Escrevi esse texto, originalmente, em setembro de 2013 para o À Moda da Casa, uma consultoria de moda para onde eu colaborava até o ano passado. Relendo-o, me deu uma vontade danada de trazê-lo pra cá (com algumas modificações pra contextualizar, é claro)!

Primeiro porque admiro muito mesmo o trabalho do Alexandre e já fiz até um post aqui no blog com looks de TODOS os desfiles dele, desde sua formatura na FASM até a primavera de 06/07. E também porque queria compartilhar a foto do editorial da Vogue e o vídeo de backstage dessa produção – que são mesmo lindos. Pra quem gosta de acompanhar a moda brasileira em um sentido mais histórico, é de deixar qualquer um emocionado 😉

Era final do ano de 1993 e o curso de moda da Faculdade Santa Marcelina, um dos mais respeitados do país, se preparava para o seu tradicional desfile de formatura. Havia muita expectativa em torno de alguns formandos que iriam se apresentar naquela noite, mas o que provavelmente pouca gente imaginava é que aquele desfile seria o cartão de boas-vindas para que um dos maiores estilistas do país começasse de fato sua carreira.

Já se passaram 20 anos desde aquela noite e Alexandre Herchcovitch, o garoto que tinha fama de undergorund, terminou aquele desfile com a certeza de que uma nova fase começava em sua vida.

Ele criou sua própria marca de roupas e foi chamado as pressas por Paulo Borges para completar o line-up do primeiro Phyoervas Fashion, evento embrionário do SPFW. Faltavam pouquíssimos dias para o desfile, mas Alexandre aceitou o desafio mesmo assim, e na data marcada fez uma apresentação que tinha a sua cara: uma mistura de androginia com o lado escuro e perverso da moda.

Inspirações para aquela coleção não faltaram, afinal, antes mesmo de terminar a Santa Marcelina, Herchcovitch já vinha desenvolvendo um estilo próprio, fruto do trabalho que fazia vestindo as prostituas e figuras da noite paulistana. Esse lado undergournd de Herchcovitch perdurou ainda por muitas de suas coleções e até hoje, mesmo em suas peças mais cândidas e suaves, o lado dark do estilista ainda parece aflorar. A caveira se transformou em um de seus maiores símbolos e não foram poucos os desfiles em que o designer trouxe elementos de fetiche e goticismo para a passarela.

A foto histórica feita para a revista Vogue Brasil set/2013

Algumas das lembranças mais memoráveis da moda brasileira estão, com certeza, entre as coleções desfiladas pelo estilista ao longo desses 20 anos. As modelos com os rostos totalmente cobertos em um clima super pesado no inverno de 1997; as influências japônicas tão fortes do inverno de 1999; a parceria com a Disney que colocou até as orelhinhas do Mickey na passarela no inverno 2003 masculino e, mais recentemente, os modelos que ganharam maquiagens de caveira no rosto em seu inverno 2010.

O que fica de certeza é que o que Alexandre alcançou ao longo de sua carreira é um feito muito difícil, e que muitos estilistas de longa estrada ainda não conseguiram realizar: uma moda conceitual que também seja vendável. Esse equilíbrio sempre permeou sua carreira, dando liberdade para que o designer trabalhasse seu estilo muito além das roupas. Tanto que hoje, seu nome está estampado em peças que vão desde coleções de cama, mesa e banho até band-aids, levando o nome de Herchcovitch muito além do mundo da moda.

Para comemorar esses 20 anos de história, a Vogue prestou uma bela homenagem ao estilista. A edição de setembro [de 2013] traz uma foto clicada pelo fotógrafo Miro em que 20 modelos usam 20 looks by Alexandre Herchcovitch, cada um representando 20 momentos dos 20 anos de carreira do estilista. Entre as tops clicadas estão nomes como Geanine Marques, musa de Alexandre e figurinha certeira em seus desfiles; Carol Ribeiro, Luciana Curtis e mais uma lista de tops incríveis. Há ainda um texto de Costanza Pascolato sobre o designer e um editorial estrelado por Isabelli Fontana apenas em looks by Alexandre Herchcovitch.

Homenagem a altura do homenageado.