Uma das maiores lendas do cinema e de toda a história de Hollywood, Edith Head não atou em frente às câmeras e nem mesmo coordenando o set. Com seus óculos de aro grosso, baixa estatura e franja simétrica, Edith trabalhou foi mesmo por trás dos cenários e produções, como a figurinista responsável por filmes produzidos na Paramount, onde ficou 29 anos, e na Universal, onde trabalhou os últimos 11 anos de sua vida. Ao todo ela teve 35 indicações ao Oscar e dessas, levou oito vezes a estatueta pra casa.

>> Para ver os croquis de Edith com mais detalhes, é só clicar na imagem que ela abre grandona! 😉

O primeiro Oscar de Edith veio com Tarde Demais, romance de 1949 que já estreou com gostinho de sucesso, afinal o casal principal era interpretado por Olivia de Havilland e Montgomery Clift, atores que já haviam sido indicados ao Oscar outras vezes (Olivia já tinha até levado uma estatueta pra casa) e que mais tarde se tornariam lendas do cinema por suas interpretações em “E o Vento Levou…” e “Um Lugar ao Sol”.

Até 1966 a academia premiava figurinos em duas categorias, os em preto e branco e os coloridos, e Tarde Demais concorreu entre os p&b. Os figurinos usados por Olivia, que no filme fazia o papel da pobre garota rica, solitária e tímida que descobria o primeiro amor, eram produções extremamente volumosas e cheias de babados. Roupas bastante austeras, que ainda seguiam a moda e os padrões da época de ouro de Hollywood. Para entender um pouco mais do espírito do filme, é interessante dar uma olhadinha no trailer criado para o longa, que é no mínimo bem bizarro.

Fiquei com essa sensação incômoda de que a prioridade foi mais de montar um “hall de estrelas de Hollywood” e uma história de amor quadradinha, do que a de realmente apresentar uma sinopse interessante para o público. E vale dizer: além do figurino em preto e branco, Tarde Demais ganhou o Oscar de melhor atriz, melhor direção de arte em preto e branco e melhor trilha sonora de comédia ou drama, e foi ainda indicado a melhor filme daquele ano.

A Malvada é até hoje um dos filmes mais importantes da história do Oscar. Ele teve 14 indicações à estatueta, um recorde que só foi igualado em 1997 por Titanic. O filme conta a história de uma aspirante à atriz de Hollywood que se torna auxiliar de uma estrela do cinema (a incrível Bette Davis) e passa a usar desse posto e da confiança das pessoas do ramo para alcançar a fama.

Eu nunca assisti esse filme, mas fico muito curiosa em fazê-lo porque ele se tornou um marco para o cinema, com uma história focada em poucos personagens e que se baseia principalmente em diálogos maravilhosos. Seu figurino empresta todo o charme e glamour de Hollywod e trabalha com terninhos e vestidos bem charmosos e exuberantes, principalmente os usados por Bette Davis. E, além de tudo isso, há ainda um detalhe muito especial nessa história: a atuação da linda Marilyn Monroe em um dos seus primeiros papeis importantes no cinema.

Além do Oscar de melhor figurino em preto e branco, a Malvada levou pra casa também as estatuetas de melhor filme, melhor direção, melhor ator coadjuvante (George Sanders), melhor som e melhor roteiro. Aqui tem o trailer pra quem quiser assistir.

Porque não basta ganhar o Oscar de melhor figurino em preto e branco por A Malvada. Edith Head é mesmo destruidora e vai lá e ganha também, no mesmo ano, a estatueta de melhor figurino colorido.

O responsável pela premiação foi o longa “Sansão e Dalila”, um filme bíblico e épico da história do cinema que também ganhou o Oscar nas categorias de melhor efeitos visuais e melhor direção de arte. É por aí que a gente vai vendo a importância dada a construção visual dessa história, que, afinal, tem mesmo uma imagem muito forte por trás de si devido ao período temeroso e conflitante em que se passa: o do Velho Testamento.

As roupas usadas no filme são de cair o queixo. Extremamente sensuais e suntuosas, tudo parece respirar riqueza, com joias em todos os detalhes.  Por essa imagem aqui, dá pra gente ter uma ideia…

Não é qualquer filme que recebe nove indicação ao Oscar e acaba levando seis estatuetas pra casa. Assim como também não é qualquer filme que consegue unir Montgomery Clift e Elizabeth Taylor como um casal-sensação parte de um triângulo amoroso. E olha que esses são só alguns dos motivos que fizeram de “Um Lugar ao Sol” um filme tão inesquecível, que vive servindo de referência e inspiração para outros longas.

Uma das coisas mais legais de behind the scenes de “A Place in The Sun (amo o som da pronúncia desse título em inglês!) é que foi nele que Edith e Elizabeth passaram a travar uma parceria que duraria para o resto de suas vidas.  Edith Head finalmente encontrou alguém que vestia suas criações como ninguém e Elizabeth Taylor achou uma profissional que entendia suas vontades como nenhuma outra pessoa antes fizera. A amizade entre as duas era tão grande que essa sintonia transpareceu também na tela: o vestido tomara que caia de tule branco desenhado pela figurinista e usado pela atriz se tornou uma das peças mais aclamadas da história do cinema.

Um Lugar ao Sol levou o Oscar de melhor figurino em preto e branco, melhor direção, melhor montagem, melhor fotografia em preto e branco, melhor trilha sonora de comédia ou drama e melhor roteiro. Aqui tem o trailer pra quem quiser dar uma olhadinha.

Já teve post aqui no blog sobre A Princesa e o Plebeu, esse filme gracinha que apresentou Audrey Hepburn ao mundo. O filme por si só tem uma história extremamente bonita e delicada, mas que se tornou ainda mais interessante com a presença da atriz novata que conquistou Hollywood num piscar de olhos.

No começo das gravações, Edith Head encontrou dificuldades nas roupas de Audrey: segundo a figurinista, a menina era muito peculiar e cheia de defeitos (!), possuindo seios muito pequenos, quadris estreitos, pés enormes e um pescoço muito longo, o que foi contornado com o uso de muitos lenços e golas altas nas gravações. Mesmo com esses “obstáculos”, a figurinista conseguiu deixar a atriz (ainda mais) deslumbrante, fazendo com que as roupas do filme não apenas acompanhassem a transição da princesa em plebeia, mas que se tornassem quase que um outro personagem da história.

A Princesa e o Plebeu tem um trailer tão bonitinho quanto o filme e ganhou o Oscar de melhor figurino em preto e branco, melhor atriz e melhor roteiro de história para cinema.

Se vestir Audrey Hepburn era realmente difícil para Edith Head, não foi isso que a impediu de fazer seu trabalho bem feito. Tanto que no ano seguinte a Roman Holiday, lá estava a figurinista ganhando mais uma estatueta por Sabrina, filme também estrelado pela atriz.

Vale lembrar, no entanto, que esse filme teve um toque de midas em seu figurino que foi além do talento de Edith, já que a bela Audrey contou com a ajuda do mestre Rubert de Givenchy para vesti-la. E que ajuda! Givenchy montou um guarda-roupa inteirinho para a atriz, fazendo uma parceria com Audrey que seria um sucesso em muitos de seus filmes, mas também fora das telas, onde a atriz sempre desfilava com roupas do estilista.

Sabrina portanto pode ter seus créditos divididos entre a dama do cinema, Edith Head, e o mestre da elegância, Hubert de Givenchy (apesar das más línguas dizerem que a figurinista ficou morta de raiva pela situação e nem dividiu a honra do Oscar com Hubert), mas também – e principalmente – pela construção da história que casa tão bem com os figurinos apresentados. Ainda que o enredo da “gata borralheira” possa ser batido, Sabrina não fica perdido no meio da multidão, e é esteticamente tão interessante quanto a delícia de história dirigida por Billy Wilder.

Sabrina concorreu nas categorias de melhor direção, melhor atriz, melhor fotografia em preto e branco, melhor direção de arte em preto e branco e melhor roteiro, e ganhou como melhor figurino em preto e branco. Aqui o trailer pra quem quiser assistir.

O Jogo Proibido do Amor parece ser uma comédia romântica divertidíssima de se assistir e foi o segundo filme em que Edith Head levou o Oscar de melhor figurino tendo Lucille Bal, nossa eterna Lucy de I Love Lucy, como protagonista.

Saem os vestidos cheios de firulas e entra um visual muito mais clean, mas nem por isso menos elegante, com conjuntinhos e pérolas roubando a cena. Eram os anos 60 começando e renovando os tipos de filmes que o cinema até então produzia e priorizava.

O Jogo Proibido do Amor foi indicado nas categorias de melhor canção, melhor roteiro original, melhor direção de arte em preto e branco e melhor fotografia em preto e branco, e ganhou a estatueta por melhor figurino em preto e branco.

Depois de uma sucessão de premiações ao longo de toda a década de 50 e começo da de 60, Edith Head teve um hiato de Oscars até 1974, quando com o filme “Um Golpe de Mestre” a figurinista voltou a brilhar. E brilhar de uma forma que antes nunca havia feito, afinal, foi deixado de lado os vestidos, as festas e toda a sua sabedoria sobre o guarda-roupa feminino, e colocado em cena os figurinos masculinos, já que Um Golpe de Mestre tem como personagens principais uma dupla de vigaristas.

A comédia que foi inspirada em fatos reais, apresentava um novo desafio para Edith, que apesar de já ter trabalhado incansavelmente com atores, tinha sempre atrizes como as grandes estrelas de suas produções. Eram sempre as mulheres que ditavam o tom do filme e era em seus figurinos que Edith podia sonhar e ousar.

Se reinventando, Edith criou figurinos impecáveis para Robert Redford e Paul Newman, recriando o espírito da década de 30 e reforçando personalidades e funções que cada um dos personagens cumpria dentro da dupla de trapaceiros.

Um Golpe de Mestre ganhou Oscar de melhor figurino (o cinema colorido havia se popularizado de vez e a academia não dividia mais a categoria), melhor direção de arte, melhor trilha sonora, melhor montagem, melhor roteiro original, melhor direção e melhor filme. Aqui tem o trailer pra quem quiser assistir.

 

Tão gostando do #aquecimentooscar, gente? Tô atrasada com as coisas que queria escrever aqui, mas prometo postar mais sobre o assunto ainda essa semana! E ah, quem ainda não viu, não esquece de dar uma olhadinha no primeiro post que entrou da série falando sobre os últimos curtas de animação que ganharam a premiação.

Bisous, bisous