Há um tempinho postei no facebook do blog a capa da Vogue Itália de fevereiro. Na época, lembro que comentei que uma das coisas que mais admirava na publicação era essa capacidade que ela tem de pegar temas “podres” – sendo eles do mundo da moda ou não – e falar sem medo, mas também sem soar superficial ou marqueteira. Como no editorial “Água e Óleo”, publicado na revista em agosto de 2010, e que é até hoje lembrado quando falamos de editoriais que não só saíram da zona de conforto e da “beleza padrão” que esperamos dessas fotos, como ainda trouxeram à tona um tema muito importante e necessário de ser discutido. E que contrariando todas as expectativas estava sendo mostrado – vejam só que coisa mais louca! – em uma revista de moda. E, vejam só vocês que coisa mais louca ainda, sem soar panfletário (alô desfile-passeata da Chanel)!

A questão é que a Vogue Itália deveria ser regra e não exceção. Não que editoriais fantasiosos ou de temas corriqueiros não deveriam mais ter espaço. Tem espaço pra todo mundo, gente, fiquem tranquilos. A questão é que a moda deveria funcionar muito menos como ditadora de regras e muito mais como reflexo da sociedade, cabendo a ela sim tratar de temas sociais, políticas, ambientais, culturais… Cabendo a ela sim botar o dedinho na ferida e falar “então, amiga, o mundo não vive em uma bolha e milhares morrem de fome na África, mulheres sofrem com um padrão de beleza terrível imposto a elas, pessoas são perseguidas diariamente pela orientação sexual que possuem…”

A moda como um todo se inspira e é inpirada na sociedade. E a sociedade não é só casaco caro e bolsa de grife. A sociedade tem muito a dizer, muito problema pra enfrentar, muita alegria também pra comemorar. E por que é que a moda não pode falar disso tudo? Por que, hein?

Nesse mês a Vogue Itália decidiu falar de um tema espinhoso que critica a própria indústria da moda: as oficinas de costura espalhadas pelo mundo que escravizam seus funcionários. O tema não é novidade, mas o problema parece estar muito londe de chegar ao fim. Todo dia a gente fica careca de ver notícias sobre o assunto sendo divulgadas. São pedidos de socorro que chegam em etiquetas, são reality shows que tentam mostrar a realidade dessas oficinas pra quem não faz nem ideia do que se passa ali dentro, são operações relatadas nos jornais que conseguem resgatar pessoas que trabalham em condições desumanas.

Sob o título de “The Heart of The Machine”, o editorial fotografado por Steven Meisel traz fotos bem escurecidas e cheias de sombras, tirando qualquer tipo de emoção trazida pelas cores, o que dá ainda mais ênfase a seriedade e ao clima pesado do ensaio. As fotos enfatizam as péssimas condições do local de trabalho, o serviço repetititivo, a exaustão das trabalhadoras e a pouca comida sendo ingerida às pressas. Uma realidade dura, suja e assustadora.

Dá pra notar que houve um cuidado muito grande, tanto por parte do fotógrafo quanto por parte de quem fez a produção do editorial, em mostrar que apesar de ser uma “sessão de fotos de moda”, o tema mostrado foi tratado com seriedade. As imagens não soam pejorativas, não querem transformar o problema em algo glamourizado ou simplesmente criar polêmica em cima do tema. Pra mim, soa uma discussão séria, uma forma encontrada pela revista e pelo fotógrafo de fazer uma crítica social da forma como eles podem e através do veículo que estão representando.

Se a moda caminha pra frente e representa o novo, nada mais óbvio do que ela servir como um reflexo do que acontece no mundo. Do que há de melhor e pior, do que há de mais belo e de mais sujo. Que ela seja, portanto, mais crítica em relação a sociedade que a usa e muito menos do que usa a sociedade.

The Heart of The Machine – Vogue Itália (fevereiro de 2015)
Fotógrafo: Steven Meisel
Stylist: Marie-Amelie Sauve
Maquiagem: Pat McGrath for Dolce and Gabbana Make Up
Cabelo: Jimmy Paul for Bumble and Bumble
Modelos: Lexsi Boling, Ine Neefs, Vanessa Axente & Julia Bergshoeff
Cenário: Mary Howard

Bisous, bisous