“One day you’ll be cool.” 
Frase de despedida de Anita (Zooey Deschanel) para seu irmão caçula William (Patrick Fugit) quando sai de casa para encarar uma nova vida.

Você tem 15 anos, mas não é como os rapazes de 15 anos da sua escola. Você tem uma mãe controladora, é introvertido, zoado por meio mundo e tem a certeza de que seu maior sonho na vida, – o de se tonar um crítico musical – está há milhas de distância de se realizar. Só que aí um belo dia você acorda e parece que o destino acordou de bom humor e, magicamente, resolveu mudar a sua história. Você consegue um freela pra Rolling Stones (!) e, pra poder cumprir a pauta solicitada, precisa acompanhar a turnê da sua banda preferida.

Parece mentira, eu sei, mas a verdade é que a história aqui de cima aconteceu de verdade e foi protagonizada por Cameron Crowe. Cameron era um jovem aspirante a crítico musical quando no começo da década de 70 conseguiu seu primeiro trabalho na área. O trabalho dos sonhos, diga-se de passagem: acompanhar o Led Zeppelin em uma turnê e conviver com os integrantes da banda 24 horas por dia, registrando tudo o que era possível para poder escrever uma matéria para a Rolling Stone. Muita coisa aconteceu naquela turnê e, anos depois, já adulto e trabalhando como diretor de cinema, Cameron achou que aquilo daria um bom filme. Fez alguns ajustes ali, outros aqui, mas manteve a essência da história fiel.

E estava pronto então o roteiro de “Quase Famosos”, filme que em 2001 foi indicado ao Oscar de melhor edição, melhor atriz coadjuvante (com dupla participação de Frances Mcdormand e Kate Hudson) e ainda levou pra casa a estatueta de melhor roteiro original.

Em “Quase Famosos”, William é o garoto que representa Cameron e que vai realizar o sonho de conhecer sua banda – no filme chamada de “Stillwater” – e acompanhá-los em uma turnê. No filme ele tem 15 anos; na história real o diretor era um pouco mais velho que isso, mas nem de longe isso apaga a magia do que aconteceu.

O que talvez mais impressione em Quase Famosos é que quando William finalmente vive seu sonho, ele se descobre muito mais pessoalmente do que profissionalmente. Os seus grandes ídolos, astros da música, são caras problemáticos, cheios de inseguranças, que ganham a vida fazendo aquilo que amam, mas que também se sentem pressionados por uma indústria que é ilusória: em um dia rei, no outro um mero desconhecido. A graça que a gente vê em cada personagem desse filme é linda porque é real: das fãs que acompanham os shows e que tentam provar para os outros (ou será que é pra elas mesmas?) que elas não são apenas groupies, até o agente da banda que nem de longe é um cara experiente no assunto, mas que em compensação é o cara que sempre esteve ali por eles.

Todo esse cenário de loucura, paixão, músicas, mas, principalmente, de muita humanidade, é tudo que o garoto precisava para uma boa pauta. Mas, – que se faça uso de um bom clichê aqui – quem aprendeu muito mais foi ele. As histórias que ficaram guardadas (Penny Lane existiu de verdade, assim como Lester Bangs), a vida na estrada, o sofrimento mascarado pelo sucesso, o medo de ser “só mais um”… Tudo é jogado no colo de William.

Quase Famosos é, acima de tudo, um filme sobre o poder da música. O poder revolucionário que o rock inflamou na década de 70 e que se estendeu para a moda, para o comportamento, para o cinema e até para a forma de pensar dos jovens daquela década. O poder que uma canção tem de resumir o que a gente sente ali, em uns poucos minutos de harmonia e voz, como quando William explica pra sua mãe em forma de música porque o rock abre horizontes (essa cena foi deletada do longa por problemas com os direitos autorais e é uma perda e tanto pra história). Há ainda o poder que a música tem de curar uma dor, um momento ruim, um dia cinzento. O sentimento pode não ser permanente, mas por alguns minutos ela faz a gente sorrir, faz a gente se sentir meio idiota de estar reclamando de algo, faz até a gente adotar uma postura diferente diante de uma situação.

Em Quase Famosos tudo gira em torno da música. Os motivos, as vontades, as lições, as perdas, as vitórias, até a felicidade.

Pode até ser um filme semibiográfico da vida do diretor, mas pra mim ele é um filme completamente biográfico da vida de todos nós, de quando quebramos um casulo e descobrimos todo um outro mundo que existe lá fora, que tava só esperando pela gente. Há quem chame isso de amadurecimento e a quem prefira expressar esse aprendizado diário em forma de música…

“Yes, there are two paths you can go by, but in the long run
There’s still time to change the road you’re on” – Stairway to Heaven, Led Zeppelin

{Sim, há dois caminhos que você pode seguir, mas na longa caminhada
Ainda há tempo de mudar o caminho que você segue}