a referências atuais. Cores fortes, grafismos, uma homenagem ao universo pop e muita diversão, até no jeito dos modelos se moverem e se expressarem na passarela, foram destaques na apresentação.

A maquiagem, importantíssima no processo de construção de cada personagem desfilado, foi feita pelo artista Lau Neves, e os óculos superousados e nada convencionais foram assinados pela Chilli Beans.

Ratier

Ratier

Fã confessa que sou do trabalho da Ratier e de seu DNA preto e branco, foi com surpresa e também felicidade que vi nesse desfile a marca dar um toque de cor a sua coleção com peças em tons flúor. A escolha, aliás faz muito sentido, afinal a grande inspiração de seu inverno 2019 veio da música eletrônica, do som pulsante e da geração millenial, que usa muito das cores e da própria moda para atestar seu lugar no mundo.

Em uma mistura muito bem feita entre alfaiataria e sportwear, a marca foi de tecidos com textura amassada até jaquetas perfecto e terno oversized, brincando com esses dois estilos em um mesmo look e abusando de acessórios chamativos como as botas de snakeprint para arrematarem o visual.

Um desfile bastante jovem, bonito e bem feito, que ajuda a engrandecer ainda mais o trabalho da Ratier na cena de moda nacional.

Ronaldo Fraga

Ronaldo Fraga

De longe o desfile mais emocionante dessa edição, a coleção desfilada por Ronaldo Fraga no último dia de SPFW presta uma homenagem a toda a população e área atingida pela catástrofe da barragem de Mariana, contando sobre o processo de recuperação dessas pessoas e desse local depois da tragédia.

Tudo começou quando Ronaldo foi visitar a cidade de Barra Longa e lá conheceu algumas artesãs da região que perpetuam um importantíssimo e ancestral trabalho mineiro de bordado. Assim como as outras pessoas do lugar, elas também foram drasticamente afetadas pela ruptura da barragem da empresa Samarco, e, para elas, o bordado vêm servindo como uma forma de resistência, ocupação e reconstrução depois de tudo isso. Ronaldo então teve a ideia de chamá-las para participarem da coleção, bordado algumas plantas da região que sumiram devido ao desastre.

Na apresentação, a passarela toda imitava um rio de lama, que continuava na própria roupa das modelos, mas que, aos poucos, ia se desanuviando com a chegada do verde. As plantas e flores bordadas, aliás, apareceram das mais diferentes formas: vazadas, sobrepostas, penduradas, em detalhes ou em looks inteiros. E, a elas, aos poucos se juntaram também retratos de família, como uma memória não apenas do lugar, mas das vidas que viveram ali.

Um trabalho extremamente poético e delicado de Ronaldo, que coleção após coleção, continua a mostrar como a moda também pode ser artística, política e reflexiva.

Handred

Handred

Com um DNA muito bem definido e sabendo exatamente aonde quer chegar e quem é seu público-alvo, a Handred fez uma estreia bastante bela no SPFW. Tomando como inspiração uma viagem que o designer André Namitala fez ao Marrocos no começo do ano, a marca mostrou uma coleção de peças com excelente corte, que equilibram muito bem o conforto a elegância.

Fundada em 2012, a Handred se define como uma grife de roupas atemporais, agênero e que trabalha apenas com tecidos de fibras naturais, como algodão, linho e seda. As roupas mostradas na passarela do SPFW traduziram isso muito bem, mostrando looks que parecem uma delícia de usar, como os conjuntinhos com cara de sleepwear, e que prezam por cortes mais retos e amplos – formando ao mesmo tempo uma moda descomplicada e chique.

A cartela de tons variados, os tecidos fluidos, as estampas colocadas em lugares estratégicos e a atenção dada aos detalhes – como nos punhos e pulsos das camisas -, me conquistaram do começo ao fim, fazendo dessa, na minha opinião, a melhor estreia da temporada.

Juliana Jabour

Juliana Jabour

Apostando mais uma vez na veia sportwear que já acompanha a marca há algum tempo, a estilista Juliana Jobour decidiu, dessa vez, pegar como inspiração alguns esportes radicais das Olímpiadas de Inverno para traçar os primeiros shapes das peças da sua nova coleção. E foi além: fez do nylon e do tactel as grandes estrelas do seu desfile.

Misturando uma modelagem oversized com elementos streetwear, grafismos e toques românticos (com a inserção de bordados e mangas bufantes), Juliana fez um mix interessante na passarela. Não faltaram calças joggings e moletons, assim como as cores brancas e off-whites que serviam sempre como ponto de partida para o aparecimento de outras cores nos looks. Tudo isso feito com muita expertise, consolidando cada vez mais a grife entre as grandes marcas nacionais de estilo esporte fino.

João Pimenta (feminino)

João Pimenta (feminino)

O último desfile da temporada, comandado por João Pimenta novamente, só que agora visando o público feminino, foi a tradução mais clichê da expressão “fechando com chave de ouro”. Afinal, ainda que tenha começado a carreira criando roupas para mulheres, foi com a moda masculina que João de fato se estabeleceu, ficou conhecido e sempre se apresentou, fazendo com que esse seu desfile tivesse uma cara de estreia. E uma estreia muito bonita, vale a pena dizer.

Segundo o próprio estilista, voltar a criar peças de proporções e modelagens tão diferentes foi um tanto quanto estranho no começo, mas necessário devido a demanda de mulheres que frequentavam a sua loja, e que, mesmo com roupas muitas vezes andróginas e com uma pegada feminina, ainda não encontravam ali o que estavam procurando. Assim nasceu a ideia dessa coleção, que foi buscar na roça suas principais inspirações.

Subvertendo algumas ideias preconceituosas do mundo da moda, João usou a chita – tecido muito desvalorizado na indústria – em junção com a seda para criar grande parte das peças. A coleção toda, aliás, procurava juntar elementos considerados “menos nobres” com alguns considerados sofisticados, criando uma imagem muito interessante e crítica sobre a visão que temos da cultura caipira e daquilo que vem do campo. Vestidos que lembravam um avental, saias midi, estampas xadrezes e a sobreposição de tecidos e recortes apareceram em vários dos looks.

Um trabalho muito belo de João Pimenta que, espero eu, perdure ainda por muitas outras temporadas.

Fotos: Zé Takahashi/Ag. FOTOSITE para o FFW

Fotos Ratier: Rafael Chacon/Ag .FOTOSITE para o FFW