Essa edição do SPFW foi muito diferente de todas as outras.

Foto do FFW mostrando a entrada do evento feita Kleber Matheus e que ficava toda iluminada em neon à noite

A entrada do evento foi feita pelo artista Kleber Matheus e ficava toda iluminada em neon à noite. Foto: Agência Fotosite para o FFW.

Pra início de conversa, a sigla TRANS, de transição, foi acrescentada ao nome do evento, em uma referência as mudanças que estão acontecendo na semana de moda de São Paulo e que passam a valer já na próxima edição.

Uma dessas mudanças é a assimilação do sistema “see now, buy now”, que em resumo (um dos links daqui de baixo se aprofunda mais nesse tópico) consiste na venda imediata (ou quase isso) das coleções apresentadas na edição, de forma que não haja um espaço de tempo tão grande entre o desfile e a chegada das roupas às lojas. Isso implica também na mudança do calendário verão/inverno, já que agora as marcas que adotarem esse modelo passarão a desfilar com peças da estação em vigor.

Além disso, a partir do ano que vem, o SPFW passa a acontecer nos meses de março e agosto, em uma forma de ajustar esse novo sistema com as engrenagens do mercado têxtil.

O corredor da entrada do evento dava direito para uma arvorezinha <3 Foto: Agência Fotosite para o FFW.

O corredor da entrada do evento dava direito para uma arvorezinha muito fofa e, em seguida, para a área de livre circulação. Foto: Agência Fotosite para o FFW.

Mas as diferenças não pararam por aí. Nessa edição, o SPFW deu um rápido adeus a Bienal e foi acontecer ali do ladinho, em uma tenda montada no meio do Parque Ibirapuera, ao lado do Museu Afro Brasileiro. O espaço ficou totalmente diferente, inclusive com uma parte aberta para o parque, cheia de espreguiçadeiras bem gostosas que serviam como uma pausa muito bem-vinda em meio a correria da semana de moda.

Por causa do espaço reduzido havia apenas uma sala de desfile no local e o line-up (que já foi mais enxuto do que o normal porque algumas marcas precisaram pular a edição para conseguirem ajustar sua produção), acabou tendo que se dividir em muitas apresentações externas. O que, ainda que complique a vida da imprensa e deixe o calendário cheio de horários malucos, acabou se mostrando interessante e até quase que imprescindível para os desfiles de algumas marcas.

Foto do FFW mostrando as cadeira estilo espreguiçadeiras que ficavam na área externa

As cadeiras estilo espreguiçadeiras que ficavam na área externa da edição e que quase fizeram eu tirar um cochilo no final da tarde de sexta-feira. Foto: Agência Fotosite para o FFW.

Como de praxe dei um pulinho no último dia do evento, sexta-feira, pra conferir in loco alguns desfiles e toda a estrutura dessa fase de transição. A visita, aliás, foi bem menos corrida do que nas últimas vezes, já que havia um espaçamento bem grande entre os desfiles que eu assisti e, assim, pude fazer uma coisa que quase nunca consigo: visitar os stands e participar das ações de cada um. Tirei foto polaroid no stand da Instax 70, brinquei de boomerang com os canudos personalizados da Coca, tomei um Magnum de creme brulé maravilhoso que tavam dando no carrinho da marca e fiz mais um monte de outras atividades que em anos de SPFW nunca tinha conseguido fazer.

E, claro, assisti a algumas apresentações. Duas, para ser mais exata.

Vi dois desfiles nesse dia, e ainda que os dois tenham sido completamente diferentes e com propostas quase que extremas, foi ótimo assistir duas apresentações que tiveram destaques bem positivos pra essa edição.

Highlights do desfile da MEMO. FOTO: Ze Takahashi da Agência Fotosite para o FFW.

Highlights do desfile da MEMO. Foto: Ze Takahashi da Agência Fotosite para o FFW.

O primeiro desfile que assisti foi o da Memo, marca fitness da Patricia Birman, herdeira do Grupo Arezzo, que fez sua estreia no SPFW. Eles já haviam feito uma parceria com a estilista Lollita antes e resolveram repetir a dobradinha para essa coleção (pelo que foi divulgado pela marca, a cada nova edição da semana de moda um estilista diferente será convidado a preencher esse cargo).

Ainda que eu tenha ido com zero de expectativas assistir ao desfile, achei tudo bem fresco, e uma combinação que de cara asim não me parecia muito animadora, acabou rendendo um bom resultado na passarela e fazendo muito sentido pra esse momento em que vivemos, onde o sportwear já mostrou que tem espaço além das academias faz tempo.

Em seguida foi a vez de ver o maravilhoso João Pimenta. E ainda que ele sempre faça um trabalho muito bonito (tenho amigos – e amigas também! – que brincam que se fossem rico teriam apenas João Pimenta no armário), ele conseguiu se superar nessa edição e criar uma coleção masculina extremamente bonita, que é bastante conceitual em muitos aspectos, mas, que ao mesmo tempo, consegue mostrar força de mercado e um ar fresco para o que se vê da moda masculina atual.

Highlights do desfile do João Pimenta. FOTO: Ze Takahashi / FOTOSITE para o FFW

Highlights do desfile do João Pimenta. Foto: Ze Takahashi da Agência Fotosite para o FFW

Como teve muita gente da imprensa fazendo um trabalho bem incrível nessa edição, com pautas que permeavam muito além de tendências e críticas de desfiles (que eu gosto muito também, diga-se de passagem!) achei que valia a pena compartilhar alguns links por aqui.

Leiam, vejam e compartilhem – porque eles merecem.

Transgressão foi a palavra que definiu este SPFW

Agência Fotosite

Foto Agência Fotosite

A maravilhosa da Vivian Witheman fez um balanço desse SPFW pro site da Elle Brasil, e nele ela fala sobre alguns momentos muito especiais dessa edição que foram de extrema importância pra história do evento e da própria moda brasileira. Entre eles está o desfile de Ronaldo Fraga e da LAB, marca comandada pelo Emicida e pelo Fióti.

Diferente de apenas pincelar o que aconteceu nas apresentações, Vivian faz (como sempre) uma análise profunda da situação e do que ela representa dentro da “alta roda da moda brasileira”, mostrando como o trans do nome do evento já parecia ser um prenúncio de todas as transgressões que estavam por vir.

Veja-agora-comprZzzzzz

Lá no Petiscos, a Mariana Inbar explicou mais detalhadamente no que consiste esse sistema do “see now, buy now” e como ele repercutiu nas marcas internacionais que já adotaram esse mecanismos nas suas últimas coleções.

O texto todo é bem interessante não apenas pra se entender melhor essa mudanças, mas pra se avaliar até que ponto ela é de fato positiva (ou não) para a moda.

Ronaldo Fraga fala ao FFW sobre a moda como ato político

O final do desfile de Ronaldo Fraga. FOTO: Gabriel Cappelletti | Agência Fotosite

O final do desfile de Ronaldo Fraga. Foto: Gabriel Cappelletti da Agência Fotosite para o FFW

A jornalista Juliana Lopes do FFW escreveu um texto desmembrando o desfile de Ronaldo Fraga em muitas nuances, desde a importância da mensagem passada pela coleção, até o casting de modelos escolhido e a história por trás das roupas mostradas.

Pincelado com algumas falas do próprio Ronaldo logo após o desfile, é ainda mais emocionante olharmos assim, com lupa de aumento, cada detalhe dessa apresentação, percebendo a importância dela não apenas pra moda, mas para a problematização de uma questão tão brutal que enfrentamos no Brasil.

Quem merece nosso shot?

Já na página do facebook do Altas da Moda, um canal de moda bem maneiro feito pelo trio de jornalistas Luigi Torres, Giuliana Mesquita e Guga, rolaram lives de todos os dias do evento e um vídeo de encerramento da temporada com os destaques da edição.

Vai ter gorda no SPFW, sim!

Ainda que feito de forma bastante humorada, o vídeo gravado por Juliana Romano e Lucas Castilho para o seu canal, o “A Gorda e o Gay”, lança um questionamento bem interessante “A moda ama os gays e odeia as gordas?”.

A pergunta que não quer calar é o ponto de partida para os dois buscarem indícios de uma representatividade de mulheres gordas no evento e – o que é uma pequena, mas importante mudança nesse cenário – encontrarem ao menos uma modelo dentro dessas características.

Vamos falar sobre os preços?

Ainda que não seja nenhuma cobertura do evento, quis encerrar esse post com um texto postado hoje no site do Laboratório Fantasma falando sobre o preço da coleção LAB Yasuke. Mais do que uma marca que traz um preço acessível pra diversas camadas da população brasileira, é muito, muito importante e legal ver a preocupação da LAB de explicar o motivo dos preços, a cadeia de produção e a história por trás das roupas e de tudo isso.

É um exemplo pra inúmeras outras marcas do nosso país, vocês também não acham?

Bisous, bisous e bom final de semana!