No último sábado teve início mais uma edição do SPFW. A de número 45, para ser mais exata.  E, assim como em todas as outras edições em que é escolhido um tema como norte do evento, dessa vez a liberdade criativa foi a grande homenageada da vez, dando especial ênfase ao trabalho visceral e muito inspirador do estilista Conrado Segreto.

Para quem não conhece a história de Conrado, vale abrir uns parênteses aqui nesse texto e explicar um pouquinho do trabalho desse designer. Conrado Segreto foi um importantíssimo nome da moda nacional durante os anos 80, década em que seu trabalho ficou conhecido e se tornou um verdadeiro alvoroço no cenário fashion brasileiro. Famoso por criações extremamente elegantes, mas que sempre tinham algo de diferente e inovadoras em relação a outros estilistas da época, Segreto teve uma carreira curta, mas extremamente intensa. Ele fez história em poucos anos, e teria feito muito mais pela moda brasileira, se em 1992, ainda com 32 anos de idade, não tivesse falecido em decorrência da AIDS.

Em vista de tudo isso, nada mais justo do que homenagear alguém tão importante e – talvez pelo pouco tempo de reconhecimento – tão esquecido quando falamos de designers nacionais. Para isso, nessa edição, uma série de fotógrafos e stylists foram chamados para através de um acervo de arte plumária, roupas, textos e ilustrações de Conrado (que era um exímio desenhista!), traçar paralelos com o trabalho do estilista em fotografias muito impactantes.

Esse trabalho foi todo exposto na mostra “POW! Explosão Criativa”, que para minha surpresa e felicidade, no domingo ficou aberta para o público em geral. Coisa rara de se ver no SPFW, que vire e mexe tem mostras muito interessantes, mas que ficam restritas apenas ao público do evento.

Para quem, assim como eu, não pode ir à exposição, mas ficou curioso, aqui nessa galeria do FFW tem algumas fotos dessa apresentação. Vale a pena o clique.

Croqui de Conrado Segreto

Ilustração de Conrado Segreto | FFW

O SPFW, no entanto, além de seus temas, mostras, homenagens e lojinha, tem ainda um grande acontecimento nas suas edições, responsável pelo surgimento do evento e pelo que ele se tornou hoje em dia: seus desfiles, é claro. E foram eles que deram start nessa temporada, ainda no sábado, com a apresentação de uma marca e um projeto muito inspirador.

Água de Coco por Liana Thomaz

SPFW N45: o que rolou no primeiro dia

Abrindo os trabalhos dessa edição, a Água de Coco veio mais brasileiríssima do que nunca. Com uma coleção que homenageava o nosso país e apostava em estampas de clima tropical (como folhagens e o personagem Zé Carioca), a marca trouxe para a passarela um casting variado de modelos, com idades, shapes e etnias diferentes. A cartela de cores transitou entre o verde-musgo, o amarelo-ouro, o preto e o grafite, e tanto os homens quanto as mulheres apareceram com looks que usavam e abusavam dos poás, babados e peças esvoaçantes.

Além disso, nos biquínis que apareceram em grande parte da apresentação, as partes debaixo em asa delta predominaram, bem como a presença de peças facilmente usadas “na cidade” que já nas últimas coleções vinha tirando o selo 100% beachwear da Água de Coco.

O desfile foi aberto e encerrado pela participação da cantora Anitta, que ao vivo arrasou ao som de Ary Barroso, e serviu pra coroar de vez a apresentação.

Projeto Ponto Firme

Projeto Ponto Firme

A presença do Projeto Ponto Firme no line-up oficial do SPFW é, de longe, uma das coisas mais legais que eu já vi na semana de moda de São Paulo. Pensar que um projeto que nasceu dentro de uma penitenciária de Guarulhos hoje ganha as passarelas da maior semana de moda do Brasil é, pra mim, a essência e importância da moda como agente transformadora da nossa sociedade.

A história desse projeto (que é sem fins lucrativos e registrado na Secretaria da Educação do Estado), começou quando o designer Gustavo Silvestre passou a dar aulas de crochê para alguns detentos de Guarulhos (isso mesmo, no masculino!) visando a ressocialização e remissão de pena desses presidiários. Só que o interesse deles pelas aulas foi tão grande que o projeto cresceu, transbordou e virou uma ferramenta de expressão e trabalho muito forte dentro da cadeia.

Nessa edição do SPFW, o resultado de todas essa empreitada foi mostrado, apresentando roupas que mais do que extremamente criativas, são o reflexo de seus desejos, desabafos e histórias. Um ofício que, torço muito, seja levado para além da penitenciária, e que seja uma forma de reintroduzir essas pessoas na sociedade mudando drasticamente suas histórias.

Beijos e até amanhã

Fotos: Zé Takahashi/Ag. FOTOSITE para o FFW