Descobri Los Hermanos aos quinze anos de idade. E quando eu digo descobrir, eu tô querendo dizer descobrir por completo, sem nada pela metade, mergulhando fundo em todas as composições da banda.

Anna Julia, a primeira música que fez eles estourarem pro mundo, foi lançada em 1999.  Ela virou hit em tudo quanto era canto do país e não havia um jovem em pleno começo dos anos 2000 que com acesso a TV, nunca tivesse visto o clipe da música, com Mariana Ximenes dançando em um bailinho de escola enquanto a banda tocava ao fundo.

Então é claro que eu já havia visto o grupo algumas vezes, mas até então pra mim eles eram apenas uma banda desconhecida, com um single bonitinho tocando nas rádios.

Corta pra seis anos depois. Começo de 2005 e eu, do alto dos meus 15 anos de idade, doida de vontade de escutar a playlist que uma amiga havia feito e me emprestado em um CD. Foi aí, no meio de outras várias canções nacionais que estavam virando famosas na época que eu escutei Primavera, música do primeiro CD (homônimo) do grupo.

Primavera era suave, bonita, romântica – sem ser melosa – e inteligente. E eu gostei demais do que ouvi. Mas gostei mesmo. E decidi procurar mais coisas que aqueles garotos escreviam e cantavam de um jeito único.

O começo foi meio chocante. As canções era melancólicas pra caralho. Mas tinham umas coisas mais agitadas no meio também, umas críticas inteligentes, umas histórias bem contadas, um jeito de escrever música que eu nunca tinha visto antes, mas que me encantava. Era uma coisa meio louca, mas muito, muito, muito boa.

Minha adolescência foi moldada por músicas e os Los Hermanos foram uma das maiores influências nessa área. Eu descobri a banda na época de seu último CD e tentei recuperar o tempo perdido escutando tudo, cantando tudo a plenos pulmões e esmiuçando cada um dos versos de suas músicas. Eu peguei os últimos anos de banda, quando o grupo já tinha sofrido grandes mudanças (especialmente do primeiro para o segundo álbum), e aprendi a gostar de cada uma das suas fases, aprendi a sentir um quentinho bom no peito com cada uma das suas declarações, com cada uma das suas canções.

Olhando pra todo esse histórico da banda e pro quanto eles sempre colocaram de sentimento nas suas músicas, faz total sentido o processo catártico que foi usado na gravação dos últimos três álbuns: ir pra um sítio no meio do nada, com quase nada de acesso ao “mundo real”, e ficar por lá durante dois meses inteirinhos, compondo, cantando, tocando e criando melodias.

As coisas fluíam naturais assim, como eles mesmo gostavam de dizer, e os quatro podiam criar um trabalho de fato deles, sem influência de gravadoras e sem pressão da mídia.

O reconhecimento acabava vindo por outros meios, como a legião de fãs absurda da banda que se criou aqui fora – e que muitas vezes foi taxada de chata, mas que na real tava pouco ligando pra esse tipo de coisa.

De lá pra cá já se passaram dez anos de admiração pela banda e oito desde que eles anunciaram a separação, em 2007.
Um tempo que serviu pra eu entender ainda melhor algumas das coisas que eles cantavam e pra ter ainda mais dimensão do quanto eles foram importantes pra música brasileira dos últimos anos. Como quando a gente passa a olhar alguma coisa de forma muito mais crítica e madura, e vê que ela é muito mais do que apenas “bonitinha”. É inteligente mesmo, é humana, é de emocionar.

Por isso que no começo desse ano, ao saber que eles fariam uma nova turnê especial pra relembrar os velhos tempos – a primeira foi em 2012 e deu origem a um documentário que tem o mesmo título desse post “Esse é só o começo do fim da nossa vida” – eu sabia que agora era a hora de finalmente realizar uma das minhas maiores vontades de quando adolescente, e de prestigiar uma banda que merece ser lembrada, que conquistou um espaço importante demais na nossa música.

Eu posso dizer que o que aconteceu no último sábado na Arena Anhembi, ao lado de outras 30 mil pessoas, muitas que como eu, assistiam a um show deles pela primeira vez, foi um presente que eu dei pro meu eu de dez anos atrás. Foi um presente que eu dei pra aquela garota que escrevia as letras de música das suas bandas preferidas em um caderno e que aprendeu que a música era uma das maneiras mais bonitas de se expressar. Pra aquela garota que amava escrever, que sonhava em ser jornalista, e que sabia que algumas canções conseguiam tocar tão fundo quanto uma boa história.

Mas não é só isso. O show de sábado na Arena Anhembi foi um presente pro meu eu de agora também. Pra garota que não tem mais um caderno com as letras das suas bandas preferidas, mas que continua a achar que alguns grupos e cantores conseguem fazer dos versos de uma música um lugar lindo pra se repousar.

E uma certeza que eu tenho é que desse presente que eu vou lembrar pra sempre, especialmente quando, distraidamente, eu escutar alguém cantarolando uma canção dos Los Hermanos por perto.

Bisous, bisous